Fibrafort — de Itajaí ao mar, a indústria catarinense que colocou milhares de barcos na água

Em 1990, em Itajaí, no Litoral Norte de Santa Catarina, um jovem empreendedor de apenas 20 anos decidiu transformar conhecimento técnico e trabalho manual em indústria. Márcio Braz Ferreira, após uma breve experiência na área eletromecânica, criou a Fibrafort, inicialmente voltada à fabricação de produtos em fibra de vidro, como toboáguas e pedalinhos. A empresa nasceu pequena, com produção sob medida e desafios típicos de quem começa com pouca estrutura, mas com disposição para aprender, testar e crescer.
A virada veio quando a empresa percebeu que projetos especiais tinham pouca escala e baixa previsibilidade. Era preciso criar produtos de linha, com identidade, repetição produtiva e mercado mais amplo. Foi nesse contexto que surgiu o primeiro barco. A fábrica era tão compacta que, ao fim do expediente, era preciso retirar tudo do galpão; o casco ficava exposto na rua, chamando a atenção de quem passava. Ali começava uma trajetória que ajudaria a transformar Itajaí em uma das referências nacionais da indústria náutica.
O primeiro grande passo veio em 1996, com o lançamento do primeiro barco de lazer da empresa, o Lagoon 17. Em 1997, foi apresentada a Twister 150; e, em 1998, no primeiro São Paulo Boat Show, a Fibrafort lançou a Fibrafort 180. A partir dali, a empresa passou a evoluir ano após ano, ampliando portfólio, aperfeiçoando design, acabamento, segurança, conforto e desempenho.
A marca Focker se tornaria o grande símbolo comercial da companhia. Com modelos voltados ao lazer, à família e à navegação costeira, a Fibrafort construiu uma linha de embarcações que vai de aproximadamente 18 a 42 pés, reunindo opções das categorias Sport, Cruiser e Yachts. A estratégia foi aproximar o barco de um público mais amplo, reduzindo a percepção de que a náutica era um universo restrito e mostrando que embarcação também pode ser produto de planejamento, uso familiar, lazer e qualidade de vida.
O crescimento da Fibrafort também acompanhou o fortalecimento da chamada economia do mar em Santa Catarina. Itajaí, já reconhecida pela força portuária, pesqueira, logística e industrial, passou a ter na náutica de lazer mais uma frente de desenvolvimento. A empresa informa ser o maior estaleiro da América do Sul em unidades produzidas, com mais de 19 mil barcos na água e presença em dezenas de países.
A internacionalização começou cedo. Em 2003, a Fibrafort iniciou exportações, com o primeiro embarque destinado à Itália, levando duas embarcações Style 222. Anos depois, a empresa reforçaria sua presença externa com a marca Granfort, desenvolvida para o mercado internacional, adaptando modelos, motorização, layout e soluções de bordo às exigências de consumidores de outros países.
Esse movimento ganhou força nos últimos anos. Em 2026, a Fibrafort passou a informar presença em 57 países, com expansão para mercados como o Chipre, no Mediterrâneo, por meio da Granfort 300 GTX, modelo desenvolvido para o exterior. A empresa também anunciou ampliação industrial em Itajaí, com meta de chegar a mil barcos produzidos por ano nos próximos anos.
A evolução produtiva é parte essencial dessa história. A Fibrafort ampliou sua fábrica em Itajaí, dobrando a área para cerca de 20 mil metros quadrados. O investimento incluiu novas cabines de pintura e lixação, pontes rolantes de 10 e 20 toneladas e área de testes com piscinas internas e acesso direto ao rio, permitindo checagens de sistemas elétricos, motorização e desempenho antes da entrega. É indústria náutica com processo, controle e busca por previsibilidade.
A empresa também buscou apoio técnico para melhorar processos. A Fibrafort mantém parceria há mais de dez anos com a Porsche Consulting, voltada ao aperfeiçoamento industrial, eficiência de entrega, cultura de performance e qualidade produtiva. A própria companhia apresenta essa parceria como parte de um esforço contínuo para consolidar práticas de alta performance e longevidade organizacional.
Outro ponto importante é a segurança. A Fibrafort informa ser pioneira na implementação da certificação ABNT/ACOBAR no Brasil, com foco em requisitos mínimos de segurança para construção de embarcações. Em um setor no qual confiança é decisiva, esse tipo de compromisso ajuda a profissionalizar o mercado e reforçar a responsabilidade de quem coloca famílias, amigos e clientes sobre a água.
Os números recentes mostram a dimensão da companhia. Reportagem da Exame registrou que a Fibrafort fabricou 617 barcos em 2025, acumulava mais de 19 mil embarcações entregues, exportava para 56 países naquele momento, contava com 430 colaboradores e operava com rede de revendas em todos os estados brasileiros. A mesma publicação apontou receita prevista de R$ 220 milhões em 2025 e meta de crescimento anual mínimo de 10%.
Mas, como em todas as grandes histórias desta série, os números contam apenas parte da trajetória. A Fibrafort é feita de pessoas: laminadores, marceneiros, pintores, eletricistas, mecânicos, projetistas, engenheiros, designers, equipes comerciais, técnicos de qualidade, logística, pós-venda e atendimento. Cada lancha entregue carrega horas de trabalho manual, tecnologia, acabamento, testes e responsabilidade. Em uma embarcação, o detalhe não é luxo: é segurança, conforto e confiança.
Há também uma dimensão simbólica para Santa Catarina. A Fibrafort nasceu em Itajaí, cresceu em uma cidade ligada ao mar e ajudou a mostrar que a indústria náutica catarinense pode competir no Brasil e no exterior. Ao lado de outros estaleiros do estado, integra uma cadeia que movimenta fornecedores, serviços, marinas, eventos, turismo, manutenção, empregos qualificados e exportações. É a economia do mar deixando de ser conceito e virando produção concreta.
Linha do tempo — marcos essenciais
• 1990 — Fundação da Fibrafort, em Itajaí, por Márcio Braz Ferreira, inicialmente com produtos em fibra de vidro, como toboáguas e pedalinhos.
• 1996 — Lançamento do primeiro barco de lazer da empresa, o Lagoon 17.
• 1997 — Lançamento da Twister 150, ampliando a presença da empresa no mercado náutico.
• 1998 — Apresentação da Fibrafort 180 no primeiro São Paulo Boat Show.
• 2003 — Início das exportações, com o primeiro embarque para a Itália.
• 2007 — Reconhecimento internacional com a Fisherman 238 como finalista em premiação na Austrália.
• 2014/2015 — Consolidação como maior estaleiro da América do Sul em volume de produção, segundo apresentação institucional da marca Granfort.
• 2019 — Lançamento da 388 Gran Turismo, apresentada como inovação no mercado brasileiro ao unir conceito open bow com cabine e passagem interna.
• 2022 — Abertura de nova planta produtiva, com mais de 11 mil metros quadrados de instalações especializadas.
• 2023 — Lançamento da Granfort 300 GTX, produto de destaque da linha internacional.
• 2024 — Lançamento da marca Granfort, linha exclusiva da Fibrafort para o mercado internacional.
• 2025 — Empresa completa 35 anos, com mais de 19 mil barcos entregues e presença em dezenas de países.
• 2026 — Ampliação da presença internacional para 57 países e avanço da expansão industrial em Itajaí.
Mais do que uma cronologia empresarial, a história da Fibrafort é um retrato do que Santa Catarina constrói quando une mar, indústria, técnica e persistência. De uma pequena operação em fibra de vidro nasceu uma empresa que colocou milhares de embarcações na água, fortaleceu Itajaí como polo náutico e levou barcos produzidos em Santa Catarina para o Brasil e para o mundo.
Fica aqui o reconhecimento a Márcio Braz Ferreira, aos colaboradores, fornecedores, concessionários, clientes e profissionais que ajudaram a transformar a Fibrafort em referência da náutica brasileira. Porque algumas empresas fabricam produtos; outras ajudam a realizar sonhos. A Fibrafort pertence a esse segundo grupo: uma catarinense que transformou fibra, desenho, trabalho e paixão pelo mar em navegação, lazer, emprego e orgulho para Santa Catarina.
