A fake news foi desmentida, mas continua sendo usada nas redes sociais
GloboNews reconheceu o erro e pediu desculpas, mas publicações continuam associando Flávio Bolsonaro a uma proposta inexistente sem mencionar a retratação da emissora.

A notícia era falsa. A própria emissora que a divulgou reconheceu o erro, fez a correção e pediu desculpas.
Mesmo assim, a história continua circulando.
Este é o novo capítulo envolvendo a informação divulgada pela GloboNews de que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) estaria relacionado a uma iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
Não existe proposta de Flávio Bolsonaro nesse sentido.
A referência utilizada na discussão remete ao Projeto de Lei 2.623/2007, apresentado há quase duas décadas por outro parlamentar e arquivado pela Câmara dos Deputados em 2008.
A informação incorreta foi apresentada na quinta-feira (24), durante o programa Em Pauta, pela comentarista Maria Cristina Fernandes. O assunto rapidamente ganhou repercussão política e se espalhou pelas redes sociais.
Horas depois, a GloboNews corrigiu a informação e pediu desculpas.
O problema agora é outro.
Mesmo depois da retratação, continuam aparecendo publicações reproduzindo ou comentando a notícia original sem informar que ela já foi desmentida pela própria GloboNews.
Entre as manifestações que repercutiram o assunto aparecem políticos, influenciadores, militantes e personalidades conhecidas nacionalmente. O ator José de Abreu, identificado publicamente com posições políticas de esquerda, está entre aqueles que fizeram publicações relacionadas ao episódio.
É exatamente nesse ponto que um erro jornalístico ganha uma segunda dimensão.
Quem recebe apenas a publicação original ou sua reprodução nas redes sociais pode continuar acreditando que Flávio Bolsonaro pretende alterar a condição de Nossa Senhora Aparecida.
A correção existe.
Mas é omitida.
E uma informação já reconhecida como incorreta continua produzindo consequências políticas.
O episódio envolve ainda um assunto de enorme sensibilidade para milhões de brasileiros.
Nossa Senhora Aparecida é oficialmente a Padroeira do Brasil, em um país no qual o catolicismo continua sendo a religião com o maior número de seguidores.
Associar um candidato presidencial à retirada desse título não é uma informação politicamente irrelevante. Pode interferir diretamente na percepção de uma parcela importante do eleitorado.
Por isso, existe uma diferença fundamental entre divulgar uma informação antes de conhecer sua falsidade e continuar reproduzindo a mesma narrativa depois que a fonte original já reconheceu publicamente o erro.
A primeira situação pode decorrer de uma informação equivocada.
Na segunda, a correção já está disponível.
É justamente aí que aparece uma das maiores dificuldades no combate às fake news.
Não basta desmentir.
Depois de lançada nas redes sociais, uma informação passa a ter vida própria. Circula entre grupos, páginas, influenciadores e usuários que podem reproduzir apenas aquilo que reforça suas posições políticas.
A notícia original alcança milhares ou milhões de pessoas.
A retratação nem sempre percorre o mesmo caminho.
Neste caso, existe ainda uma particularidade: a própria fonte utilizada para dar credibilidade à informação já declarou que ela estava errada.
Ainda assim, a versão incorreta permanece sendo utilizada nas redes.
Esse comportamento ajuda a explicar por que o combate à desinformação se tornou tão complexo.
Quando a verdade passa a ser selecionada conforme a conveniência política, a correção perde espaço para aquilo que interessa manter circulando.
E isso vale para qualquer lado.
Fake news não deixa de ser fake news porque prejudica um adversário.
O caso de Nossa Senhora Aparecida apresenta um exemplo bastante claro.
A GloboNews errou e reconheceu o erro.
A partir desse momento, continuar divulgando a acusação sem informar que ela foi desmentida significa entregar ao público apenas metade da história.
E, neste caso, justamente a metade que já se sabe estar errada.
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