LOUIS ESCHENAUER

Bordeaux está às margens do Garonne, no sudoeste da França, aberta ao Atlântico e voltada para um comércio de vinhos que há séculos ultrapassa as fronteiras da região. Sua importância não se resume aos châteaux, as propriedades onde os vinhos são produzidos. Ao lado deles existe uma estrutura comercial formada pelos négociants, que compram, armazenam, financiam, engarrafam e exportam a produção, articulando os proprietários dos vinhedos com corretores, transportadores, bancos e compradores estrangeiros. A Place de Bordeaux tornou-se um dos grandes centros mundiais de comercialização de vinho, e a Alemanha já era um mercado importante para seus negociantes muito antes da Segunda Guerra Mundial. É nesse ambiente que a família Eschenauer constrói sua posição.
A casa Eschenauer foi fundada em Bordeaux em 1821 por Chrétien Louis Eschenauer, comerciante alsaciano que se estabeleceu na cidade e iniciou ali seus negócios de vinhos. Seu filho, Théophile Frédéric Eschenauer, nascido em 1834, assumiu posteriormente a condução da empresa e ampliou sua importância entre os négociants da Place de Bordeaux. Maurice Auguste Louis Eschenauer, nascido em 1870, era filho de Théophile Frédéric e, portanto, neto de Chrétien Louis, o fundador da casa. Em 1895, começou a viajar à Alemanha para tratar dos negócios da empresa e, quatro anos depois, com a morte do pai, assumiu sua direção. Nos anos que se seguiram, ampliou a atuação da casa naquele mercado, e em 1914 a Eschenauer já era a principal sociedade francesa exportadora de vinhos para a Alemanha. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, em 1939, Louis Eschenauer já dirigia uma casa com mais de um século de história e mantinha relações comerciais com a Alemanha havia décadas.
Em 1º de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia. França e Reino Unido declararam guerra dois dias depois, dando início à Segunda Guerra Mundial na Europa. Durante os meses seguintes, a frente ocidental permaneceu relativamente estática, até que, em 10 de maio de 1940, as forças alemãs atacaram Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo e França. O avanço alemão foi rápido. Paris foi ocupada em 14 de junho, e o governo francês deixou a capital e se deslocou para Bordeaux. A cidade recebeu por algumas semanas as instituições do Estado francês, mas a derrota militar tornou essa permanência impossível. Em 22 de junho, a França assinou o armistício. O norte e o oeste do país ficaram sob ocupação alemã, enquanto o governo de Vichy, dirigido pelo infame marechal Philippe Pétain, passou a administrar a zona não ocupada e adotou uma política de colaboração com Hitler.
Bordeaux foi tomada pelas tropas alemãs em 28 de junho de 1940. A atividade comercial continuou sob a nova autoridade, e o setor do vinho possuía uma estrutura que interessava diretamente ao invasor. Os produtores continuavam produzindo, os estoques estavam nos depósitos, os négociants conheciam as propriedades e os corretores dominavam as negociações. O nazismo precisava organizar suas compras utilizando essa estrutura já existente.
Para conduzir essas operações, o comando alemão designou negociantes especializados nas principais regiões produtoras. Em Bordeaux, o responsável foi Heinz Bömers, comerciante de Bremen ligado à casa Reidemeister & Ulrichs, importante importadora alemã de vinhos franceses. Bömers conhecia Bordeaux antes da guerra, falava francês e mantinha relações com os comerciantes locais. Sua função oficial era Importbeauftragter des Reiches, encarregado das importações do Reich, e os franceses passaram a chamá-lo de Weinführer. Ele precisava negociar com os profissionais que já dominavam o comércio, selecionar vinhos, estabelecer volumes e preços e organizar a execução das encomendas.
A relação entre Bömers e Louis Eschenauer vinha de antes da ocupação. Bömers chamava-o de Oncle Louis (Tio Louis), e Eschenauer era padrinho do filho do alemão. A antiga relação comercial encontrou uma circunstância inteiramente nova quando Bömers passou a dirigir as compras alemãs em Bordeaux. Ele precisava adquirir grandes quantidades de vinho, e Eschenauer dirigia uma das casas mais importantes da cidade, além de possuir décadas de experiência no mercado alemão.
As grandes encomendas eram concentradas em determinados negociantes, que funcionavam como chefs de file, recebendo os pedidos e organizando sua execução junto a outras casas. Eschenauer ocupava uma dessas posições. Amostras chegavam à sua empresa, propostas eram reunidas, preços eram discutidos e os vinhos eram localizados nos estoques dos diferentes comerciantes. A atividade também envolvia transporte, armazenamento, garrafas, rolhas e outros materiais necessários à cadeia produtiva. Uma carta de Bömers a Eschenauer, datada de 27 de setembro de 1940, registra uma dessas operações: determinados vinhos que estavam nos estoques de Eschenauer e haviam sido reservados para clientes franceses, mas ainda não tinham sido faturados, deveriam ser incluídos nas ofertas destinadas à Alemanha. A documentação estudada posteriormente por Sébastien Durand mostra a dimensão alcançada por essa relação e estima que Eschenauer tenha chegado a representar aproximadamente um terço do comércio de vinhos de Bordeaux durante a Ocupação.
Em 1941, a relação empresarial entre os dois ganhou uma estrutura própria com a criação da Société des Grands Vins Français. Os documentos fiscais examinados depois da guerra registram faturamento de 182 milhões de francos durante a Ocupação, dos quais 87% correspondiam a negócios com o ocupante, envolvendo cerca de 60 mil hectolitros. Gertrude Kircher, secretária de Bömers, declarou posteriormente às autoridades que seu chefe possuía 75% do capital da sociedade. A dimensão desses números mostra a posição que Eschenauer passou a ocupar dentro do sistema econômico criado em Bordeaux durante a ocupação nazista.
A atividade chegou também ao patrimônio rural do Médoc. Os châteaux Lestage, em Listrac, e Bel-Air, em Soussans, pertenciam à família Nathan. Os proprietários eram judeus e estavam submetidos às medidas de perseguição e espoliação impostas na França colaboracionista durante a Ocupação. Em 1941, os dois domínios passaram para a sociedade La Lestage, ligada à Société des Grands Vins Français. A documentação estudada posteriormente registra que Louise e Eugène Nathan procuraram proteger seus bens antes de deixar a região e que Eschenauer participou da operação pela qual as propriedades foram transferidas para essa estrutura empresarial. Sébastien Durand classificou posteriormente o negócio como uma “operação de compra-espoliação”. O episódio seria examinado depois da guerra no processo de purificação econômica.
A proximidade entre Eschenauer e Bömers também aparece fora dos contratos. Louis possuía cavalos de corrida e frequentava o hipódromo do Bouscat, onde sua relação com os alemães era conhecida. Bömers chegou a pagar 28 mil francos por uma Citroën Traction Avant para Eschenauer em 1941. Correspondências, documentos bancários e depoimentos reunidos posteriormente permitem acompanhar essa relação pessoal ao mesmo tempo em que os documentos empresariais registram o crescimento dos negócios.
Em 1944, a situação militar alemã se deteriorou e a retirada de Bordeaux se aproximou. Bömers ordenou à sua secretária, Gertrude Kircher, que destruísse os documentos do escritório. Ela não cumpriu a ordem. Preservou os papéis e posteriormente os entregou às Forças Francesas do Interior. Entre o material estavam correspondências, contratos e registros relacionados às operações de Bömers e à sociedade mantida com Eschenauer. A documentação que escapou à destruição seria utilizada depois da guerra para reconstruir a rede comercial estabelecida durante a Ocupação.
Para Eschenauer, a Libertação trouxe as consequências de sua atuação durante aqueles anos. Ele foi preso em 1944 e julgado pela Cour de Justice de Bordeaux. Em 19 de novembro de 1945, recebeu uma condenação de dois anos de prisão, o confisco de seus bens e a indignidade nacional. As medidas econômicas atingiram também suas empresas: a cobrança relacionada à casa Eschenauer chegou a 42,82 milhões de francos, enquanto a aplicada à Société des Grands Vins Français alcançou 62,416 milhões. O patrimônio acumulado durante décadas passou a responder pelas sanções impostas depois da guerra.
O processo também envolveu o porto de Bordeaux. Durante a retirada alemã, as instalações portuárias corriam o risco de ser destruídas. Eschenauer conhecia Ernst Kühnemann, comandante alemão do porto e comerciante de vinhos antes da guerra, e suas relações com os alemães participaram das negociações daquele período. A preservação do porto, entretanto, envolveu também Heinz Stahlschmidt, soldado alemão encarregado dos explosivos destinados à destruição das instalações, que destruiu o material. A documentação permite situar Eschenauer entre os envolvidos nas negociações, mas não atribui exclusivamente a ele a preservação do porto.
A condenação não encerrou sua atividade empresarial. Em 1948, Eschenauer recebeu autorização para retornar a Bordeaux; em 1949, obteve autorização para viajar novamente à Alemanha; e, em novembro de 1950, Heinz Bömers voltou a Bordeaux e retomou seus contatos com antigos negociantes. A relação entre os dois reapareceu depois da guerra, agora em um ambiente comercial reconstruído. Em 1952, uma medida de anistia eliminou as consequências jurídicas que ainda pesavam sobre Eschenauer. Ele morreu em 1958.
Depois de sua morte, os documentos produzidos durante a Ocupação nazista, os papéis reunidos no processo pelo qual as autoridades francesas, depois da Libertação, investigaram e puniram economicamente empresas e empresários que haviam colaborado com o ocupante alemão, e a documentação empresarial da própria casa Eschenauer permaneceram distribuídos por diferentes arquivos de Bordeaux. Em 2001, quarenta e três anos depois da morte de Eschenauer, Don e Petie Kladstrup publicaram Vinho e Guerra, reconstruindo sua participação no comércio de Bordeaux durante os anos de ocupação alemã. Parte da documentação estava disponível, mas os arquivos relacionados ao julgamento ainda estavam submetidos às regras francesas de comunicação.
É nesse ponto que aparece a referência aos sessenta anos mencionados no livro. A legislação francesa que vigorava antes da reforma de 2008 estabelecia diferentes prazos para a consulta dos arquivos públicos. A lei de 3 de janeiro de 1979 previa sessenta anos, contados da data do documento, para determinados arquivos que contivessem informações relacionadas à vida privada, à segurança do Estado ou à defesa nacional. Para os documentos relativos a processos judiciais, entretanto, o prazo previsto naquela legislação era de cem anos. Portanto, os sessenta anos não constituíam uma regra geral para os processos judiciais e não podem ser confundidos com o prazo de comunicação do julgamento de Eschenauer.
A legislação mudou em 2008, quando a França reformou seu regime de arquivos públicos. O novo sistema reduziu para cinquenta anos o prazo aplicável a determinadas informações protegidas pela vida privada, pela segurança pública e por outros interesses definidos em lei. Para documentos relativos a processos judiciais, estabeleceu, em regra, um prazo de setenta e cinco anos, contado da data do documento ou do documento mais recente incluído no processo, com regras específicas para determinadas situações. A legislação atualmente vigente mantém esses prazos, entre outras categorias de comunicação.
Essa mudança legislativa ocorreu sete anos depois da publicação de Vinho e Guerra. Assim, a referência encontrada no livro deve ser entendida dentro do regime documental existente quando os Kladstrup escreveram a obra. A passagem do tempo desde a morte de Eschenauer, em 1958, não produziu por si só a abertura de todos os seus arquivos em 2018, porque os documentos não estavam submetidos a um único prazo. Um documento empresarial produzido durante a Ocupação, uma correspondência privada, um documento administrativo e uma peça de um processo judicial poderiam estar sujeitos a regras diferentes.
Os arquivos de Bordeaux mostram essa separação. O fundo Kressmann conserva documentos da empresa Louis Eschenauer relativos ao período da guerra e documentação familiar. O fundo Georges Lung reúne documentos relacionados ao processo de Eschenauer. A pesquisa de Sébastien Durand conseguiu utilizar documentos econômicos, empresariais e correspondências produzidos durante a Ocupação, enquanto parte da documentação judicial permaneceu submetida às regras próprias de comunicação. Na documentação utilizada posteriormente por Antoine Dreyfus, os documentos relativos à affaire Louis Eschenauer conservados no fundo Georges Lung aparecem com comunicação prevista para 2052.
Essa data é particularmente importante porque demonstra que não existe uma única data de abertura para tudo o que diz respeito a Eschenauer. A documentação empresarial já pôde ser utilizada por pesquisadores para reconstruir seus negócios com os alemães; as correspondências preservadas por Gertrude Kircher permitiram acompanhar a relação entre Bömers e os negociantes de Bordeaux; os documentos relativos à Société des Grands Vins Français esclareceram a dimensão dos negócios realizados durante a Ocupação. O processo judicial, por sua vez, permanece submetido a outro regime de comunicação.
A anistia concedida a Eschenauer em 1952 também não determina esses prazos. Ela pertence à história jurídica do próprio negociante e modificou as consequências de sua condenação. A comunicação dos arquivos é uma questão diferente, regulada pelas normas francesas de acesso aos documentos. A existência de um documento, sua conservação em um arquivo público e sua possibilidade de consulta são situações juridicamente distintas.
Foi por isso que a pesquisa sobre Eschenauer avançou depois de Vinho e Guerra sem que todo o processo estivesse aberto. Durand pôde trabalhar com os documentos econômicos e empresariais disponíveis em Bordeaux e publicou, em 2017, Les vins de Bordeaux à l’épreuve de la Seconde Guerre mondiale, 1938-1950. Antoine Dreyfus retomou essa documentação e incorporou outros papéis e depoimentos em Les raisins du Reich, publicado em 2021. Esses trabalhos ampliaram o conhecimento sobre a relação entre Eschenauer e Bömers, a Société des Grands Vins Français e as operações realizadas durante a Ocupação. A documentação que continua fechada, entretanto, permanece fora dessa reconstrução.
Em 2026, já se passaram 68 anos desde a morte de Louis Eschenauer e oito anos desde o marco de sessenta anos que poderia parecer decisivo para a abertura dos arquivos. A documentação econômica e empresarial já consultada permite reconstruir uma parte substancial de sua atuação durante a Ocupação, enquanto o processo judicial continua submetido ao regime específico de comunicação indicado para o fundo Georges Lung. O que está acessível pode ser confrontado com outras fontes e incorporado à história; aquilo que continua fechado permanece fora dela.
A segunda leitura de Vinho e Guerra é uma boa razão para voltar a esses personagens porque o livro apresenta a dimensão humana de uma história que os arquivos econômicos tornam muito maior. Louis Eschenauer não surgiu em 1940 como colaborador alemão: era um negociante de Bordeaux, neto do fundador da casa e filho do homem que a consolidou no século XIX, com décadas de comércio com a Alemanha quando Bömers chegou para organizar as compras do Reich. A ocupação transformou uma relação comercial antiga em uma relação de poder, e Eschenauer decidiu operar dentro dela, até que a Libertação levou sua atuação aos tribunais. Para aprofundar o assunto, Les vins de Bordeaux à l’épreuve de la Seconde Guerre mondiale, 1938-1950, de Sébastien Durand, é fundamental para compreender a estrutura econômica do período; Les raisins du Reich, de Antoine Dreyfus, amplia a investigação sobre a colaboração entre os vinhedos franceses e a Alemanha; e Vinho e Guerra, de Don e Petie Kladstrup, permanece como a obra narrativa que reúne os personagens e os episódios que conduzem a essa história.
O nome Louis Eschenauer continuou associado ao vinho depois da morte de Maurice Auguste Louis Eschenauer, em 1958. A casa fundada em Bordeaux em 1821 atravessou outras décadas, outras estruturas empresariais e outras mãos até ser adquirida, em 1994, pela Les Grands Chais de France, grupo fundado em 1979 por Joseph Helfrich. A marca continua hoje nos mercados internacionais, preservando no rótulo o nome de uma casa que nasceu no século XIX e que, durante a Segunda Guerra Mundial, esteve profundamente envolvida no comércio de Bordeaux em colaboração com o regime nazista, em uma atuação que aparece na documentação posterior marcada por diferentes episódios e circunstâncias, inclusive alguns que foram considerados de maneira distinta pelas autoridades e pelos pesquisadores
