Falso testamento

O futebol feminino ganhou novas diretrizes para seu desenvolvimento no Brasil após a Câmara dos Deputados votar um projeto de lei que estabelece medidas para ampliar a profissionalização da modalidade e garantir maior igualdade de oportunidades.
A aprovação ocorreu a menos de um ano da Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no nosso país. Logo, dificilmente suas medidas terão efeito imediato ou renderão melhorias até o evento da Fifa.
O texto prevê a elaboração de um plano de legado social, esportivo e financeiro relacionado ao torneio, com o objetivo de fazer com que a Copa deixe resultados permanentes para o futebol feminino no país.
Medidas que pouco diferem das promessas quando da Copa do Mundo masculina, no Brasil, em 2014. Naquela ocasião também foram prometidos legados que subiriam o patamar do futebol brasileiro ao mais elevado nível mundial. O que se viu, no entanto, foram promessas escorrerem pelas enlameadas valas políticas e se perderem no emaranhado das tradicionais mentiras que costumam circular em épocas eleitorais.
É só ter paciência para fazer um levantamento dos “legados” que ficaram pelo caminho. Estádios que oneraram abusivamente os cofres públicos, obras viárias que ainda não chegaram ao fim, dívidas que se multiplicam com impressionante rapidez e negócios escusos que até hoje não foram definitivamente explicados.
É bem provável que o melhor legado, mesmo que moroso, ainda tenha sido deixado pela Fifa, beneficiando Estados que não foram contemplados como sedes. Santa Catarina, entre eles.
Profissionalização
A proposta aprovada pelos deputados estabelece o futebol feminino como uma das prioridades da política pública esportiva nacional. Entre os objetivos estão a profissionalização da modalidade e a ampliação das oportunidades para mulheres no esporte.
O texto prevê ações para aumentar a participação das mulheres em cargos de gestão esportiva e na arbitragem.
Algumas federações, mesmo que de forma modesta, já estão apostando em suas árbitras – muito antes da aprovação do dito Projeto de Lei. E na gestão esportiva é necessário primeiro qualificar quem pretende assumir as funções. E isso não deveria ser tratado como um legado de uma competição, mas como uma obrigação de quem promove a modalidade, como a Confederação e suas filiadas.
De resto, a ação legislativa me parece tão eleitoreira quanto a criação da tal Frente Parlamentar do Futebol Catarinense que se instalou prometendo articular políticas públicas, fortalecer os clubes do estado (e eles estão definhando a cada dia) e debater a segurança nos estádios. E que, de prático se algo fez, foi apenas para beneficiar preferências isoladas.
Em tempo
Quem terá a competência para exigir da Fifa a destinação de recursos para o sonhado legado pós Copa do Mundo?
A Lei Geral da Copa, um marco normativo criado para o evento, concede a Fifa e aos seus patrocinadores oficiais a exclusividade da exploração de marcas, símbolos, publicidade e venda de produtos nas áreas do entorno dos estádios; prevê ajustes no calendário escolar (já aplicado pelo Governo Federal) e até contraria o Estatuto do Torcedor, estabelecendo regras para a venda de bebidas alcoólicas nos locais das partidas.
Legado mesmo, me parece ser apenas o despertar dos sonhos em jovens que que verão os jogos pela televisão.
