Santa Catarina não precisa de narrativa: precisa corrigir uma injustiça histórica

Críticas à relação entre Jorginho Mello e Lula simplificam um problema que atravessa décadas e diferentes governos federais

Tenho acompanhado entrevistas e pronunciamentos de candidatos ao Governo de Santa Catarina e ao Senado que apresentam uma crítica recorrente ao governador Jorginho Mello: a falta de diálogo ou de uma relação mais próxima com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria prejudicando o estado.

Uma boa relação institucional entre governador e presidente da República é sempre desejável.

Mas transformar essa relação na explicação para os problemas de Santa Catarina com o governo federal é simplificar demasiadamente uma questão muito mais antiga.

A defasagem catarinense não começou com Jorginho Mello nem com Lula.

Ela atravessa décadas.

Passou por presidentes e governadores de diferentes partidos.

E quem acompanhou essa relação de perto sabe disso.

Durante anos, este editor teve a oportunidade de participar diretamente desse processo. Como secretário de Estado, acompanhei o então governador Luiz Henrique da Silveira em inúmeras viagens a Brasília entre 2003 e 2010.

Luiz Henrique possuía trânsito político nacional.

Era respeitado.

Conhecia ministros, parlamentares, dirigentes partidários e mantinha diálogo com o governo federal.

Mesmo assim, os resultados obtidos para Santa Catarina ficaram muito aquém daquilo que o estado representava economicamente e daquilo que necessitava em infraestrutura.

Portanto, relacionamento político ajuda.

Mas não resolve sozinho.

Anos depois, durante o governo Raimundo Colombo, surgiu outro exemplo emblemático, que acompanhei e participei..

Em 2012, a Resolução nº 13 do Senado alterou a tributação interestadual de produtos importados, no episódio conhecido como o fim da “guerra dos portos”. Santa Catarina, que possuía importante atividade econômica vinculada às importações por seus portos, estimava perdas expressivas de arrecadação com a mudança.

Como parte das medidas destinadas aos estados atingidos, o governo federal disponibilizou operações de crédito por meio do BNDES.

Santa Catarina contratou R$ 3 bilhões dentro do Programa Especial de Apoio aos Estados, o Propae. O próprio BNDES informou na época que o programa tinha como objetivo apoiar unidades da Federação afetadas pela alteração tributária.

Os recursos foram importantes.

Financiaram investimentos.

Permitiram executar obras.

Mas é necessário chamar as coisas pelo nome.

Foi financiamento.

Não foi recurso entregue gratuitamente ao estado.

Santa Catarina assumiu uma dívida, com juros, prazo e obrigação de pagamento. Documentos da própria Secretaria da Fazenda registram que a operação nasceu justamente das negociações posteriores à Resolução 13 e estabelecia custo financeiro para o Estado.

Enquanto isso, a perda provocada pela mudança tributária tornou-se permanente.

Esse episódio ajuda a compreender o verdadeiro problema.

Santa Catarina não precisa apenas de um governador que tenha boa relação com o presidente da República.

Precisa de representantes capazes de transformar a defesa do estado em uma pauta permanente e suprapartidária.

Independentemente de quem esteja no Palácio do Planalto.

Nos últimos anos, Santa Catarina cresceu em população, produção, exportações, indústria, agronegócio e arrecadação.

O estado possui apenas uma pequena parcela do território brasileiro, mas entrega resultados econômicos muito superiores à sua dimensão.

Essa realidade foi construída essencialmente dentro do próprio estado.

Por seus trabalhadores.

Por seus empresários.

Por suas cooperativas.

Por seus municípios.

Por suas instituições.

Por sucessivos governos estaduais e administrações municipais.

Santa Catarina aprendeu, historicamente, a caminhar com as próprias pernas.

Talvez por isso tenha também aprendido a aceitar como normal aquilo que não deveria ser normal.

A questão que deveria estar sendo levantada pelos candidatos não é simplesmente:

“Por que Jorginho Mello não conversa mais com Lula?”

A pergunta deveria ser muito maior:

“O que faremos para que Santa Catarina passe a receber da União um tratamento compatível com aquilo que entrega ao Brasil?”

Essa pauta deveria unir Jorginho Mello, João Rodrigues, Gelson Merísio e qualquer outro candidato.

Deveria unir deputados e senadores de direita, esquerda e centro.

Porque Brasília continuará existindo depois de Lula.

Santa Catarina continuará existindo depois de Jorginho.

Governos passam.

A relação federativa permanece.

Quem garante que uma maior proximidade política com o presidente resolverá o problema? Até hoje nunca resolveu.

A história mostra que não é tão simples.

Luiz Henrique dialogou.

Raimundo Colombo negociou.

Outros governadores também buscaram Brasília.

E a sensação catarinense de contribuir muito e receber pouco atravessou todos esses períodos.

Por isso, talvez esteja na hora de abandonar a narrativa eleitoral e assumir uma causa de Estado.

Santa Catarina precisa de uma espécie de grito de alforria federativa.

Não contra o Brasil.

Muito pelo contrário.

Mas em defesa de uma Federação mais equilibrada, na qual quem contribui, cresce e produz também receba condições adequadas para continuar se desenvolvendo.

Quem pretende representar Santa Catarina em Brasília deveria assumir esse compromisso antes mesmo da eleição.

Não interessa quem será o presidente.

Não interessa quem será o governador.

O interesse de Santa Catarina precisa estar acima dessas circunstâncias.

Porque nossa história já mostrou uma coisa:

boa relação política pode abrir portas.

Mas somente uma representação forte, permanente e unida poderá mudar uma injustiça que atravessa décadas.

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