Grupo Koerich — de São José ao varejo que virou parte da vida catarinense

Em 1955, em São José, Eugênio Raulino Koerich abriu uma fiambreria e armazém no imóvel que hoje preserva a memória da família. Era um comércio simples, de balcão, conversa e confiança, nascido em uma Santa Catarina que ainda crescia em ritmo de vizinhança. Aquele começo modesto — ligado ao alimento, ao atendimento próximo e à palavra empenhada — daria origem a uma das marcas mais reconhecidas do varejo catarinense. Décadas depois, o Koerich deixaria de ser apenas uma loja para se tornar parte da rotina de milhares de famílias que compraram ali o primeiro fogão, a primeira geladeira, o primeiro sofá, a primeira televisão da casa.

A expansão começou cedo. Em 1963, a família chegou a Florianópolis, inicialmente com um supermercado, ampliando a presença para além de São José e iniciando uma trajetória que acompanharia o crescimento urbano da Grande Florianópolis e, depois, de todo o Estado. O tempo transformou o perfil do negócio: da fiambreria e do armazém ao varejo de móveis, eletrodomésticos, eletrônicos, colchões, utilidades domésticas e itens para casa. Mas a essência permaneceu: vender com proximidade, entender o cliente pelo nome e fazer do relacionamento um ativo tão importante quanto o produto na vitrine.

O Koerich cresceu com uma decisão estratégica incomum em um país onde muitas empresas sonham primeiro em atravessar fronteiras estaduais. A rede escolheu aprofundar sua presença em Santa Catarina. Em vez de buscar escala nacional a qualquer custo, concentrou energia em conhecer melhor o território catarinense, suas cidades, sua cultura de consumo e suas diferenças regionais. Essa escolha ajudou a formar aquilo que a Exame definiu, em 2026, como um “gigante regional”: uma empresa de faturamento bilionário que construiu força ficando praticamente no mesmo lugar, com cerca de 130 lojas no Estado.

A própria marca resume hoje seu tamanho com números expressivos: 135 lojas físicas, presença em 66 cidades catarinenses e cerca de 1.800 colaboradores. Em 2025, ao completar 70 anos, o Koerich foi apresentado em reportagens estaduais como uma rede com mais de 130 lojas, espalhada por dezenas de municípios, mantendo gestão familiar, multigeracional e profissionalizada. É um crescimento que não se explica apenas por ponto comercial. Explica-se por uma cultura de permanência, por presença física forte e por um tipo de atendimento que o catarinense aprendeu a reconhecer como “gente nossa”.

Um dos pilares dessa história é o crediário. Em muitas cidades, especialmente onde a relação de confiança pesa tanto quanto a taxa de juros, o carnê não foi apenas uma forma de pagamento: foi uma ponte de acesso ao consumo. Segundo reportagem da Exame, duas em cada cinco compras ainda são feitas nesse modelo, que funciona como um sistema próprio de crédito e permite atender clientes que nem sempre encontram facilidade nas formas tradicionais de financiamento. Para uma rede varejista, isso exige rigor: vender bem, conceder crédito com responsabilidade e acompanhar de perto o comportamento de cada loja.

A tecnologia entrou justamente para sustentar essa proximidade, não para substituí-la. A empresa passou a integrar vendas, crédito e gestão por sistemas próprios e, mais recentemente, fortaleceu iniciativas digitais ligadas à jornada do cliente. A transformação da Kredilig em Kab, plataforma para o gerenciamento online do crediário, e o laboratório de inovação KLab mostram uma tentativa de atualizar o modelo sem romper com a essência que sustentou a marca por décadas: loja física, atendimento humano, crédito, confiança e presença local.

Também houve mudança no formato das lojas. A rede passou a investir em megalojas, com espaços maiores, sortimento ampliado e novos departamentos, incluindo utilidades, eletroportáteis, utensílios de cozinha, bazar, eletrônicos, automotivos e linha infantil. É uma resposta ao novo comportamento do consumidor: quem vai comprar um móvel pode querer levar também itens de decoração; quem troca um eletrodoméstico pode buscar soluções completas para a casa. A estratégia é ampliar a relação com o cliente sem perder a simplicidade do atendimento.

Como em toda empresa de varejo, os números mostram o tamanho, mas não explicam tudo. O que dá sentido à trajetória do Koerich está nos bastidores: vendedores que conhecem as famílias, equipes de entrega e montagem que entram nas casas, profissionais de crédito que analisam cada compra, times de estoque, logística, atendimento, tecnologia e pós-venda. Há uma engrenagem silenciosa por trás de cada produto entregue e montado. E, nesse ponto, o Koerich se confunde com a própria memória afetiva de Santa Catarina: uma marca que cresceu acompanhando casamentos, mudanças de casa, nascimento de filhos, reformas, conquistas e recomeços.

A longevidade também exigiu passagem de bastão. Em 2025, reportagens sobre os 70 anos da rede destacaram a presença de três gerações da família na operação, sob liderança de Antônio Koerich, mantendo continuidade sem abandonar a profissionalização. Empresas familiares só atravessam décadas quando conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo: respeitar a origem e aceitar a mudança. O Koerich chegou a esse ponto preservando o que tinha de mais valioso — a confiança local — e incorporando novas ferramentas para competir com gigantes nacionais e plataformas digitais.

Linha do tempo — marcos essenciais
1955 — Eugênio Raulino Koerich abre a primeira fiambreria e armazém em São José, origem da trajetória empresarial da família.
1963 — Chegada a Florianópolis, inicialmente com um supermercado, ampliando a presença na Grande Florianópolis.
Anos 1990 — Com a reorganização dos negócios familiares, Antônio Koerich assume o braço de varejo e concentra a expansão dentro de Santa Catarina.
2003 — A empresa passa a operar sistema próprio integrando vendas, crédito e gestão, segundo relato publicado pela Exame.
2025 — Koerich celebra 70 anos, com nova marca, campanhas comemorativas e mais de 130 lojas em dezenas de cidades catarinenses.
2026 — Rede se apresenta com 135 lojas físicas, presença em 66 cidades de Santa Catarina e cerca de 1.800 colaboradores.
Atualidade — Expansão das megalojas, avanço de marcas próprias, crediário digital e fortalecimento da jornada omnicanal.

Mais do que uma sequência de inaugurações, a história do Grupo Koerich é um retrato de uma Santa Catarina que cresceu sem abrir mão da proximidade. A empresa entendeu cedo que varejo não é apenas vender produto: é criar relação, financiar sonhos possíveis, entregar confiança e estar presente quando a família decide melhorar a própria casa.

Fica aqui o reconhecimento aos fundadores, às gerações que deram continuidade ao negócio, aos colaboradores que fazem a loja funcionar e aos clientes que ajudaram a transformar o Koerich em uma marca profundamente catarinense. Em um tempo de comércio cada vez mais impessoal, a trajetória do grupo lembra que a maior tecnologia do varejo ainda pode ser a mais antiga de todas: conhecer as pessoas, atender bem e construir confiança todos os dias.

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