O DISCURSO DE LULA PARA INGLÊS VER

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Lula chegou a Nova York para abrir o Debate Geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, num momento em que a eleição brasileira mudou de temperatura. Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente de Lula na mais recente pesquisa Genial/Quaest para o segundo turno, com 42% contra 41%, enquanto o Polymarket registra o senador com 61% de probabilidade de vitória contra 38% de Lula. A evolução é significativa porque Lula sustentou a liderança no mercado de previsões durante meses, até que a tendência se inverteu e Flávio passou à frente.

A mudança chamou a atenção de Elon Musk, que reagiu ao gráfico do Polymarket com uma única palavra: “Wow”. A reação não pode ser dissociada do confronto que o empresário protagonizou com o Judiciário brasileiro. Musk tornou-se um dos principais críticos de Alexandre de Moraes depois das decisões envolvendo o X, a remoção de conteúdos e o bloqueio da plataforma no Brasil. A disputa atingiu também a Starlink e transformou a liberdade de expressão e a atuação do STF em temas de repercussão internacional. O avanço de Flávio representa para Musk a possibilidade de mudança no ambiente institucional brasileiro com o qual ele próprio entrou em conflito.

A eleição já começou a aparecer de maneira concreta nos preços dos ativos. É o chamado trade eleitoral: o mercado não espera o resultado das urnas para só então calcular suas consequências. À medida que aumenta a probabilidade de vitória de Flávio Bolsonaro, investidores passam a incorporar aos preços a expectativa de uma política econômica diferente da praticada pelo governo Lula, especialmente em relação ao controle das despesas públicas, ao ajuste fiscal, à redução de impostos e à criação de condições mais favoráveis ao investimento privado. É essa expectativa de mudança que ajuda a explicar a queda dos juros futuros: se o próximo governo for percebido como mais comprometido com o equilíbrio das contas públicas, o risco fiscal tende a ser menor e, com ele, o prêmio exigido pelos investidores para financiar a dívida brasileira. Juros futuros menores significam menor custo de capital para o governo, para as empresas e, progressivamente, para o crédito disponível à economia.

O mesmo trade eleitoral se manifesta na Bolsa. A perspectiva de uma política fiscal mais austera e de menor custo de capital altera as expectativas de lucro das empresas e aumenta o valor presente de seus resultados futuros. Empresas que dependem de financiamento, investimento e consumo são beneficiadas por um ambiente de juros menores, enquanto a redução do risco fiscal melhora a percepção sobre os ativos brasileiros e estimula a entrada de capital. A elevação da Bolsa não é simplesmente uma aposta na pessoa de Flávio Bolsonaro: é a antecipação dos efeitos econômicos que o mercado associa ao seu programa, em contraste com a política econômica do governo Lula. Quando juros futuros caem e as ações sobem diante da perspectiva de alternância, o mercado incorpora menos risco, menor custo de financiamento, mais investimento e maior atividade econômica. Flávio Bolsonaro nem sequer foi eleito, mas a perspectiva de que possa chegar ao Planalto já começa a produzir efeitos econômicos que beneficiam os brasileiros.

A matemática eleitoral revelada pela pesquisa Genial/Quaest divulgada em 21 de setembro ajuda a dimensionar o que está em disputa. O levantamento, encomendado pela TV Globo e pelo jornal O Globo e realizado presencialmente com 2.004 eleitores entre os dias 17 e 20, registra Lula com 37% e Flávio Bolsonaro com 33% no primeiro turno; Cury aparece com 6%, Caiado com 4%, Renan Santos com 3%, Zema com 1% e Samara Martins com 1%. Há ainda 8% de indecisos e 7% que declaram voto branco, nulo ou intenção de não votar. Assim, os candidatos que não são Lula ou Flávio concentram 15% das intenções, enquanto outros 15% permanecem fora de qualquer candidatura definida. Como a eleição é decidida pela maioria dos votos válidos, os atuais 85% distribuídos entre candidaturas correspondem à base sobre a qual se calcula a maioria: metade de 85% é 42,5% do eleitorado total. Flávio parte de 33% e precisaria incorporar aproximadamente 9,5 pontos percentuais para atingir essa marca. Em termos puramente matemáticos, isso equivale a captar cerca de 63% dos 15% hoje destinados aos demais candidatos, caso nenhum voto do grupo de indecisos, brancos, nulos e abstencionistas migre para ele. Se houver também transferência desse contingente, a parcela necessária entre os demais candidatos diminui proporcionalmente. A conta, portanto, não parte apenas dos quatro pontos que hoje separam Lula de Flávio, mas de um universo de 30% do eleitorado que está fora das duas candidaturas.

A campanha pelo voto útil pode acelerar esse movimento e produzir uma consequência ainda mais importante: a eleição de Flávio Bolsonaro já no primeiro turno. Os eleitores de Caiado, Zema e Renan Santos, diante de uma disputa cada vez mais concentrada entre Lula e Flávio, podem perceber que o voto em seus candidatos não terá capacidade de levá-los ao segundo turno e optar por aquele que consideram capaz de derrotar Lula. É essa transferência que transforma a matemática atual em possibilidade concreta de vitória já na primeira votação. Entre os eleitores de Cury, a divisão pode ser maior, mas também pode contribuir para essa concentração.

É nesse ambiente que Lula chegou à tribuna internacional falando de democracia, soberania, paz, diálogo e combate ao crime organizado. O discurso, porém, ocorreu justamente quando os Estados Unidos e seus aliados latino-americanos avançaram para um novo patamar na guerra contra o narcotráfico. Em março, Donald Trump lançou o Escudo das Américas, também denominado Americas Counter Cartel Coalition, uma aliança de segurança criada para ampliar a cooperação militar, de inteligência e de combate aos cartéis e ao narcoterrorismo. A iniciativa começou com 17 países signatários e chegou a reunir 19 países em sua composição regional. O Brasil ficou fora.

Nesta semana, 14 países latino-americanos, ao lado dos Estados Unidos, avançaram ainda mais na iniciativa e anunciaram uma ação coordenada contra 24 organizações classificadas como narcoterroristas, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). São eles Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago, além dos Estados Unidos. O Brasil não participa da coalizão.

Na Assembleia Geral, Trump levou essa política diretamente à tribuna. Comparou os cartéis latino-americanos ao Estado Islâmico e afirmou que os Estados Unidos estão dispostos a utilizar seu poder militar no Hemisfério Ocidental para enfrentar essas organizações. A política deixou de ser exclusivamente policial ou financeira e passou a integrar explicitamente a estratégia de segurança nacional americana.

É nesse ponto que a posição brasileira ganha dimensão geopolítica. O governo Lula rejeita a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas e defende que o combate às facções seja conduzido pelo próprio Brasil, com cooperação internacional e sem intervenção militar estrangeira. Lula fala em soberania nacional e em responsabilidade brasileira pelo combate ao crime, enquanto Washington passou a tratar as mesmas organizações como ameaça terrorista de alcance internacional.

O próprio governo americano passou a acusar diretamente o Brasil de falhar no enfrentamento ao PCC e ao Comando Vermelho. Em documento enviado ao Congresso dos Estados Unidos, Donald Trump afirmou que as duas facções transformaram o Brasil em um centro do fluxo global de cocaína, classificou-as como organizações terroristas estrangeiras e cobrou de Brasília medidas agressivas para enfrentá-las e derrotá-las. A cobrança coloca o governo Lula diretamente diante da nova política americana para o narcoterrorismo no Hemisfério Ocidental.

O dado mais grave está no próprio enquadramento americano das facções brasileiras. O PCC e o Comando Vermelho não são mais apenas organizações criminosas para Washington: são formalmente organizações terroristas estrangeiras. O Tesouro americano também passou a tratar o PCC como ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, inclusive em razão de suas redes financeiras e operações de lavagem de dinheiro em território americano. Essa mudança coloca o crime organizado brasileiro dentro de uma arquitetura de segurança muito mais ampla.

É nesse cenário que a hipótese de uma escalada envolvendo o Estado brasileiro deixa de ser uma questão meramente abstrata. Se algum dia Washington concluir que um governo latino-americano não apenas deixa de combater essas organizações, mas oferece proteção, facilitação ou colaboração estatal a elas, o problema passará de uma divergência diplomática para uma questão de segurança nacional americana. O precedente venezuelano mostra a dimensão que essa mudança de enquadramento pode adquirir.

Essa possibilidade torna ainda mais relevante a posição brasileira diante de Cuba, Nicarágua e Venezuela. Enquanto Trump reúne governos latino-americanos em torno de uma estratégia comum contra organizações criminosas e narcoterroristas, Lula mantém relações políticas próximas com os regimes de Havana e Manágua e sustenta uma postura de aproximação com Caracas. O contraste é evidente entre a coalizão regional que incorpora a política americana de segurança e os governos autoritários latino-americanos que permanecem próximos do presidente brasileiro.

O caso do Porto de Mariel acrescenta uma dimensão econômica e estratégica a essa relação. Construído com participação brasileira da Odebrecht e financiamento do BNDES, o empreendimento está inserido na estrutura econômica controlada pela GAESA, conglomerado ligado às Forças Armadas cubanas. Em um momento no qual Washington intensifica a pressão sobre a estrutura econômica e militar cubana, a participação brasileira naquele empreendimento ganha novo significado geopolítico.

O conflito com Washington também se encontra diretamente ligado à questão institucional brasileira. Lula indicou Dias Toffoli, que havia sido advogado do PT e advogado-geral da União em seu governo; Cristiano Zanin, seu advogado pessoal nos processos da Lava Jato; e Flávio Dino, seu ministro da Justiça. Ricardo Lewandowski, depois de deixar o Supremo, retornou ao governo como ministro da Justiça. Alexandre de Moraes não foi indicado por Lula, mas por Michel Temer. Tornou-se, contudo, uma das figuras centrais dos processos judiciais que atingiram Bolsonaro e o núcleo político bolsonarista.

Enquanto Edson Fachin anulou, em 2021, as condenações de Lula por incompetência territorial da 13ª Vara Federal de Curitiba, permitindo que recuperasse os direitos políticos e disputasse a eleição de 2022, Moraes esteve no centro dos processos que atingiram Bolsonaro. Bolsonaro foi retirado da disputa e posteriormente encarcerado. A sucessão de acontecimentos transformou Moraes em uma das figuras decisivas do conflito político brasileiro.

É nesse contexto que o conceito de lawfare ganhou dimensão internacional. Donald Trump levou a questão para a política externa americana, e Alexandre de Moraes foi submetido a sanções americanas sob a Lei Magnitsky. A disputa deixou de ser exclusivamente brasileira e passou a envolver diretamente Washington, sobretudo em torno da liberdade política, da liberdade de expressão, da atuação judicial e do tratamento dispensado ao principal adversário de Lula.

Barroso tornou-se outro símbolo dessa disputa. Em 2023, diante de um congresso da UNE, declarou: “Nós derrotamos o bolsonarismo”. A frase, pronunciada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal diante de uma organização historicamente identificada com a esquerda brasileira, passou a representar uma visão da disputa que ultrapassava a função estritamente jurisdicional da Corte. O STF deixou de ser percebido apenas como árbitro distante do conflito político e passou a ser tratado por seus próprios integrantes como protagonista da disputa.

O mesmo governo que chega à ONU defendendo soberania, democracia e não intervenção enfrenta uma relação cada vez mais tensa com os Estados Unidos justamente quando Washington amplia sua atuação contra o narcoterrorismo e passa a tratar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. Internamente, Lula mantém uma estrutura política próxima de ministros que tiveram papel central na nova configuração do STF, enquanto seu principal adversário foi retirado da disputa eleitoral e posteriormente preso.

A crise de credibilidade do Supremo não começou com o Banco Master nem nasceu das relações agora expostas entre ministros, empresários e advogados. Foi construída durante anos, enquanto a Corte acumulava poderes, ampliava sua intervenção sobre a política, determinava prisões, suspendia perfis, interferia diretamente na atuação de parlamentares e conduzia processos que atingiram o principal movimento de oposição ao governo Lula. A atuação dos ministros contra Bolsonaro não pode ser separada da crise atual do Supremo, assim como o lawfare não pode ser analisado sem reconhecer suas consequências políticas.

Na tribuna da ONU, Lula apresenta ao mundo a imagem de um estadista defensor da democracia, da soberania, da paz, do diálogo e da cooperação internacional. No Brasil, a disputa política é marcada por outra realidade: o avanço das organizações criminosas, a divergência sobre a forma de combatê-las, a distância do Brasil em relação à coalizão regional liderada pelos Estados Unidos, a proximidade de Lula com Cuba e Nicarágua, o conflito com Washington e a controvérsia em torno do STF e do lawfare. O discurso destinado ao público internacional é construído em torno dos valores que Lula deseja projetar para fora do país. É, em grande medida, um discurso para inglês ver

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