O Brasil escolherá muito mais do que um presidente: escolherá um modelo de país

Disputa polarizada coloca diante do eleitor duas formas distintas de enxergar o papel do Estado, a economia, os programas sociais e a relação com o Congresso

Salvo alguma mudança relevante durante a campanha, a eleição presidencial de 2026 caminha para uma disputa concentrada entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.

As pesquisas mais recentes mostram Lula liderando o primeiro turno e uma diferença significativamente menor quando os dois são colocados frente a frente em um eventual segundo turno. Em alguns levantamentos, o cenário já aparece tecnicamente empatado.

Mas talvez seja importante olhar para essa eleição por um ângulo diferente.

Mais do que escolher entre dois nomes, o brasileiro estará escolhendo entre duas concepções distintas sobre como governar o país.

Não estamos tratando aqui das qualidades ou defeitos pessoais dos candidatos.

Estamos falando de modelos.

O modelo representado por Lula é conhecido.

Aos 80 anos e buscando um quarto mandato presidencial, ele já governou o país durante três períodos e possui uma forma bastante definida de administrar.

Lula acredita em um Estado com papel relevante na indução da economia, presença de empresas públicas estratégicas, políticas sociais amplas e utilização do poder público como instrumento para redução das desigualdades.

Programas como Bolsa Família, Farmácia Popular, Pé-de-Meia, Vale-Gás e subsídios destinados às famílias de menor renda fazem parte dessa concepção.

Sua própria campanha de 2026 mantém o foco na redução das desigualdades e na utilização do Estado como instrumento de desenvolvimento e proteção social.

Lula possui também outra característica conhecida.

Sabe negociar com o Congresso Nacional.

Ao longo de seus governos, construiu maiorias por meio de coalizões partidárias, participação de diferentes legendas na administração, ministérios, emendas parlamentares e negociação das pautas de interesse do Executivo.

Pode-se concordar ou discordar desse modelo.

Mas ninguém pode dizer que ele seja desconhecido.

O eleitor já sabe, em grande medida, como Lula governa.

Com Flávio Bolsonaro, a situação é diferente.

Esta é sua primeira disputa por um cargo executivo nacional.

Portanto, não existe ainda uma administração sua que permita avaliar concretamente como conduziria a Presidência da República.

O que temos são suas declarações, seu programa de governo e a trajetória política que construiu ao lado de Jair Bolsonaro.

Na economia, Flávio apresenta uma orientação mais liberal e conservadora.

Seu programa fala em controle das despesas, equilíbrio fiscal, redução da relação dívida/PIB e limitação do crédito subsidiado pelo Tesouro. Também defende uma regra mais rígida para os gastos discricionários do governo.

A proposta aponta para um Estado mais contido na economia e maior protagonismo da iniciativa privada.

Ao mesmo tempo, isso não significa simplesmente extinguir políticas sociais.

Durante a campanha, Flávio já afirmou que pretende manter o Bolsa Família e vem anunciando programas direcionados ao empreendedorismo, como o “Minha Primeira Empresa”.

Portanto, a diferença entre os dois modelos não está em decidir se o Estado terá ou não políticas sociais.

Está principalmente na intensidade dessa participação e na forma como cada campo entende o papel do governo na economia.

Lula parte de uma visão na qual o Estado possui presença maior e utiliza programas públicos como instrumento permanente de redução das desigualdades.

Flávio sinaliza uma estrutura mais liberal, buscando reduzir despesas, ampliar o protagonismo privado e estimular crescimento por meio da atividade empresarial.

São caminhos diferentes.

E o eleitor terá o direito de escolher qual deles considera mais adequado para o Brasil.

Mas existe uma realidade que precisa acompanhar qualquer escolha.

Nenhum dos dois resolverá os problemas brasileiros em quatro anos.

Talvez essa seja uma das poucas afirmações que deveriam unir todos os campos políticos.

O Brasil carrega problemas acumulados durante décadas.

Dívida pública elevada.

Contas fiscais deficitárias.

Juros altos.

Baixa produtividade.

Infraestrutura insuficiente.

Dificuldades na educação.

Violência.

Saneamento básico incompleto.

Milhões de famílias dependentes de programas sociais.

Empresas e consumidores endividados.

Problemas dessa dimensão não desaparecem com uma eleição.

Também não existe candidato capaz de entrar no Palácio do Planalto em janeiro e entregar um país completamente diferente quatro anos depois.

Quem afirmar isso estará vendendo uma expectativa impossível.

O que um presidente pode fazer é escolher uma direção.

Criar prioridades.

Iniciar reformas.

Melhorar aquilo que for possível.

Preparar as bases para que governos seguintes continuem avançando.

E talvez seja justamente isso que o brasileiro precise avaliar em 2026.

Não apenas quem fala melhor.

Não apenas quem ataca melhor o adversário.

Não apenas quem possui maior identificação ideológica com determinada parcela da população.

Mas qual modelo oferece melhores condições para colocar o país em uma trajetória sustentável de desenvolvimento.

O eleitor poderá escolher mais Estado.

Ou poderá escolher um Estado mais enxuto.

Poderá escolher maior utilização de programas públicos para proteção social.

Ou poderá priorizar políticas voltadas à expansão da iniciativa privada e ao crescimento econômico.

Poderá preferir um governante cuja forma de administrar já conhece.

Ou apostar em outro que ainda precisará demonstrar, na prática, aquilo que hoje apresenta em seu programa.

Essa é a democracia.

E não existe garantia antecipada de que qualquer uma das escolhas produzirá os resultados esperados.

O Brasil é grande demais e seus problemas são antigos demais para soluções mágicas.

Quem vencer terá dificuldades enormes.

Precisará negociar com um Congresso fragmentado.

Precisará controlar despesas.

Precisará gerar crescimento.

Precisará preservar políticas sociais.

Precisará investir em infraestrutura.

Precisará melhorar serviços públicos.

E terá apenas quatro anos para começar a enfrentar desafios construídos durante décadas.

A eleição poderá definir o caminho.

Não definirá imediatamente o destino.

Talvez essa seja a maior responsabilidade do eleitor em outubro:

escolher não apenas quem deseja ver governando o Brasil, mas qual direção acredita ser capaz de construir um país melhor no longo prazo.

Porque, independentemente de quem vencer, os próximos anos continuarão exigindo sacrifícios, responsabilidade e escolhas difíceis.

É uma realidade dura.

Mas é muito melhor conhecê-la antes da eleição do que descobri-la depois.

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