A bomba fiscal por trás das promessas eleitorais

Projeção do próprio governo aponta insuficiência de recursos para manter políticas públicas a partir de 2028, enquanto novos benefícios são anunciados na reta final da campanha.

O alerta está nos documentos do próprio governo Lula: a partir de 2028, faltará espaço no Orçamento para manter as políticas públicas atuais dentro dos limites do arcabouço fiscal, caso não sejam feitos ajustes. A insuficiência projetada para aquele ano é de R$ 15,8 bilhões. O cálculo trata da continuidade de políticas e investimentos existentes, sem incorporar novas iniciativas.

É uma advertência grave, especialmente quando confrontada com a sequência de benefícios anunciados na reta final do segundo turno. Perdão de dívidas de microempreendedores, Pix MEI de até R$ 5 mil, reajuste do Bolsa Família e proposta de transporte gratuito ampliam os compromissos que precisarão encontrar financiamento. A projeção orçamentária, apresentada em setembro, antecede essa nova rodada de anúncios.

A contradição é evidente. O governo reconhece a necessidade de rever despesas para sustentar o que já existe, enquanto o presidente e candidato à reeleição apresenta novas entregas ao eleitor. O discurso transmite abundância; os documentos exigem escolhas difíceis.

O Ministério do Planejamento informou que pretende remanejar aproximadamente R$ 20 bilhões no Orçamento de 2027 para acomodar medidas recentes, preservando o limite de gastos e a meta fiscal. Parte dependerá de revisões nas estimativas de despesas obrigatórias; outra parte sairá de outras áreas. Quais serão sacrificadas ainda não foi detalhado.

Remanejar recursos significa retirar de algum lugar para colocar em outro. A palavra pode soar confortável em uma entrevista, mas suas consequências aparecem nos serviços, nas obras e nos investimentos que deixam de receber dinheiro. O eleitor precisa conhecer essas escolhas antes de votar.

O problema ganha dimensão eleitoral porque os benefícios chegam acompanhados de ampla divulgação, enquanto o custo e as compensações permanecem menos claros. A promessa tem destinatário, valor e publicidade. A conta fica para uma discussão posterior.

Apoiar famílias e pequenos empreendedores exige programas que possam ser mantidos. Anunciar benefícios sem demonstrar de maneira convincente como serão financiados transforma uma necessidade legítima da população em instrumento de campanha.

É nesse descompasso que se forma a bomba fiscal: compromissos crescentes diante de um Orçamento que já exige ajustes para preservar as políticas existentes. Quem prometeu consertar o Brasil deve explicar como pretende sustentar suas novas promessas. O cidadão merece conhecer a conta inteira, inclusive a parte que será cobrada depois da eleição.

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