Qual a chance do Brasil dar certo?

Entre juros altos, baixa competitividade, produtividade fraca, violência e desigualdade, o brasileiro segue vivendo de esperança — talvez sua maior força.

Já me fiz essa pergunta centenas de vezes. E, confesso, na maioria delas a resposta que vem à mente é dura: nenhuma.

Pode parecer pessimismo, mas talvez seja apenas o cansaço de olhar para os mesmos problemas, ano após ano, década após década, governo após governo. O Brasil parece ter se especializado em vender esperança e entregar frustração. Nesse quesito, aliás, somos bastante competitivos. Pena que esse indicador não entra nos rankings internacionais.

Temos um dos Legislativos e Judiciários mais caros do planeta quando comparados ao PIB. Temos uma das maiores taxas de juros do mundo. No Ranking Mundial de Competitividade 2026, ficamos em 65º lugar entre 70 economias avaliadas. Um feito notável: conseguimos transformar um país continental, rico em recursos naturais e com um povo trabalhador, em uma economia que briga para não cair para a última prateleira global.

Na educação, seguimos entre os últimos colocados nos principais índices internacionais. No IDH da ONU, ocupamos a 84ª posição. Em produtividade, estamos muito atrás do mundo desenvolvido, com desempenho equivalente ao de países que enfrentam enormes limitações econômicas. Produzimos pouco por hora trabalhada, pagamos pouco e ainda nos perguntamos por que a renda não cresce.

O salário mínimo brasileiro segue entre os mais baixos em termos de poder de compra. Parte expressiva da população depende de auxílio social para sobreviver. Milhões de trabalhadores estão na informalidade. Grande parte dos brasileiros ganha até R$ 2.500 por mês. E, como se não bastasse, ainda convivemos com violência em níveis incompatíveis com qualquer projeto sério de país.

É quase uma prova diária de resistência. O brasileiro acorda cedo, pega transporte ruim, trabalha muito, paga imposto demais, recebe serviço público de menos, enfrenta insegurança, inflação, juros, burocracia e ainda precisa ouvir que o país está no caminho certo.

Certo para onde? Essa talvez seja a pergunta.

Vivemos de promessas. Prometeram o país do futuro. Prometeram educação de qualidade. Prometeram saúde digna. Prometeram segurança. Prometeram crescimento. Prometeram justiça social. Prometeram estabilidade. Prometeram reformas. Prometeram quase tudo. Entregaram uma conta cada vez mais cara.

No fundo, cada brasileiro é um herói. Não daqueles de filme, com capa e trilha sonora. Um herói anônimo, que segue em frente mesmo quando tudo parece jogar contra. O trabalhador que sustenta a casa. A mãe que faz milagre no mercado. O empresário que insiste em gerar emprego. O jovem que ainda acredita em estudar. O cidadão que paga imposto e espera, um dia, receber algo minimamente proporcional em troca.

Talvez a chance do Brasil dar certo não esteja nos discursos de Brasília, nem nas promessas de campanha, nem nos planos que nunca saem do papel. Talvez esteja justamente nesse povo que, apesar de tudo, ainda não desistiu.

Hoje, se me perguntarem qual a chance do Brasil dar certo, minha resposta ainda será amarga: nenhuma.

Mas sigo esperando o dia em que, ao fazer a mesma pergunta, a resposta finalmente seja outra: sim, vamos conseguir.

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