O silêncio dos artistas: a Amazônia mudou de endereço?

Manaus está sob fumaça, mas a mobilização artística de outros tempos não aparece com a mesma força. A floresta continua no mesmo lugar. O governo é que mudou.

A Amazônia continua no mesmo lugar. As árvores não trocaram de partido, os animais não mudaram de candidato e a fumaça não pediu autorização ao calendário eleitoral. Mesmo assim, aquela indignação artística que mobilizava o Brasil parece ter perdido potência.

Houve um tempo em que defender a floresta vinha acompanhado de vídeos, discursos, cobranças e manifestações emocionadas. Em 2021, dezenas de artistas reuniram suas vozes na “Canção pra Amazônia”. A causa ganhou música, imagem e projeção nacional.

Agora, Manaus está novamente encoberta pela fumaça das queimadas. A situação levou à suspensão de aulas e de atividades presenciais em órgãos municipais. Para quem vive ali, a crise tem cheiro, entra pela janela e interfere na rotina.

O que sentimos falta é daquele coro. Na mobilização pública que acompanhamos, não aparece a mesma disposição coletiva para transformar sofrimento em protesto. Talvez os microfones estejam ocupados. Talvez falte combinar o tom. Ou talvez cobrar um governo próximo seja uma tarefa menos confortável do que cobrar um adversário.

A leitura deste portal é que a mobilização anterior também carregava um componente ideológico. Nada impede um artista de ter preferência política. O problema começa quando uma causa apresentada como universal parece ganhar ou perder urgência conforme o ocupante do Palácio do Planalto.

Se a floresta precisa de proteção, precisa em qualquer governo. Se a fumaça exige indignação, exige também quando a cobrança pode constranger aliados. O pulmão de quem mora em Manaus não dispõe de um filtro que reconheça afinidades partidárias.

Os artistas que participaram das campanhas anteriores sabem mobilizar. Sabem alcançar milhões de pessoas e colocar um assunto na conversa nacional. Foi justamente essa capacidade que tornou suas manifestações relevantes. Por isso, a cobrança pela continuidade desse compromisso é legítima.

Seria esclarecedor ver a mesma energia dirigida às autoridades de hoje. Perguntas firmes, exigência de providências, acompanhamento das respostas. Uma defesa da Amazônia capaz de atravessar a mudança de governo sem precisar de nova orientação de palco.

A responsabilidade de combater as queimadas é do poder público. Mas quem assumiu publicamente uma causa também se expõe à avaliação sobre a coerência com que a sustenta. O aplauso recebido ontem não encerra esse compromisso.

O Brasil precisa de artistas livres para cobrar inclusive aqueles que ajudaram a eleger. A floresta merece uma defesa que sobreviva às preferências eleitorais.

Manaus continua sob fumaça. A Amazônia continua precisando de proteção. O palco está disponível. Falta saber quando o coro volta.

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