Brasil: um país que precisa se reencontrar

Tensão política, insegurança econômica e discursos de confronto mostram que encerrar a eleição é apenas o primeiro passo para reconstruir a convivência entre brasileiros.

Menos de 48 horas depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil continua mergulhado em um ambiente de tensão. A disputa terminou nas urnas, mas o espírito de confronto permanece. Um país não consegue avançar quando transforma cada divergência em uma batalha e cada adversário em um inimigo.

Na economia, a queda acentuada da Bolsa e a alta do dólar na segunda-feira (26) evidenciaram a insegurança dos investidores. Nesta terça-feira, os mercados ensaiaram uma recuperação, mas a preocupação com os próximos passos do governo permanece. Confiança exige decisões claras e responsabilidade com as contas públicas.

Ao mesmo tempo, informações sobre estudos da equipe econômica para conter despesas e reduzir o crédito subsidiado colocam uma cobrança inevitável: como serão conciliados os compromissos eleitorais com os limites do orçamento? O eleitor merece conhecer essa resposta com a mesma clareza com que recebeu as promessas.

No campo institucional, Flávio Bolsonaro foi intimado a entregar seus passaportes por determinação de Alexandre de Moraes, no âmbito de uma investigação por suspeita de lavagem de dinheiro. O senador nega irregularidades. A medida exige fundamentação e transparência; a derrota eleitoral, por si só, não constitui motivo para restringir direitos.

No Amazonas, o governador eleito Omar Aziz anunciou que pretende pedir a prisão da adversária Maria do Carmo e de outras pessoas, alegando ataques à sua filha durante a campanha. Eventuais crimes devem ser apurados, mas a declaração “eu quero eles na cadeia” reforça um ambiente em que a linguagem da revanche ocupa o espaço da responsabilidade pública. Também precisamos rejeitar a ideia de transformar trabalhadores, famílias ou pessoas atendidas por iniciativas sociais em instrumentos de retaliação eleitoral. Divergir do resultado não justifica desejar dificuldades para outros brasileiros.

Na avaliação deste portal, essa escalada de hostilidade não pode ser normalizada. Respeitar as urnas, fiscalizar o governo e exigir uma Justiça isonômica são compromissos que devem caminhar juntos.

Reconstruir o Brasil exige mais do que organizar as finanças. Exige recuperar a confiança entre as pessoas, respeitar direitos e compreender que nenhuma vitória autoriza vingança, assim como nenhuma derrota justifica sabotagem. Se a eleição continuar indefinidamente na vida dos brasileiros, perderemos todos.

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