PERSPECTIVA POLÍTICA: Existe um limite para a ingenuidade na política

Uma declaração que provoca perguntas, uma campanha presidencial que começa com as ruas aparentemente mais frias e uma decisão em Santa Catarina que ajuda a separar governo e eleição mostram diferentes movimentos dos primeiros dias da disputa de 2026.

Uma declaração que chama atenção

Gilberto Kassab não é um iniciante na política.

Preside o PSD desde sua fundação, em 2011, construiu ao longo dos anos uma das siglas mais relevantes do país e conhece profundamente os movimentos, articulações e negociações que fazem parte do ambiente político brasileiro.

Além disso, existe uma circunstância que torna ainda mais relevante uma declaração recente.

O PSD possui candidato à Presidência da República, Ronaldo Caiado.

E o próprio Kassab integra a chapa como candidato a vice-presidente.

Mesmo assim, durante um encontro com empresários, afirmou que o Centrão está com Lula e que Flávio Bolsonaro possui “chance zero” de vencer a eleição presidencial.

Não é uma declaração qualquer.

Principalmente quando observamos quem a fez.

Onde fica o projeto do próprio PSD?

A primeira pergunta é quase inevitável.

Se o PSD possui candidato próprio e Kassab é seu vice, qual o sentido político de antecipar que o Centrão estaria caminhando em direção a Lula?

Naturalmente, pode existir uma estratégia.

Uma possibilidade seria tentar convencer o eleitor de oposição de que Flávio Bolsonaro não possui condições de derrotar Lula e, dessa maneira, abrir espaço para Ronaldo Caiado.

Seria uma tentativa de desconstruir a ideia de que Flávio representa o chamado voto útil contra o atual presidente.

O próprio Caiado iniciou a campanha apresentando-se como alternativa tanto a Lula quanto a Flávio Bolsonaro.

É uma hipótese possível.

Mas existe também a realidade das pesquisas divulgadas até agora.

A disputa permanece fortemente concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto as candidaturas alternativas ainda precisam demonstrar capacidade de romper esse cenário.

E é nesse contexto que a declaração de Kassab ganha outra dimensão.

O efeito produzido é bastante claro

Independentemente da intenção de Kassab, sua declaração produz neste momento duas consequências políticas.

Ao afirmar que o Centrão está com Lula, fortalece a percepção de que o presidente amplia sua capacidade de articulação e começa a atrair setores importantes do centro político.

Ao dizer que Flávio Bolsonaro possui “chance zero” de vencer, atinge diretamente a percepção de viabilidade daquele que, até agora, aparece como principal adversário do atual presidente.

A própria declaração provocou reação imediata de Flávio Bolsonaro e de integrantes de sua campanha.

Portanto, existe um efeito bastante objetivo.

A declaração fortalece politicamente Lula e enfraquece Flávio Bolsonaro.

Foi esse o resultado pretendido?

A pergunta permanece sem resposta

Pode ter sido apenas uma análise eleitoral de Kassab.

Pode fazer parte de uma estratégia para tentar viabilizar Ronaldo Caiado.

Pode representar uma sinalização para movimentos políticos que ainda serão construídos.

Ou pode existir outra motivação que ainda não conhecemos.

A coluna não encontrou elementos que permitam responder.

E não irá transformar hipótese em informação.

Mas existe também um limite para a ingenuidade na análise política.

Estamos falando de Gilberto Kassab.

Um político com décadas de experiência, presidente de um partido nacional desde sua fundação e reconhecido justamente por sua capacidade de articulação.

É difícil imaginar que desconhecesse o impacto que suas palavras produziriam.

Agora é preciso observar os próximos movimentos

Talvez nada aconteça.

Talvez a declaração desapareça rapidamente no cotidiano da campanha.

Mas também é possível que movimentos futuros ajudem a compreender melhor aquilo que hoje parece contraditório.

Por enquanto, temos apenas os fatos públicos.

Kassab integra uma chapa presidencial própria.

A disputa continua polarizada.

E, mesmo assim, ele fez uma declaração que politicamente beneficia um dos dois principais candidatos e enfraquece o outro.

Não sabemos a motivação.

Mas sabemos que Kassab conhece política demais para desconhecer as consequências.

Na política, nem tudo que é percebido pode ser comprovado. E aquilo que não pode ser comprovado não deve ser apresentado como fato. Mas isso não impede uma pergunta legítima: por que um dos mais experientes articuladores políticos do país decidiu dizer, justamente agora, algo cujos efeitos eram perfeitamente previsíveis?


A campanha começou, mas as ruas pareceram mais frias

Os candidatos voltaram às suas origens

O primeiro dia oficial da campanha presidencial teve um roteiro bastante simbólico.

Lula escolheu São Bernardo do Campo, cidade onde construiu sua trajetória sindical e política.

Flávio Bolsonaro começou a campanha no Rio de Janeiro, estado onde nasceu e construiu sua carreira eleitoral.

Ronaldo Caiado concentrou seus primeiros atos em Goiás e no entorno do Distrito Federal, região diretamente ligada à sua trajetória política.

Romeu Zema iniciou a campanha em Minas Gerais, estado que governou por dois mandatos.

As escolhas não foram casuais.

Cada candidato procurou começar a disputa em território associado à sua própria identidade política.

Uma largada menos exuberante

O que chamou atenção da coluna, entretanto, foi o ambiente geral de mobilização.

Houve presença significativa de apoiadores nos principais atos. Lula reuniu mais de 10 mil pessoas em São Bernardo do Campo, enquanto milhares acompanharam Flávio Bolsonaro em Copacabana.

Ainda assim, observando o conjunto dos eventos e comparando-o com a atmosfera das eleições anteriores, a impressão inicial foi de uma campanha menos intensa nas ruas.

Em 2018 e 2022, manifestações públicas, carreatas e grandes concentrações populares tiveram enorme importância na construção das narrativas eleitorais.

Em 2026, pelo menos na largada, o ambiente pareceu mais contido.

É cedo para saber se estamos apenas diante de um começo ainda frio ou de uma transformação na forma de mobilização política.

As redes podem estar ocupando outro espaço

Nos últimos anos, a campanha eleitoral mudou profundamente.

Vídeos curtos, transmissões ao vivo, influenciadores, grupos de mensagens e redes sociais passaram a ocupar parcela cada vez maior da comunicação política.

Hoje, um candidato pode alcançar milhões de pessoas sem precisar reunir milhares numa praça.

Isso reduz a importância das ruas?

Ainda não sabemos.

A presença física continua produzindo imagens de força, entusiasmo e mobilização.

Mas talvez as campanhas estejam começando a medir seu alcance de outra maneira: menos pelo tamanho de um comício e mais pelo número de visualizações, compartilhamentos e interações produzidas no ambiente digital.

O início ainda não permite conclusões

Um único dia não permite afirmar que a política brasileira abandonou as ruas.

A campanha está apenas começando.

Propaganda eleitoral, debates, fatos novos e o próprio avanço da disputa poderão aumentar a participação popular nas próximas semanas.

Mas a largada deixou uma pergunta interessante.

As eleições de 2018 e 2022 foram marcadas por forte mobilização presencial.

Em 2026, o primeiro sinal parece diferente.

Talvez estejamos apenas diante de uma campanha que ainda não ganhou temperatura. Ou talvez a política esteja começando a trocar parte das multidões nas ruas por milhões de pessoas diante das telas. As próximas semanas mostrarão qual dessas duas leituras é a correta.


Quando uma escolha política reduz questionamentos

Uma decisão que merece registro

O governador Jorginho Mello deverá se licenciar do cargo para dedicar-se integralmente à campanha de reeleição ao Governo de Santa Catarina.

A data exata do afastamento ainda não foi anunciada.

Legalmente, Jorginho poderia permanecer no exercício do mandato durante a disputa pela reeleição.

Portanto, o afastamento não decorre de uma obrigação eleitoral.

É uma escolha política.

E justamente por isso merece ser registrada.

O cargo produz vantagens naturais

Quem ocupa o Poder Executivo possui responsabilidades permanentes.

Participa de agendas oficiais, inaugurações, reuniões, anúncios de investimentos e inúmeros atos inerentes à função pública.

Nada disso representa, por si só, irregularidade eleitoral.

A própria legislação estabelece uma série de restrições aos agentes públicos durante o período eleitoral exatamente para proteger a igualdade de oportunidades entre as candidaturas.

Mas seria pouco realista negar que o exercício do cargo também produz exposição pública e presença institucional superiores às de um adversário que não dispõe da mesma estrutura.

Afastar-se reduz a zona de dúvida

Ao deixar temporariamente o governo para concentrar-se exclusivamente na campanha, Jorginho Mello separa de maneira mais clara as duas funções.

De um lado, o governador.

De outro, o candidato.

O afastamento não elimina todas as diferenças políticas existentes entre os concorrentes.

Também não determina qualquer resultado eleitoral.

Mas reduz significativamente o espaço para questionamentos sobre eventual utilização das atividades institucionais em benefício da candidatura.

E, em períodos eleitorais, diminuir zonas de dúvida também possui valor democrático.

Um gesto que merece reconhecimento

A política brasileira vive um ambiente de permanente desconfiança.

Qualquer agenda oficial, anúncio ou presença institucional durante uma campanha pode rapidamente ser interpretada pelos adversários como tentativa de obter vantagem eleitoral.

Nesse contexto, escolhas que ampliam a separação entre governo e campanha ajudam a proteger tanto o candidato quanto a própria administração pública.

Cada governante adotará a estratégia que considerar mais adequada dentro da legislação.

Mas, quando alguém voluntariamente abre mão de uma vantagem natural proporcionada pelo cargo, isso também merece ser reconhecido.

Disputar a reeleição permanecendo no cargo é um direito. Afastar-se para separar governo e campanha é uma escolha — e escolhas que reduzem dúvidas e ampliam a percepção de equilíbrio fortalecem o processo eleitoral.


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