PERSPECTIVA POLÍTICA – O candidato de Lula com uma proposta bem diferente de Lula
Uma proposta de Gelson Merísio contrasta com a concepção de Estado de Lula, os dois principais candidatos à Presidência decidem não participar do primeiro debate e uma taxação criada em 2024 volta ao centro das atenções justamente no ano eleitoral.

Gelson Merísio, candidato ao Governo de Santa Catarina e integrante do grupo que se apresenta na campanha como “O Time de Lula em SC”, apresentou uma proposta de gestão que chama atenção justamente por caminhar em direção bastante diferente daquela historicamente defendida pelo presidente.
Em entrevista ao Grupo ND, Merísio afirmou que, se eleito, pretende reduzir das atuais 30 para 10 o número de secretarias estaduais, criar outras duas estruturas e diminuir o número de trabalhadores terceirizados.
Em outras palavras, pretende enxugar a máquina pública.
A proposta lembra, guardadas as proporções, uma linha de gestão que ganhou grande visibilidade com Javier Milei na Argentina: redução da estrutura administrativa e diminuição do tamanho da máquina estatal.
E aí aparece a curiosidade política.
O mesmo time, dois conceitos de Estado
Lula sempre defendeu uma presença forte do Estado na economia e na sociedade. Seus governos historicamente caminharam na direção de uma estrutura pública ampla, com participação estatal como instrumento de desenvolvimento e execução de políticas públicas.
Merísio apresenta uma concepção diferente para Santa Catarina.
Não existe qualquer impedimento nisso. Um aliado não precisa reproduzir integralmente o pensamento de outro.
Mas existe uma contradição política interessante quando uma candidatura que se apresenta ao eleitor como parte do “Time de Lula em SC” propõe, justamente na concepção de tamanho do Estado, algo bastante distante daquilo que Lula historicamente defende.
A proposta de Merísio tem apelo e agora precisará ser detalhada: quais estruturas serão eliminadas, quais serão incorporadas e qual economia será efetivamente produzida.
Mas a fotografia política já está posta.
Merísio quer os votos do “Time de Lula”, mas, pelo menos quando o assunto é o tamanho da máquina pública, parece querer governar por uma cartilha bem diferente da de Lula.
E o eleitor, fica onde?
No próximo domingo, dia 23 de agosto, a Band realizará o primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República.
Lula e Flávio Bolsonaro já comunicaram que não participarão.
Cada um apresenta suas próprias razões e estratégias.
Isso faz parte da campanha.
Mas existe uma pergunta que deveria ser colocada acima das conveniências eleitorais:
E o eleitor, fica onde?
Os debates representam uma das poucas oportunidades em que candidatos precisam responder diretamente a perguntas, confrontar ideias, explicar propostas e reagir sem o controle total de uma peça publicitária ou de um vídeo preparado para as redes sociais.
Quando dois dos principais candidatos deixam de participar, o eleitor perde justamente essa oportunidade de comparação.
A ausência pesa ainda mais numa eleição polarizada
As pesquisas divulgadas até agora mostram uma disputa fortemente concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Isso torna as ausências ainda mais relevantes.
Se são justamente os dois candidatos que concentram a maior parcela das intenções de voto, seria natural esperar que ambos utilizassem o debate para apresentar ao país suas propostas, explicar diferenças e responder aos questionamentos que inevitavelmente surgirão ao longo da campanha.
Naturalmente, nenhum candidato é obrigado a participar.
Também é legítimo que cada campanha avalie riscos e benefícios.
Mas escolhas políticas produzem consequências.
E, neste caso, a principal consequência recai sobre quem deveria estar no centro da eleição:
o eleitor.
A campanha presidencial já começou.
Os slogans estão nas ruas.
Os vídeos estão nas redes.
Os ataques também.
Agora falta aquilo que realmente interessa.
Projetos, propostas e respostas objetivas.
Se os principais candidatos não comparecem aos debates, talvez esteja na hora de lembrar algo simples:
uma eleição não deveria servir apenas às estratégias das campanhas. Deveria servir, antes de tudo, ao direito do eleitor de conhecer melhor quem pretende governá-lo.
As eleições fazem coisas
Existe uma frase que, de tempos em tempos, volta a circular na política brasileira:
“As eleições fazem coisas.”
Em 2024, o Congresso aprovou a cobrança de 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50. A medida foi sancionada pelo presidente Lula e entrou em vigor em agosto daquele ano.
A reação dos consumidores foi intensa.
Mas a arrecadação também.
Foram aproximadamente R$ 2,88 bilhões em 2024, R$ 5 bilhões em 2025 e mais R$ 2,1 bilhões até meados de maio de 2026.
Então chegamos ao ano eleitoral.
Em 12 de maio, o presidente Lula editou uma medida provisória zerando justamente o imposto federal que havia sancionado menos de dois anos antes.
Agora é urgente votar
A MP precisa ser aprovada pelo Congresso até 8 de setembro.
Caso contrário, perde a validade e a cobrança de 20% volta automaticamente.
Por isso, Lula, agora candidato à reeleição, passou a cobrar do Congresso a votação da medida.
Nada existe de irregular.
Governos podem rever políticas quando entendem que elas não produziram os efeitos esperados ou quando a sociedade demonstra insatisfação.
Mas a cronologia permite, no mínimo, uma pequena ironia.
A taxa surgiu em 2024.
Arrecadou bilhões.
Tornou-se impopular.
Foi retirada em maio de 2026.
E agora, a poucas semanas da eleição, tornou-se urgente impedir que volte.
Pode ser apenas uma mudança de política pública.
Pode ser sensibilidade à reação dos consumidores.
Mas a coincidência com o calendário eleitoral é impossível de ignorar.
Como diz aquela velha frase: as eleições fazem coisas.
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