O IMPÉRIO DOS NEGÓCIOS

A China não parece interessada em conquistar o mundo com tanques, mas em vender para ele e, ao mesmo tempo, comprar aquilo de que precisa para alimentar sua gigantesca máquina industrial e sua população. Taiwan constitui a grande exceção, pois Pequim considera a ilha parte de seu território e não renuncia ao emprego da força para promover a reunificação. Fora dessa questão, sua expansão internacional tem sido predominantemente econômica, conduzida por uma combinação formidável de comércio, crédito, investimentos e infraestrutura.
Trata-se de uma estratégia muito mais sofisticada do que a velha conquista territorial. Em vez de ocupar países, a China ocupa espaços econômicos, financiando infraestrutura, construindo portos e ferrovias, emprestando dinheiro, comprando matérias-primas e adquirindo participações em ativos estratégicos. O modelo oferece vantagens particularmente grandes quando, do outro lado da mesa, encontra países pobres, endividados, corruptos ou institucionalmente frágeis, cuja capacidade de planejamento, fiscalização e negociação é incomparavelmente menor.
A África oferece alguns dos exemplos mais impressionantes. Na República Democrática do Congo, entidades chinesas possuem ou participam de 29 das aproximadamente 40 propriedades ativas de cobre e cobalto. O país concentra quase dois terços da mineração mundial de cobalto, enquanto cerca de três quartos de todo o refino desse mineral ocorre na China, numa equação que ajuda a compreender onde está uma parcela decisiva do poder: o recurso natural permanece africano, porém etapas de maior processamento e importância industrial concentram-se do outro lado do mundo. Quando se amplia a análise para 20 minerais estratégicos, a dimensão da vantagem torna-se ainda mais clara: a China é o principal refinador de 19 deles, com participação média próxima de 70%.
No próprio Congo, o acordo Sicomines tornou-se emblemático ao vincular direitos sobre cobre e cobalto a investimentos chineses em infraestrutura. Uma auditoria estatal apontou que apenas US$ 822 milhões dos US$ 3 bilhões originalmente prometidos para infraestrutura haviam sido desembolsados, até que o governo congolês pressionou pela renegociação e obteve um novo arranjo que prevê cerca de US$ 7 bilhões, condicionado também ao comportamento dos preços do cobre. O episódio demonstra quanto a capacidade de negociação do país detentor dos recursos pode alterar os termos de uma relação originalmente assimétrica.
Na pesca, o fenômeno assume outra dimensão. A China possui a maior frota pesqueira de águas distantes do planeta, apoiada por subsídios públicos e por estruturas empresariais muitas vezes difíceis de rastrear, enquanto levantamentos internacionais documentam embarcações chinesas associadas a episódios de pesca ilegal, não declarada ou não regulamentada. Na África Ocidental, grandes operações industriais encontram Estados que frequentemente dispõem de meios insuficientes para fiscalizar suas próprias águas, ao mesmo tempo em que comunidades costeiras dependem diretamente do pescado para alimentação e renda. Países com extraordinária riqueza pesqueira veem, assim, parte de seus recursos capturada por frotas estrangeiras, inclusive chinesas, em relações nem sempre transparentes e sob fiscalização precária. Ao fim e ao cabo, quem possui o recurso nem sempre é quem captura a maior parcela de seu valor.
O crédito completa essa engrenagem. Um estudo que examinou cem contratos entre entidades estatais chinesas e governos de 24 países encontrou cláusulas incomuns de confidencialidade, contas de receitas controladas pelo credor e mecanismos destinados a melhorar a posição chinesa diante de outros credores, além de disposições capazes de restringir as opções do devedor durante uma crise. Pequim negocia seus empréstimos internacionais com grande sofisticação jurídica e inequívoca preocupação em proteger os próprios interesses.
Há ainda uma diferença civilizacional importante para compreender por que o Ocidente tantas vezes interpreta a China segundo categorias que não são necessariamente chinesas. A concepção ocidental contemporânea da pessoa, dos direitos individuais e dos limites ao poder nasceu de uma longa combinação de filosofia grega, direito romano, tradição judaico-cristã, jusnaturalismo, constitucionalismo, liberalismo e Iluminismo. A China percorreu outra estrada, marcada sobretudo pelo confucionismo, taoismo e budismo, com maior ênfase histórica na família, nas obrigações recíprocas, na hierarquia, na formação moral do governante e na harmonia social.
A China contemporânea acrescentou a essa herança o leninismo do Partido Comunista, cuja liderança a própria Constituição define como característica essencial do sistema. O resultado é uma combinação peculiar de continuidade civilizacional, nacionalismo, planejamento estatal, organização partidária e mecanismos de mercado submetidos ao comando político. Essa formação ajuda a compreender o pragmatismo com que Pequim coordena diplomacia, bancos, empresas, tecnologia e comércio com horizontes longos.
Certa vez, o jurista César Amorim Krieger, doutor em Direito, Estado e Sociedade e estudioso de Direito Internacional e relações internacionais, disse-me algo que nunca esqueci. Segundo pesquisas que havia estudado, enquanto crianças ocidentais tradicionalmente brincavam de mocinho e bandido, as chinesas aprendiam a brincar de cercar e encurralar. A imagem encontra curioso paralelo no weiqi, milenar jogo chinês de estratégia cujo próprio nome remete à ideia de cercar. Diferentemente do xadrez, não há um rei cuja captura encerre a partida: a lógica consiste em ocupar posições, controlar território, envolver grupos adversários e reduzir progressivamente seu espaço de manobra. Poucas imagens traduzem tão bem a estratégia econômica desenvolvida por Pequim pelo mundo.
É quando se traz essa lógica para o Brasil que o fenômeno deixa de parecer distante. Poucos países reúnem, simultaneamente e em tamanha escala, tantas coisas de que a China necessita: alimentos, minério de ferro, petróleo, celulose e outros recursos naturais, além de um mercado consumidor de mais de 200 milhões de pessoas, enorme demanda por infraestrutura e abundância de sol, vento e água para geração de energia. Aqui a China encontrou terreno fértil, com o perdão do trocadilho.
Somos uma potência agrícola e mineral, porém convivemos com corrupção, deficiência de planejamento de longo prazo e uma histórica dificuldade de transformar vantagens naturais em estratégia nacional. No Índice de Percepção da Corrupção de 2025 da Transparência Internacional, o Brasil marcou 35 pontos em 100 e apareceu na 107ª posição entre 182 países e territórios. Para efeito de comparação, a China obteve 43 pontos e ficou na 76ª posição, enquanto os Estados Unidos, com 64 pontos, apareceram em 29º lugar. Nesse indicador, portanto, o Brasil está oito pontos e 31 posições abaixo da própria China.
Nenhum outro país compra tanto do nosso agronegócio. Em 2025, a China adquiriu US$ 55,3 bilhões em produtos agropecuários brasileiros, equivalentes a 32,7% de tudo o que o setor exportou. No comércio total, a relação também produz expressivo superávit para o Brasil, porém sua composição merece atenção: entre nossas principais vendas aparecem commodities e recursos naturais, enquanto de lá chegam em grande escala máquinas, equipamentos, eletrônicos e produtos industrializados.
Pequim precisa da soja, da carne, do minério, do petróleo e da celulose brasileiros, porém o Brasil tornou-se cada vez mais dependente dela como mercado para esses produtos. Para os chineses, somos um importante fornecedor; para o Brasil, aquele país tornou-se um comprador de proporções difíceis de substituir rapidamente, circunstância que naturalmente interfere no poder de barganha de cada lado.
Mas a relação já não se limita às compras. O capital vindo da China, há anos fortemente presente no setor elétrico brasileiro, avançou sobre mineração, indústria automobilística, transição energética e outros setores relevantes para as próximas décadas, enquanto empresas como BYD e GWM instalaram fábricas no país. A questão passa a ser também onde esses investimentos estão entrando, quanto conhecimento tecnológico permanece aqui e qual será a importância desses ativos daqui a vinte ou trinta anos.
O automóvel talvez ofereça o retrato mais impressionante da velocidade dessa mudança. Em 2020, a Chevrolet liderava o mercado brasileiro de automóveis e comerciais leves pelo quinto ano consecutivo, com 338,5 mil veículos vendidos e 17,35% de participação. Cinco anos depois, havia caído para a terceira posição, com aproximadamente 276 mil unidades e 10,82% do mercado. No mesmo intervalo surgiu a BYD, que vendeu apenas 260 veículos no Brasil em 2022 e chegou a 112,8 mil em 2025. Considerando apenas automóveis, terminou aquele ano com 5,59% do mercado, enquanto Caoa Chery e GWM também avançavam rapidamente. Nos elétricos, a transformação foi ainda mais radical: a BYD encerrou 2025 com 72% das vendas brasileiras de veículos 100% elétricos. Em poucos anos, marcas até então praticamente desconhecidas deixaram de disputar nichos para pressionar fabricantes estabelecidos aqui há décadas, alterar preços, elevar o conteúdo tecnológico oferecido ao consumidor e obrigar toda a indústria a acelerar seus projetos de eletrificação.
O movimento alcança também a espinha dorsal logística brasileira. A China Merchants Port controla o Terminal de Contêineres de Paranaguá; em Santos, a estatal COFCO movimenta mais de 14 milhões de toneladas de grãos e mantém seu maior ativo de exportação fora da China, tendo adquirido, em parceria com a Rumo, 979 vagões e 23 locomotivas para transportar a produção até o porto. Nas ferrovias, uma subsidiária da gigante CRRC integra o consórcio responsável pelo projeto São Paulo-Campinas, enquanto outros grupos estudam novas concessões ferroviárias, portuárias, hidroviárias e aeroportuárias apresentadas pelo próprio governo brasileiro.
Até a indústria de cruzeiros entrou nesse movimento. Depois de anos de um mercado brasileiro de cabotagem praticamente dividido entre MSC e Costa, a temporada 2026/2027 marca a entrada da Corazul com o Buenavista, antigo Piano Land da Astro Ocean Cruises. O navio foi afretado pela Global Cruiseline, empresa ligada à Corazul, e sua operação no Brasil integra um acordo de cooperação com a estatal chinesa China Cruise International, controladora da Astro Ocean, que apresentou o negócio como parte da expansão internacional da indústria de cruzeiros chinesa.
Na energia, os números são ainda mais expressivos. Em 2025, nada menos que 98,3% dos painéis solares importados pelo Brasil vieram da China, num fluxo que movimentou US$ 1,5 bilhão. Nos aerogeradores, a Goldwind instalou em Camaçari sua primeira fábrica fora de seu país de origem e acaba de fechar com a Casa dos Ventos o fornecimento de 109 turbinas para o complexo eólico Sento Sé, na Bahia, com 872 MW de capacidade. O contrato vai muito além da venda das máquinas: a empresa ficará responsável pelo transporte, instalação e comissionamento dos equipamentos e pela operação e manutenção durante 30 anos.
Estatais como SPIC e China Three Gorges também possuem participações em hidrelétricas, parques solares e complexos eólicos espalhados pelo Brasil. O sol e o vento são brasileiros; parcela crescente da tecnologia empregada para transformá-los em eletricidade vem do outro lado do mundo, assim como parte relevante do capital investido na própria geração.
Não há motivo para censurar Pequim por agir dessa maneira. Imaginar que deveria proteger os interesses brasileiros seria inverter as responsabilidades, porque essa obrigação pertence exclusivamente ao Brasil.
É justamente nesse ponto que a experiência americana se torna interessante. Donald Trump iniciou a guerra tarifária contra a China, acusou durante anos Pequim de tirar proveito comercial dos Estados Unidos, restringiu seu acesso a tecnologias estratégicas e voltou à Casa Branca determinado a reequilibrar essa relação, porém sua política também distingue competição de ruptura.
A melhor demonstração dessa lógica ocorreu em maio deste ano, quando Trump viajou a Pequim e levou consigo dirigentes de grandes corporações americanas dos setores de aviação, commodities, tecnologia, finanças e pagamentos. Executivos de empresas como Boeing, GE Aerospace, Qualcomm, Cargill, Visa, Goldman Sachs e Citigroup aproveitaram a visita para conversar com autoridades e reguladores em busca de aprovações, acesso ao mercado e negócios. Era uma representação bastante concreta do poder econômico americano acompanhando o presidente, ao mesmo tempo em que os dois governos discutiam suas divergências estratégicas.
Quatro meses depois, a imagem reapareceu em Washington, com os papéis invertidos. Xi Jinping chegou aos Estados Unidos em 23 de setembro para uma visita de Estado de três dias, sendo recebido pessoalmente por Donald e Melania Trump na Base Conjunta Andrews, gesto incomum no protocolo presidencial americano. No dia seguinte, a Casa Branca promoveu a cerimônia oficial de chegada, com honras militares e sobrevoo de um bombardeiro B-2 acompanhado por quatro caças F-22, antes das reuniões entre as duas delegações.
Naquela noite, Trump e Melania ofereceram a Xi e Peng Liyuan um jantar de Estado que reuniu uma parcela extraordinária do poder empresarial americano. Estavam presentes, entre outros, Jensen Huang, Sam Altman, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Sundar Pichai, Elon Musk e Michael Dell, além de alguns dos principais nomes das finanças dos Estados Unidos. Enquanto Washington e Pequim discutiam comércio, inteligência artificial, semicondutores, agricultura, investimentos e minerais críticos, dirigentes das empresas que materializam boa parte desse poder econômico estavam literalmente sentados à mesma mesa.
A visita prosseguiu na manhã seguinte, quando os dois casais tomaram chá na Casa Branca e seguiram juntos para os Arquivos Nacionais, onde ocorreu a despedida. A sequência inteira, da recepção pessoal de Xi no aeroporto ao jantar de Estado e às cerimônias do último dia, reforçou o simbolismo de uma relação em que competição econômica e tecnológica, tarifas e divergências geopolíticas convivem com uma interlocução de altíssimo nível entre as duas maiores potências do mundo.
Um retrato particularmente eloquente do mundo que está surgindo está nessa sequência: Trump desembarcando em Pequim acompanhado por grandes empresários americanos e, poucos meses depois, Xi recebido nos Estados Unidos com todas as honras e sentado à mesa da Casa Branca cercado por boa parte da elite tecnológica e financeira americana. Por trás das bandeiras, das tarifas e das divergências continuam existindo mercados, investimentos, matérias-primas, tecnologia e negócios.
A China compreendeu há muito tempo que, no século XXI, não é preciso desembarcar tropas, instalar governadores ou hastear bandeiras em território estrangeiro para exercer enorme influência. Quer fazer muitos negócios e, como seria de esperar, realizá-los nas melhores condições possíveis para os chineses; o problema dos países fracos não está em Pequim saber defender muito bem os próprios interesses, mas em eles não saberem defender os seus.
