Teve época em que, no futebol, meus olhares eram direcionados e meus sentimentos manifestados exclusivamente para os clubes pelos quais eu tinha (e ainda tenho) admiração. Isso terminou em meados da década de 1960, quando no exercício das minhas funções tive comandantes que me orientaram ao seguimento de uma linha profissional segura e capaz de gerar o mais elevado grau possível de credibilidade. Era o exercício da imparcialidade.

Não me lembro se algum dia deixei transparecer preferências em minhas manifestações profissionais. Meus seguidores, nem sempre admiradores, no rádio, jornal, televisão ou agora na mídia eletrônica, que me avaliem. Mas penso que passei ileso neste quesito. Diferente do que constato hoje, quando expressões profissionais afloram tanto quanto o fervor de cada coração beneficiando ou prejudicando entidades, clubes e outros segmentos da sociedade. Tudo seguindo um sentimento de superioridade e de uma mais do que discutível qualidade, as vezes até moral, que nos é jogada aos olhos e ouvidos.

Hoje, para uma grande maioria, o lixo vira luxo ou o luxo vira lixo num piscar de olhos. E, imagino, não seja este o caminho ideal para quem tem a responsabilidade de informar e até formar opiniões para um público cada dia mais expressivo e exigente.

Não sou adepto do Palmeiras (São Paulo) mas admirador do comando altamente profissional imposto na sua administração. Lá tem quem manda e sabe mandar. Dentro e fora dos gramados.

O exemplo Abel

Tenho que concordar com as declarações do técnico Abel Ferreira quando ele diz:

“O futebol está doente. Se não ganha é fraco, se não fica em primeiro já não presta. O futebol está doente de uma forma geral. Pelos treinadores, pelos presidentes, pelos jogadores e pela imprensa. Estamos todos obcecados com o sucesso do primeiro lugar e poucos valorizam o esforço dos que sempre tentam chegar”.

E o Abel tem razão. Este é um sentimento brasileiro onde o luxo vira lixo e o lixo vira luxo, de acordo com os interesses de cada um.

Outros

Sem avaliar as razões, mas apenas as manifestações cito alguns exemplos.

Outro dia o Corinthians ganhou do Rosário Central pela Libertadores com um jogador a menos durante boa parte da partida e era um luxo. Três dias depois, desfalcado, perdeu para o Coritiba, em Curitiba, e virou um lixo.

Aqui mesmo, ao nosso redor, o Avaí foi lixo até ganhar três partidas seguidas (Operário, Sport e Ponte Preta) quando virou luxo.

Diferente, o Criciúma, que que ainda é líder da Série B nacional, bastou perder uma partida (para o Fortaleza, em casa) para virar lixo em alguns manifestos sentimentos.

É a doença à qual o Abel se refere, que coloca o resultado acima de qualquer circunstância.

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