FIDELIDADE IDEOLÓGICA E DEFORMAÇÃO MORAL

O eleitor petista que insiste em justificar tudo por identidade ideológica fecha os olhos para uma história marcada por escândalos de corrupção, condenações judiciais e desmandos de proporções extraordinárias. Mensalão, petrolão e o gigantesco esquema internacional de propinas da Odebrecht, da JBS e, agora, do Banco Master, não são invenções de adversários políticos. São episódios investigados, documentados e, em aspectos fundamentais, reconhecidos judicialmente, inclusive no exterior. Diante desse histórico, recorrer à absurda falsa equivalência com o bolsonarismo tornou-se expediente conveniente para fugir da responsabilidade de explicar aquilo que se continua apoiando.
Não bastasse o histórico de corrupção, essa fidelidade ideológica também alcança bandeiras que representam profunda inversão de valores: flexibilização das políticas sobre drogas, defesa da ampliação do aborto, imposição de pautas de identidade de gênero, politização da educação, relativismo moral, intervencionismo estatal, tentativas de controle do discurso público e complacência com regimes autoritários de esquerda. O problema não está apenas em defender essas posições, mas em pretender que a sociedade inteira se submeta a elas, enquanto se reivindica para os próprios correligionários tolerância que frequentemente se nega aos adversários.
E esse eleitor tampouco pode alegar desconhecimento dos métodos empregados na atual campanha presidencial. Em 9 de outubro, o próprio Tribunal Superior Eleitoral determinou a retirada de propagandas divulgadas por Lula e Janja que atribuíram a Flávio Bolsonaro intenções de prejudicar programas sociais e direitos dos trabalhadores sem respaldo objetivo. A exploração do medo entre os eleitores mais vulneráveis à desinformação, mediante afirmações apresentadas como verdades sobre propostas inexistentes ou não demonstradas, ultrapassa os limites aceitáveis do confronto político. Quando até a Justiça Eleitoral precisa intervir para retirar esse tipo de conteúdo, a gravidade da conduta dispensa maiores adjetivos.
O mais perturbador é a naturalidade com que tudo isso acaba sendo relativizado. Condenações são minimizadas, escândalos são esquecidos, alianças internacionais controversas são desculpadas e expedientes eleitorais condenáveis são tratados como simples instrumentos da disputa pelo poder. A ideologia converte-se em salvo-conduto moral, capaz de justificar nos próprios aquilo que seria considerado intolerável nos adversários.
Não se exige de ninguém concordância com o bolsonarismo. Exige-se apenas coerência moral e honestidade intelectual. A democracia admite divergências profundas, mas não deveria admitir que a fidelidade partidária se sobreponha sistematicamente à verdade, à legalidade e aos princípios que cada cidadão afirma defender. Quando a consciência passa a obedecer ao partido, deixa de funcionar como consciência crítica e transforma-se em instrumento de conveniência política.
