PP, PSD, PODEMOS, MDB E UNIÃO BRASIL COM LULA

O PP de Esperidião Amin, o PSD de João Rodrigues, o MDB de Carlos Chiodini e Antídio Lunelli, o Podemos de Paulinha e o União Brasil de Gean Loureiro têm muito a explicar ao eleitor catarinense que se identifica com a direita. São justamente partidos e lideranças que procuram esse eleitor em Santa Catarina, mas que, Brasil afora, mantêm alianças com o PT e convivem politicamente com o campo de Lula. O União Brasil não é exceção. A legenda participou do governo Lula, ocupou ministérios e, mesmo depois de se afastar formalmente do governo, continuou construindo alianças estaduais com o PT. O quadro nacional é, portanto, muito mais ambíguo do que a fotografia catarinense faz parecer.

É justamente aí que aparece o suco do Centrão: PP, PSD, Podemos, MDB e União Brasil. São partidos que querem o voto da direita onde a direita é forte, mas preservam portas abertas para Lula onde a conveniência eleitoral recomenda. Não há ilegalidade nisso. Há, porém, uma questão política incontornável. O eleitor que vota acreditando estar escolhendo um campo político tem o direito de saber se, depois da eleição, seu partido estará do outro lado da mesa negociando cargos, ministérios, apoio parlamentar e alianças com o mesmo grupo que ele imaginava estar ajudando a derrotar.

Na Paraíba está um dos exemplos mais eloquentes. PP e Podemos participam da composição de Lucas Ribeiro ao governo estadual juntamente com o PT. Estão, portanto, no mesmo palanque. A situação é especialmente significativa porque são justamente duas das legendas que, em Santa Catarina, procuram disputar o eleitor identificado com a direita.

O PSD oferece um quadro ainda mais expressivo. Embora Ronaldo Caiado tenha sido lançado pelo partido à Presidência, a legenda mantém alianças estaduais com o PT em diferentes Estados. O MDB segue caminho semelhante. O quadro nacional mostra que o Centrão divide seus apoios conforme a disputa: PSD e MDB aparecem mais próximos do PT, enquanto União Brasil e PP, reunidos na União Progressista, aparecem mais próximos do PL. Essa diferença, contudo, não elimina as alianças do União Brasil com o campo lulista.

Em Santa Catarina, a fotografia é outra. João Rodrigues, do PSD, disputa o governo; Carlos Chiodini, do MDB, é seu candidato a vice; Esperdião Amin, do PP, e Antídio Lunelli, do MDB, estão no campo da disputa ao Senado; e Gean Loureiro, do União Brasil, integra a mesma aliança eleitoral. É a reunião de PSD, MDB, PP e União Brasil para enfrentar Jorginho Mello.

Do outro lado está o Podemos de Paulinha, que aderiu à aliança de Jorginho Mello. O governador é do PL e apoia Flávio Bolsonaro à Presidência. O Podemos, entretanto, decidiu permanecer neutro na eleição presidencial. Está no palanque de um governador que tem candidato presidencial definido, mas não assume o candidato presidencial de seu próprio palanque. A neutralidade do Podemos em Santa Catarina é, por isso, especialmente reveladora: a legenda participa da aliança estadual com Jorginho, mas não assume a consequência nacional dessa escolha.

No caso de Paulinha, a contradição é ainda mais evidente quando se examina sua trajetória. Ela não surgiu politicamente no centro-direita. Construiu sua carreira no PDT, partido de Leonel Brizola, primeiro como prefeita de Bombinhas e depois como deputada estadual. Durante sua administração, uma das principais obras educacionais do município recebeu o nome de Leonel de Moura Brizola.

Sua ligação com o PDT alcançou a estrutura nacional. Em 2009, Paulinha chegou ao Ministério do Trabalho pelas mãos de Carlos Lupi, então ministro de Lula, e ocupou a Diretoria do Departamento de Qualificação. Não era uma relação protocolar: era uma relação política, partidária e institucional.

Não são poucas as passagens de Paulinha abraçada a lideranças do campo petista. Sua proximidade com Dilma Rousseff foi ostensiva em diferentes momentos de sua trajetória, chegando inclusive a afirmar, em determinada ocasião, que o único defeito da ex-presidente era não ser filiada ao PDT. A antiga filiação ao PDT, portanto, não explica tudo. Há uma história política construída dentro do universo de Lula, Dilma, Lupi e Brizola.

E Carlos Lupi acrescenta uma dimensão ainda mais incômoda a essa trajetória: foi ele quem levou Paulinha ao Ministério do Trabalho em 2009, durante o governo Lula, e anos depois, como ministro da Previdência no terceiro governo Lula, comandava a pasta quando explodiu o escândalo dos descontos fraudulentos do INSS. A investigação da Polícia Federal e da CGU identificou cerca de R$ 6,3 bilhões em descontos associativos cobrados de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024. Em uma amostra analisada pela CGU, aproximadamente 97% dos beneficiários disseram não ter autorizado os descontos. Lupi foi informado em 2023 sobre denúncias de irregularidades e deixou o Ministério da Previdência em maio de 2025, em meio à repercussão da Operação Sem Desconto. Ele negou ter conhecimento da dimensão da fraude e qualquer participação no esquema. A responsabilidade política de quem comandava a pasta quando o problema foi denunciado, contudo, é uma questão que não desaparece com uma negativa.

Em 2021, veio a ruptura. Paulinha apoiou Carlos Moisés, então governador, contrariando a direção nacional do PDT. E é importante lembrar quem era Carlos Moisés naquele momento. Ele havia chegado ao governo de Santa Catarina em 2018 impulsionado pela onda Bolsonaro, eleito pelo PSL e apresentado como o candidato do então presidente. Pouco depois de assumir, porém, rompeu politicamente com Bolsonaro e passou a construir uma trajetória própria, distanciando-se do grupo que havia sido decisivo para sua eleição.

Durante a pandemia, Moisés adotou medidas severas, com restrições que atingiram transporte, comércio, atividades econômicas, escolas, eventos, circulação e uma série de atividades da vida cotidiana dos catarinenses. Foi esse Carlos Moisés, já rompido com Bolsonaro e conduzindo uma política de fortes restrições, que Paulinha decidiu apoiar contra a orientação nacional do PDT.

E a questão da pandemia não pode ser encerrada como se aquelas medidas fossem verdades definitivas e intocáveis. Anthony Fauci, então uma das principais autoridades americanas na condução da resposta à Covid-19, voltou a ser submetido a intenso escrutínio nos Estados Unidos em torno das decisões tomadas durante a pandemia, da transparência institucional e das pesquisas relacionadas ao vírus. Isso não permite afirmar que Moisés tenha recebido ordens de Fauci ou seguido diretamente suas determinações. Permite, porém, revisitar criticamente um período em que governos adotaram restrições extraordinárias e em que direitos individuais foram submetidos a limitações que hoje merecem novo exame. Em Santa Catarina, essas restrições tiveram consequências concretas sobre trabalho, educação, comércio, circulação, culto, lazer e convivência social.

Carlos Lupi reagiu suspendendo Paulinha, que posteriormente foi expulsa da legenda por infidelidade partidária. Em 2022, ela migrou para o Podemos.

A mudança de partido é legítima. A mudança de posição também. O que não pode ser exigido do eleitor é que ele apague a trajetória anterior da memória. Paulinha saiu do PDT de Brizola, Lula, Dilma e Lupi e chegou à presidência estadual do Podemos, hoje aliado de Jorginho Mello.

E não por acaso Carlos Moisés está hoje novamente no campo político de oposição a Jorginho Mello. O ex-governador se alinhou a João Rodrigues na disputa pelo governo estadual e passou a atuar no campo que pretende retirar Jorginho do governo. A trajetória fecha um círculo: o homem eleito pela onda Bolsonaro, que rompeu com Bolsonaro, governou Santa Catarina em confronto com o bolsonarismo, foi apoiado por Paulinha quando ela ainda estava no PDT e hoje está no mesmo campo político que João Rodrigues, adversário de Jorginho Mello.

A mesma lógica alcança Gean Loureiro. E sua trajetória também está longe de começar no campo que hoje pretende representar. Gean é oriundo do PDT de Leonel Brizola: em 1992, aos 19 anos, elegeu-se vereador de Florianópolis pelo PDT. Em 1994, disputou uma cadeira de deputado estadual. Depois passou pelo PMDB, PSDB, novamente PMDB, DEM e, posteriormente, União Brasil. Sua trajetória partidária demonstra a extraordinária mobilidade do centro político brasileiro.

Gean, portanto, não nasceu politicamente de uma ruptura com a esquerda. Sua estreia eleitoral ocorreu no PDT, partido de Brizola, e sua trajetória passou por diferentes legendas até chegar ao União Brasil. Hoje, candidato a deputado estadual, está na aliança de João Rodrigues.

Mas Gean também carrega uma história política que não pode ser apagada. Sua ascensão em Florianópolis ocorreu dentro do grupo político construído durante as administrações de Dário Berger, de quem foi aliado e sob cuja gestão ganhou musculatura política. Em 2012, Gean disputou a Prefeitura de Florianópolis pelo PMDB, enquanto Dário ainda era o prefeito da Capital e seu irmão, Djalma Berger, disputava a Prefeitura de São José pelo mesmo partido. Gean perdeu aquela eleição para César Souza Júnior, mas quatro anos depois venceu e chegou à Prefeitura.

A relação com os Berger não terminou ali. Em 2024, foi o próprio Gean quem se movimentou para apoiar Dário Berger em sua tentativa de voltar à Prefeitura de Florianópolis. Dário já havia percorrido, entretanto, uma longa trajetória até o campo lulopetista e, em 2022, disputou o Senado na chapa de Décio Lima, do PT, candidato ao governo de Santa Catarina.

É preciso registrar a distinção: Dário não apoiou Gean na candidatura ao governo de 2022; naquele pleito, estava no campo adversário. O que existe é uma relação política muito mais longa, que remonta à formação de Gean dentro do grupo Berger, passa pelas disputas de Gean à Prefeitura e chega à reaproximação entre os dois ex-prefeitos.

Não por acaso, Gean está hoje no mesmo campo eleitoral de João Rodrigues e, portanto, no bloco que pretende derrotar Jorginho Mello. A trajetória mostra novamente a extraordinária capacidade do centro político de reunir personagens que, em diferentes momentos, estiveram próximos de campos ideológicos distintos.

É difícil, diante dessa sucessão de movimentos, não enxergar uma camaleoa política no caso de Paulinha. Muda a legenda, muda o campo, muda o discurso, mas conserva a capacidade de adaptação às circunstâncias. Para seus críticos, a constante não é uma convicção ideológica, mas a preservação do próprio espaço político.

É justamente por isso que a posição da deputada federal Júlia Zanatta, candidata à reeleição, merece reconhecimento. Ela não procura acomodar simultaneamente os diferentes lados. Assume uma posição e aceita o custo político dela. O eleitor pode concordar ou discordar, mas sabe onde Júlia está.

Há uma passagem de Bezerra de Menezes, aos 36 anos, em seu primeiro mandato como deputado geral, que parece escrita para este momento. Em 4 de junho de 1867, ao definir sua postura diante da política, afirmou:

**“Largando a vela nos mares sempre revoltos e agitados da política, eu tomei por meu santelmo um princípio com o qual pode-se muitas vezes arriscar os cômodos, o bem-estar e futuras posições, mas nunca a honra.

A política como eu compreendo, não é uma especulação dos homens, é uma religião, a religião da pátria, tão sagrada e obrigatória como o culto das verdades eternas que constitui a religião de Deus.”**

E, na mesma intervenção, definiu qual era esse princípio:

“Consiste esse princípio em definir, sempre e em toda a parte, tão clara e categoricamente a minha posição, que meus adversários me reconheçam, como tal, e os meus correligionários saibam até onde podem contar comigo.”

A diferença entre essa concepção de política e o comportamento do Centrão não poderia ser mais evidente. Bezerra admitia perder “os cômodos, o bem-estar e futuras posições”, mas não a honra. Para ele, uma posição política não era uma mercadoria que pudesse ser adaptada às conveniências de cada eleição. Era um compromisso público, assumido diante de adversários e correligionários.

Há políticos dispostos a pagar o preço de uma posição e políticos interessados em preservar todas as portas abertas. Júlia Zanatta está entre os primeiros. O Centrão, por definição, está entre os segundos.

O PSD de Ronaldo Caiado não escapa dessa análise. Caiado procura apresentar-se como alternativa a Lula, mas seu partido é comandado nacionalmente por Gilberto Kassab, cuja estratégia preserva pontes com o Centrão e com diferentes forças políticas estaduais.

Caiado também construiu relações institucionais que merecem ser lembradas. Como governador de Goiás, concedeu o Título Honorífico de Cidadania Goiana a Gilmar Mendes e Dias Toffoli, ministros do STF, e a Paulo Gonet, procurador-geral da República. É uma homenagem institucional, mas também revela o ambiente político em que o candidato do PSD se movimenta.

O mesmo vale para o universo do agronegócio. Blairo Maggi e sua família têm enorme peso econômico e político no setor e possuem histórico público de apoio a Lula. Maggi apoiou o petista em eleições anteriores e voltou a manifestar alinhamento com Lula. Isso não transforma Caiado em lulista, mas ajuda a compreender a extensa rede política em que o candidato do PSD está inserido.

E esse é o problema central. Não se trata de uma fotografia isolada, de um discurso isolado ou de uma aliança isolada. É uma estrutura política inteira baseada na possibilidade de conversar com todos.

O União Brasil também está inserido nessa lógica. O partido participou do governo Lula, ocupou ministérios e manteve canais de negociação com o Planalto, ao mesmo tempo em que, em diferentes Estados, construiu alianças com o PT e com o PL. O eleitor catarinense não pode olhar apenas para a fotografia da chapa estadual e ignorar o filme nacional. O partido que hoje oferece Gean Loureiro no palanque de João Rodrigues é o mesmo que esteve no governo Lula e continua dividindo espaços políticos com o PT.

O chamado Centrão quer o voto da direita, mas não quer fechar as portas para Lula. Quer estar com o PL onde o PL é forte, mas também quer estar com o PT onde o PT é competitivo. Quer apresentar candidatos presidenciais, mas manter liberdade para apoiar quem sobreviver ao primeiro turno.

Para o partido, é pragmatismo. Para o eleitor de direita, é risco.

E o eleitor catarinense tem demonstrado cada vez menos tolerância com o “isentão”, sobretudo quando a eleição presidencial chega ao ponto decisivo. Não basta dizer que é oposição a Lula no palanque estadual. É preciso saber o que acontecerá quando chegar o segundo turno e desaparecerem as desculpas da conveniência regional.

É nesse momento que a questão ultrapassa a política catarinense. O segundo turno presidencial definirá muito mais do que uma preferência partidária. Estarão em disputa modelos econômicos, segurança pública, liberdade, relações com o Congresso e o Judiciário, política externa, alinhamentos internacionais e questões de geopolítica que ultrapassam em muito o território brasileiro.

Por isso, para o eleitor que se considera efetivamente de direita, a conclusão é direta: Flávio Bolsonaro para a Presidência; Jorginho Mello para o Governo de Santa Catarina; Carol De Toni e Carlos Bolsonaro para o Senado; e, para a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa, concentrar os votos nos candidatos do PL que tenham histórico comprovado de atuação política e coerência ideológica no campo da direita.

Isso porque nem mesmo a legenda, isoladamente, pode ser tomada como certificado automático de fidelidade às convicções do eleitor. É preciso discernimento para distinguir quem efetivamente construiu sua trajetória na direita de eventuais lobos em pele de cordeiro ou esquerdistas em pele de conservador. O voto no PL não deve ser um voto cego na sigla, mas uma escolha consciente por candidatos cuja história, posições e comportamento público demonstrem que estarão efetivamente do lado do eleitor quando chegar a hora de decidir.

Ao fim e ao cabo, para quem procura coerência ideológica e uma posição inequivocamente bolsonarista, a conclusão em Santa Catarina é bastante clara: do candidato a deputado estadual ao candidato a governador, passando pelos candidatos a deputado federal e ao Senado, é no PL que está concentrado o campo político que não precisa ser decifrado depois da eleição. Pode-se discordar de um ou outro nome, mas não há a mesma ambiguidade de quem disputa o voto da direita enquanto preserva alianças, pontes e possibilidades de composição com o lulismo.

Em Santa Catarina, a direita que pretende votar sem deixar uma porta aberta para o PT está, de fato, no PL.

Não porque outros candidatos não tenham o direito de pedir o voto, mas porque a experiência política recente demonstra o risco de entregar o voto a partidos que, depois da eleição, se sentem livres para construir alianças que o eleitor jamais imaginou estar autorizando.

Coerência vertical significa isso: presidente, governador, senadores, deputados federais e estaduais pertencendo ao mesmo campo político, sem a necessidade de interpretar depois o que cada um quis dizer antes.

Para quem não quer ser surpreendido, para quem não aceita o jogo do “depende”, para quem tem horror ao isentão e entende que a eleição de 2026 poderá definir o rumo do Brasil por muitos anos, essa é a única garantia possível de reduzir a margem para arrependimento e de não descobrir, depois da eleição, que o próprio voto ajudou a construir um projeto político diferente daquele em que acreditava.

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