Uma liderança que nenhum país gostaria de ostentar
Mesmo após novo corte da Selic, o Brasil continua no topo do ranking mundial de juros reais, reflexo da inflação resistente, do risco fiscal e da desconfiança sobre as contas públicas

O Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu reduzir novamente a taxa básica de juros da economia brasileira. O corte foi de 0,25 ponto percentual, levando a Selic de 14,25% para 14% ao ano.
A decisão já era amplamente esperada pelo mercado financeiro e representa a quarta redução consecutiva promovida pelo Copom. O Banco Central justificou o movimento pelos sinais de desaceleração da inflação e de perda gradual de ritmo da atividade econômica, mas ressaltou que o cenário ainda exige cautela.
Embora a redução seja positiva para consumidores, empresas e para o próprio governo, o Brasil continua convivendo com uma das taxas de juros mais elevadas do planeta.
Mais do que isso: permanece na liderança mundial dos juros reais.
Levantamentos privados divulgados após as decisões monetárias colocam a taxa real brasileira próxima de 9,3% ao ano, com a Rússia aparecendo logo atrás. Os percentuais exatos podem variar conforme a metodologia, a inflação projetada e a taxa de mercado considerada, mas a conclusão permanece a mesma: o Brasil continua pagando um dos juros reais mais altos do mundo.
Essa é uma liderança que nenhum país gostaria de ostentar.
Os juros reais representam, de forma simplificada, aquilo que sobra da taxa nominal depois de descontada a inflação esperada. O cálculo mais preciso utiliza uma fórmula que considera a relação entre as duas taxas, e não apenas uma subtração direta.
Mesmo com a Selic reduzida para 14%, o retorno real oferecido aos investidores continua extremamente elevado porque as projeções de inflação permanecem significativamente inferiores à taxa básica de juros.
O IPCA acumulado em 12 meses até junho ficou em 4,33%. O percentual representa uma desaceleração, mas ainda se encontra acima do centro da meta de inflação, fixado em 3%, embora dentro do limite máximo de tolerância de 4,5%.
A decisão do Copom parece considerar mais as perspectivas futuras do que a situação presente. A inflação demonstra sinais de moderação, a economia perde parte de seu ritmo e as projeções indicam possibilidade de continuidade do processo de redução dos juros.
Mesmo assim, as dificuldades permanecem evidentes.
As contas públicas continuam deficitárias, a dívida cresce e o governo precisa destinar um volume cada vez maior de recursos ao pagamento de juros. Esse ambiente aumenta a percepção de risco e dificulta uma queda mais acelerada da Selic.
Quando investidores enxergam dúvidas sobre a capacidade do país de controlar despesas e estabilizar sua dívida, exigem remuneração maior para financiar o governo. Esse custo termina espalhando-se por toda a economia.
A Selic influencia os juros cobrados nos empréstimos, financiamentos, cartões de crédito e operações destinadas às empresas. Quanto mais elevada permanece a taxa básica, mais caro se torna consumir, investir e produzir.
Para as famílias, juros altos significam prestações maiores, dificuldade para comprar imóveis e veículos e aumento do custo das dívidas.
Para as empresas, representam crédito mais caro para capital de giro, aquisição de máquinas, abertura de novas unidades e contratação de trabalhadores.
Para o governo, significam uma despesa gigantesca com o serviço da dívida pública.
O Brasil vive, portanto, uma contradição. Precisa reduzir os juros para estimular a economia, aliviar as famílias e permitir novos investimentos. Ao mesmo tempo, a inflação resistente e a fragilidade fiscal impedem que o Banco Central faça cortes mais rápidos sem correr o risco de provocar nova pressão sobre os preços e sobre o câmbio.
A taxa elevada não é uma decisão isolada ou resultado apenas da vontade dos integrantes do Copom. Ela reflete problemas que ultrapassam a política monetária.
Enquanto o setor público gastar mais do que arrecada, a dívida continuar crescendo e não houver segurança sobre a trajetória das contas nacionais, o custo do dinheiro permanecerá pressionado.
É possível questionar o ritmo adotado pelo Banco Central. Faz parte do debate democrático discutir se os cortes poderiam ser maiores ou se a manutenção de juros tão elevados já produz danos excessivos à economia.
Mas também é necessário reconhecer que não existe solução sustentável baseada apenas em reduzir a Selic por decisão administrativa.
Se os juros forem diminuídos sem condições econômicas que sustentem essa queda, o resultado poderá aparecer na inflação, na desvalorização da moeda e na perda de confiança. Depois, o próprio Banco Central seria obrigado a elevar novamente a taxa.
A solução definitiva precisa vir acompanhada por responsabilidade fiscal, controle das despesas, maior produtividade e crescimento econômico consistente.
O país precisa construir confiança.
Precisa mostrar que possui capacidade de pagar seus compromissos, controlar sua dívida e preservar o valor da moeda. Quanto menor a percepção de risco, menor tende a ser a remuneração exigida pelos investidores.
O corte de 0,25 ponto percentual representa um movimento na direção correta, mas ainda é pequeno diante do tamanho do problema.
Uma Selic de 14% continua sendo extremamente elevada. E uma taxa real próxima de 9% mostra o quanto o Brasil permanece distante de um ambiente econômico normal.
Países desenvolvidos e economias consideradas seguras conseguem financiar suas atividades pagando juros reais muito inferiores, em alguns casos próximos de zero ou até negativos.
O Brasil paga mais porque carrega um histórico de inflação, desequilíbrio fiscal, instabilidade e baixa confiança na capacidade de manter políticas econômicas de longo prazo.
Essa conta não é paga apenas pelo governo.
Ela chega às famílias, às empresas, aos trabalhadores e a todos que precisam de crédito.
A liderança mundial dos juros reais não representa força econômica. Representa risco, desconfiança e o custo de problemas que o país ainda não conseguiu resolver.
A Selic começou a cair. Agora, o desafio é criar as condições para que continue caindo de forma segura e permanente.
Para isso, não basta depender das decisões do Banco Central. O governo e o Congresso também precisam cumprir sua parte, reorganizando as contas públicas e oferecendo ao país uma perspectiva fiscal confiável.
Enquanto isso não acontecer, o Brasil continuará ocupando uma posição que deveria causar preocupação, e não orgulho.
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