O fundo do poço moral

Quando a mentira vira ferramenta de campanha e a influência serve para enganar, o prejuízo ultrapassa a eleição e atinge a confiança na democracia.

É profundamente lamentável o estágio alcançado pelo debate político brasileiro. A visibilidade conquistada por artistas, influenciadores e políticos deveria trazer responsabilidade proporcional ao alcance de suas palavras. Quando essa influência é utilizada para disseminar informações falsas, transforma-se em instrumento de manipulação.

Divergir, criticar e defender uma candidatura são direitos democráticos. Fabricar acusações, distorcer declarações e apresentar invenções como fatos são escolhas que corrompem o debate. A preferência eleitoral não concede licença para mentir.

Nas redes sociais, essa degradação também aparece na circulação de supostos trackings: números apresentados como informações privilegiadas, frequentemente sem identificação de origem, metodologia ou possibilidade de conferência. A expressão “pesquisa interna” funciona como um selo improvisado de credibilidade. Basta que o resultado agrade para que comece a ser compartilhado.

Levantamentos internos podem existir. Sua divulgação pública, porém, precisa observar as regras eleitorais. As pesquisas destinadas ao conhecimento público devem ser registradas na Justiça Eleitoral com antecedência mínima de cinco dias, acompanhadas das informações exigidas pela legislação. Chamar uma tabela de tracking ou de “vazamento” não dispensa essas obrigações.

Um número sem procedência verificável não deve receber o tratamento de pesquisa confiável. Da mesma forma, uma acusação repetida por milhares de perfis continua dependendo de comprovação. Popularidade não transforma falsidade em verdade.

O que leva pessoas reconhecidas a agir dessa maneira? Paixão política cega, obsessão pelo poder ou interesse individual? Sem conhecer cada caso, não cabe atribuir uma motivação única. Mas nenhuma dessas razões justificaria enganar deliberadamente o eleitor.

A responsabilidade aumenta quando quem publica sabe que a informação é falsa. E permanece quando, depois de alertado sobre o erro, prefere mantê-lo porque favorece seu candidato. Nesse ponto, a defesa de uma preferência política passa a exigir o abandono da própria honestidade.

Esse é o fundo do poço moral: aceitar a mentira como instrumento legítimo, desde que ela ajude o lado escolhido. Cobrar verdade do adversário e tolerar a falsidade do aliado destrói qualquer compromisso sério com a democracia.

O dano ultrapassa o resultado das urnas. A desinformação alimenta hostilidades, compromete reputações e enfraquece a confiança nas instituições e nas pessoas. A campanha termina; suas consequências permanecem.

Reconstruir essa confiança poderá levar décadas. O primeiro passo exige uma decisão que deveria ser elementar: recusar a mentira também quando ela beneficia quem desejamos ver eleito.

#Opinião #ÉticaNaPolítica #Desinformação #FakeNews #Eleições2026 #Democracia #DMANotícias

Sobre o autor

Compartilhar em: