Grupo Tigre — de Joinville às obras do Brasil, a marca que virou sinônimo de confiança

Em 1941, em Joinville, João Hansen Júnior começou uma história que parecia pequena diante do que se tornaria. A Tigre nasceu fabricando pentes, leques e acessórios de plástico, num tempo em que o material ainda era novidade para grande parte dos brasileiros. O que havia ali era mais do que uma fábrica: era a percepção de que o plástico poderia transformar hábitos, reduzir custos e abrir caminhos industriais. Poucos anos depois, essa intuição mudaria para sempre a construção civil no país.
A grande virada veio na década de 1950, quando a Tigre iniciou a produção de tubos e conexões de PVC para instalações hidráulicas. A mudança pode parecer técnica, mas foi quase uma revolução silenciosa. Em vez de materiais mais pesados, caros e difíceis de instalar, o PVC oferecia leveza, durabilidade e praticidade. O produto entrou nas obras, nos bairros, nos canteiros, nas casas; e, com o tempo, o nome Tigre deixou de ser apenas uma marca para se tornar referência de categoria. Em muitas regiões do Brasil, pedir “um cano Tigre” passou a ser quase sinônimo de pedir qualidade.
A força da empresa não nasceu apenas do produto. Nasceu também de uma compreensão rara para a época: era preciso ensinar o mercado a usar a inovação. Em 1959, a Tigre já se destacava pelo pioneirismo em publicidade e propaganda; em 1967, avançou com cursos para encanadores, uma política de capacitação que ajudou a profissionalizar a construção civil. A empresa entendeu cedo que vender tubos e conexões era apenas parte do trabalho. A outra parte era formar quem aplicava, especificava e confiava na solução.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes da trajetória do grupo. A Tigre cresceu porque entrou na rotina de quem constrói. Está na obra grande e na pequena reforma, no prédio, na casa simples, no saneamento, na irrigação, na indústria, na infraestrutura urbana. Seu portfólio se ampliou para hidráulica, elétrica, drenagem, acessórios sanitários, infraestrutura, saneamento, indústria, irrigação, ferramentas para pintura e soluções de água e efluentes. É uma presença que muitas vezes fica escondida atrás da parede, enterrada no solo ou protegida sob o piso — mas que sustenta o funcionamento do lar e da cidade.
A internacionalização começou ainda nos anos 1970, com a constituição da Tubopar, no Paraguai, em 1977. Depois vieram movimentos em países como Argentina, Chile, Bolívia, Estados Unidos, Peru, Colômbia, Uruguai e Equador. A partir dos anos 2000, a companhia intensificou esse caminho, combinando unidades próprias, aquisições e presença comercial. A Tigre, nascida em Joinville, passou a atuar em cerca de 30 países, com produtos vendidos em mais de 90 mil pontos de venda no Brasil e no exterior, mais de 5 mil profissionais e portfólio superior a 15 mil produtos.
Nos Estados Unidos, a expansão ganhou peso estratégico. A Tigre entrou no mercado norte-americano em 2006, primeiro com centro de distribuição; depois, em 2007, com a inauguração da Tigre USA. Em 2021, a aquisição da Dura Plastic Products, fabricante e distribuidora de componentes de tubulação de PVC com sede na Califórnia, colocou a empresa em outro patamar no maior mercado de construção do mundo. A compra reforçou a estratégia de diversificação geográfica e consolidou os Estados Unidos como um dos mercados-chave para a ambição de liderança nas Américas em sistemas de condução de água.
A evolução também passou por novos negócios no Brasil. Em 2017, a aquisição da Fabrimar marcou a entrada em um novo ramo ligado a soluções para água e efluentes; em 2021, veio a aquisição da Azzo. A história recente mostra uma empresa que segue ampliando fronteiras, mas sem abandonar o eixo central: cuidar da água e oferecer soluções para construção, infraestrutura, saneamento, irrigação e uso eficiente dos recursos.
Os números ajudam a dimensionar essa trajetória. No ranking Valor 1000, com dados de 2024, a Tigre aparece entre as grandes companhias de Santa Catarina no setor de plásticos e borracha, com receita líquida de R$ 4,82 bilhões. Mais do que um número isolado, o dado mostra a permanência de uma empresa que atravessou gerações, ciclos econômicos, mudanças tecnológicas e transformações profundas no setor da construção.
Mas, como em toda grande história empresarial catarinense, o que sustenta a marca vai além de faturamento, fábricas e pontos de venda. Está na cultura de inovação, na formação técnica, no relacionamento com profissionais da obra, na confiança do lojista, na rotina do instalador, no trabalho de quem opera máquinas, desenvolve produtos, entrega pedidos, atende clientes e resolve problemas. A Tigre está presente em algo essencial e, muitas vezes, invisível: a infraestrutura que permite a água chegar, escoar, tratar, irrigar e transformar a vida das pessoas.
Há também um compromisso social ligado à cidade de origem. O Instituto Carlos Roberto Hansen, braço social da companhia, já beneficiou milhões de pessoas e investiu dezenas de milhões de reais em projetos de educação, esporte e saúde, reforçando a ligação histórica da empresa com Joinville e com as comunidades do entorno. É uma dimensão importante do legado: crescer sem esquecer que a indústria também forma território, oportunidades e pertencimento.
Em 2024, a empresa iniciou uma nova etapa de liderança com a chegada de Luis Felipe Dau à presidência do Grupo Tigre, sucedendo o ciclo de Otto von Sothen. A escolha de um executivo com experiência global em indústria, qualidade, operações e mercados internacionais indica a continuidade de uma estratégia que combina tradição, eficiência e expansão. A Tigre chega a essa fase com o desafio de crescer em um mundo que exige mais produtividade, mais sustentabilidade e mais inteligência no uso da água.
Linha do tempo — marcos essenciais
• 1941 — Fundação da Tigre, em Joinville, por João Hansen Júnior, inicialmente com fabricação de pentes, leques e acessórios plásticos.
• 1952 — Início da produção de tubos e conexões de PVC para instalações hidráulicas.
• 1959 — Pioneirismo em publicidade e propaganda.
• 1967 — Cursos para encanadores, reforçando a formação técnica na construção civil.
• 1977 — Primeiro passo internacional com a constituição da Tubopar, no Paraguai.
• 2007–2009 — Avanço internacional e início da joint venture com a ADS, voltada a soluções de drenagem e saneamento.
• 2017 — Aquisição da Fabrimar e entrada em novo ramo de soluções para água e efluentes.
• 2021 — Aquisição da Azzo, no Brasil, e da Dura Plastic Products, nos Estados Unidos.
• 2024 — Tigre aparece no Valor 1000 com R$ 4,82 bilhões de receita líquida e entre as maiores empresas catarinenses do setor de plásticos e borracha.
• 2024 — Luis Felipe Dau assume a presidência do Grupo Tigre.
Mais do que uma sequência de conquistas industriais, a história do Grupo Tigre é um retrato do que Santa Catarina constrói quando une visão, persistência e utilidade pública. A empresa começou com pequenos artefatos plásticos e ajudou a modernizar a construção civil brasileira; nasceu em Joinville e chegou a obras, lavouras, redes de saneamento e sistemas de água em diferentes países.
Fica aqui o reconhecimento aos fundadores, às lideranças que deram continuidade ao projeto, aos trabalhadores de fábrica, aos profissionais da obra, aos revendedores e aos clientes que fizeram da Tigre uma marca de confiança. Porque algumas empresas aparecem pela fachada; outras, como a Tigre, mostram sua grandeza justamente onde quase ninguém vê: dentro das paredes, sob o chão, nas redes que conduzem água e na infraestrutura que faz a vida seguir.
