PERSPECTIVA POLÍTICA – A prudência também é um gesto institucional
Transparência nas relações entre os Poderes, a possível nova composição do Senado e o exemplo de convivência democrática entre os candidatos em Santa Catarina estão entre os destaques desta edição.
Existem momentos em que recuar não significa fraqueza, mas responsabilidade. O país atravessa um período de desconfianças, versões conflitantes e questionamentos sobre as relações entre os Poderes e seus integrantes. Nesse ambiente, qualquer encontro reservado ou reunião fora das agendas oficiais pode alimentar interpretações sobre favorecimentos, interferências ou articulações que nem sempre correspondem aos fatos.
O diálogo institucional é fundamental para o funcionamento da democracia. Entretanto, tão importante quanto preservar essa interlocução é garantir transparência suficiente para não ampliar dúvidas já existentes. Por algum tempo, seria prudente evitar encontros não anunciados, reuniões sem pauta divulgada e conversas reservadas capazes de gerar novas suspeitas. Mesmo quando não existe irregularidade, a forma como determinado ato é percebido também produz consequências políticas.
Quem ocupa uma função pública precisa compreender que não basta agir corretamente: é necessário permitir que a sociedade reconheça essa correção. Em momentos de tensão, reduzir espaços para especulações ajuda a proteger as próprias instituições. Às vezes, um passo atrás é justamente o que permite ao país avançar.
O Senado que pode sair das urnas
Pesquisas eleitorais não determinam resultados, mas costumam indicar tendências. Neste ano, estarão em disputa 54 das 81 cadeiras do Senado — dois terços da Casa. Cada estado e o Distrito Federal elegerão dois representantes, o que torna esta uma das renovações mais importantes do cenário político nacional.

A leitura dos levantamentos divulgados até agora aponta, caso as tendências sejam confirmadas nas urnas, para um Senado mais conservador, com o crescimento das bancadas de direita e centro-direita. Muitas disputas ainda estão abertas, especialmente pela segunda vaga, mas o movimento observado poderá alterar de maneira significativa a composição política da Casa.
Um Senado fortalecido e disposto a exercer plenamente suas atribuições poderá contribuir para restabelecer o equilíbrio entre os Poderes. Isso não significa alimentar confrontos ou substituir o diálogo pela disputa permanente. Significa fiscalizar, estabelecer limites e cumprir as responsabilidades constitucionais com independência. Mais importante do que ser de direita, de centro ou de esquerda será compreender que harmonia entre os Poderes não é submissão, mas respeito às competências de cada um.
Adversários, não inimigos
Santa Catarina é reconhecida nacionalmente por seus bons indicadores sociais, econômicos, de emprego e de segurança. Nesta campanha eleitoral, o estado também oferece um exemplo importante no campo político: seus principais candidatos ao governo disputam votos e apresentam suas diferenças, mas continuam tratando uns aos outros como adversários, não como inimigos.

Naturalmente, a campanha utiliza estratégias conhecidas, como críticas, comparações e tentativas de desconstrução. Fora dos holofotes, porém, os candidatos conversam, trocam ideias, cumprimentam-se, abraçam-se e mantêm uma convivência respeitosa. As divergências eleitorais não precisam destruir relações pessoais nem transformar a disputa pelo poder em hostilidade permanente.
Esse é o verdadeiro sentido da política: ideologias, pensamentos e propostas diferentes confrontados no campo da argumentação e do convencimento. O adversário precisa ser vencido pelo voto, não eliminado da convivência. Que Santa Catarina preserve esse exemplo durante toda a campanha — e também depois das urnas.
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