O voto agora, a conta depois
A avalanche de benefícios anunciados por Lula na reta final expõe o uso eleitoral do governo e deixa para o contribuinte a responsabilidade de financiar as promessas.

A dez dias do segundo turno, o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva anunciou mais uma promessa: enviar ao Congresso uma PEC para garantir transporte coletivo gratuito nos finais de semana. Depois de uma sequência de medidas de forte apelo popular, o governo encontrou mais um benefício para colocar na vitrine eleitoral.
Na avaliação deste portal, essa avalanche de anúncios revela oportunismo e desespero eleitoral. O governo acelera compromissos, mobiliza sua estrutura e oferece novas vantagens enquanto pede ao brasileiro mais quatro anos de mandato. A urgência das promessas acompanha o calendário das urnas.
O roteiro é conveniente para quem disputa a reeleição. Anuncia-se o benefício, explora-se sua repercussão e deixa-se a discussão sobre o pagamento para depois. Quem cobra responsabilidade corre o risco de ser apresentado como inimigo do trabalhador. Enquanto isso, a pergunta permanece: quem vai pagar?
No caso do transporte, Lula mencionou recursos de emendas parlamentares. Como se mudar o endereço da verba eliminasse seu custo. Emenda também é dinheiro público. Se o recurso sair de outra finalidade, alguma prioridade ficará para trás. Se faltar dinheiro, a diferença continuará sendo responsabilidade do poder público — e, portanto, da sociedade.
O trabalhador merece respeito à sua inteligência. Apresentar sucessivas promessas sem esclarecer suficientemente como serão sustentadas transforma necessidades legítimas em instrumentos de campanha.
É esse uso da Presidência que condenamos: colocar a capacidade de ação do governo a serviço da sobrevivência eleitoral de seu ocupante. Há um evidente desequilíbrio quando o candidato pode anunciar benefícios com a autoridade do cargo e deixar a conta para todos os brasileiros.
Politicamente, enxergamos nessa conduta a lógica do estelionato eleitoral: conquistar apoio com a parte atraente da promessa e empurrar suas condições e consequências para depois da votação. A expressão traduz nossa crítica editorial à relação que se estabelece com o eleitor.
O Brasil continuará existindo depois do dia 25. Suas dificuldades também. Compromissos assumidos para produzir aplausos de campanha terão de caber no orçamento de um país que já enfrenta problemas para equilibrar suas contas.
O dinheiro público não pertence ao presidente, ao partido ou à campanha. Pertence à população. Usá-lo como argumento de última hora para permanecer no poder merece uma cobrança firme: a ambição de vencer uma eleição não pode se sobrepor à responsabilidade de governar.
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