Perspectiva Política: as tensões e os desafios depois das urnas
A saída de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, as responsabilidades do quarto mandato de Lula e as articulações pelo comando do Congresso marcam o cenário pós-eleitoral.
Onde erramos?

O Brasil enfrenta problemas econômicos, sociais e institucionais amplamente conhecidos. Entretanto, o que mais preocupa neste momento é o estágio alcançado pelo nosso processo democrático. As eleições deixaram de representar uma celebração cívica e se transformaram em uma guerra aberta pelo poder.
As propostas foram poucas. Prevaleceram narrativas, acusações, medo e tentativas permanentes de desconstrução dos adversários. A mentira foi normalizada. Quando pessoas influentes das mais variadas profissões se dispõem a enganar descaradamente a população, fazem a confissão tácita de que, na luta pelo poder, qualquer arma pode ser utilizada.
Menos de 48 horas depois da eleição, o candidato derrotado deixou o Brasil com destino aos Estados Unidos. Flávio Bolsonaro não entregou seus passaportes no prazo determinado pela Justiça, e a Polícia Federal cancelou os documentos. As autoridades ainda apuram quando e por qual caminho ele saiu do país, além das consequências jurídicas do episódio.
Independentemente do desfecho dessas apurações, não é normal que uma eleição termine cercada por mentiras, ameaças, suspeitas, medidas judiciais e a saída do país do candidato derrotado. Onde erramos? E, principalmente: onde foi parar a nossa democracia?
O governo anterior agora é o próprio Lula

Durante praticamente todo o terceiro mandato, o presidente Lula responsabilizou seu antecessor, Jair Bolsonaro, por grande parte dos problemas encontrados. Repetiu diversas vezes que havia recebido um país “quebrado”. A afirmação, utilizada politicamente, não encontra respaldo nos números oficiais de encerramento de 2022.
O setor público consolidado fechou aquele ano com superávit primário equivalente a 1,28% do PIB. Evidentemente, o Brasil possuía problemas e desafios importantes, mas dizer que o país estava “quebrado” foi uma narrativa política, e não uma descrição fiel da situação demonstrada pelos dados fiscais.
No início do próximo mandato, porém, existirá uma diferença incontornável: o governo anterior será o do próprio Lula. O presidente herdará de si mesmo a dívida pública, o déficit fiscal, os juros elevados, a inflação pressionada e uma economia com baixo crescimento.
Não haverá mais como responsabilizar Bolsonaro pela situação recebida. Se o Brasil não melhorar durante o quarto mandato, qual será a justificativa desta vez?
O Centrão continua decisivo

A reeleição do presidente Lula fortaleceu as possibilidades de Davi Alcolumbre e Hugo Motta permanecerem no comando do Senado Federal e da Câmara dos Deputados. Ambos apoiaram Lula durante a campanha e contam com o interesse direto do governo na manutenção das atuais presidências das duas Casas.
Mesmo com o expressivo crescimento do PL, o Centrão continua sendo o fiel da balança no Congresso. Alcolumbre afirma a interlocutores que possui pelo menos 48 votos, sete acima dos 41 necessários para vencer a eleição do Senado. A Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, já anunciou oficialmente apoio à sua recondução.
O PL havia anunciado que disputaria a Presidência do Senado com Rogério Marinho. Entretanto, após a derrota de Flávio Bolsonaro, uma ala do partido já admite negociar com Alcolumbre. A bancada será a maior da Casa, mas não possui sozinha os votos necessários para eleger o presidente.
Na Câmara, Hugo Motta aparece em situação mais confortável. Já conta com o apoio dos principais partidos do Centrão e de legendas da esquerda, enquanto o PT encaminha sua adesão. A nova composição do Congresso será mais conservadora, mas as eleições internas demonstrarão novamente que tamanho de bancada é importante — e capacidade de articulação continua sendo decisiva.
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