A ESQUERDA E AMIN

João Rodrigues prossegue perdendo apoios de prefeitos e lideranças políticas, inclusive dentro do próprio PSD, que passam a aderir ao projeto de reeleição de Jorginho Mello. A chapa do Centrão continua a fazer água. O movimento aparece também nas pesquisas: na Quaest divulgada ontem, Jorginho chegou a 54%, enquanto João ficou com 13%. Nesse cenário, Esperidião Amin, candidato ao Senado na composição de Rodrigues, assiste a parte do campo político que deveria sustentá-lo caminhar em outra direção e, curiosamente, começa a ser abraçado por setores da esquerda sob o argumento do voto útil.
A razão aparece com maior clareza quando se observa a intenção de voto para as duas vagas ao Senado. Na Paraná Pesquisas, Carol de Toni alcança 42,3%, Carlos Bolsonaro 36% e Amin 34,2%. Depois há um abismo: Décio Lima aparece com 15,6%, Antídio Lunelli com 7,2% e Afrânio Boppré com apenas 6,6%. Como cada eleitor pode escolher dois senadores, é essa soma das intenções que interessa para enxergar a disputa pelas duas cadeiras. Diante de candidaturas próprias que não decolam, começam a surgir manifestações na esquerda defendendo um dos votos em Amin para tentar impedir a eleição de Carlos Bolsonaro.
Mas a rejeição a Carlos merece uma distinção importante. O argumento de que ele é carioca, “forasteiro” ou não deveria representar Santa Catarina não é sequer consenso dentro da esquerda. Afrânio Boppré resolveu explorar sua origem e chegou a dizer que não queria que Santa Catarina recebesse “aquilo que, de pior, o Rio de Janeiro tem”. A frase provocou reação de Carla Ayres, do PT, que nasceu em Jales, interior de São Paulo, e construiu sua trajetória política em Florianópolis. Para ela, Carlos não deve ser rejeitado por ser carioca, mas pelo que representa politicamente; atacar sua origem apenas fomenta o preconceito contra migrantes.
A observação de Carla toca num ponto sensível. Santa Catarina tornou-se destino de brasileiros vindos de todas as regiões. Nesse ambiente, transformar local de nascimento em critério de legitimidade política estabelece uma divisão entre catarinenses de nascimento e catarinenses por escolha. E talvez esteja aí uma das razões pelas quais o discurso de Afrânio encontra tão pouca adesão: num Estado que recebe continuamente gente de fora, atacar um candidato por sua origem pode atingir também uma parcela considerável do próprio eleitorado.
Retirado o bairrismo, a questão fica muito mais clara. Para a esquerda que rejeita Carlos, o problema não é o Rio de Janeiro: é o bolsonarismo. Carlos é um de seus principais expoentes e carrega uma identidade política nacional perfeitamente definida. O voto útil em Amin nasce exatamente daí. E é justamente essa escolha que produz a pergunta mais interessante desta eleição para o Senado: se setores da esquerda estão dispostos a abandonar seus próprios candidatos e votar em Esperidião Amin para impedir Carlos Bolsonaro, o que enxergam em Amin que consideram preferível ao bolsonarismo representado por Carlos?
