Perspectiva Política: os custos da irresponsabilidade
O desequilíbrio das contas públicas, a degradação provocada pelas notícias falsas e os erros de informação cometidos por veículos de grande alcance marcam esta edição.
A conta não fecha
Fiscalmente, o Brasil está à deriva. Projeções encaminhadas pelo próprio governo federal ao Congresso indicam a necessidade de revisar aproximadamente R$ 53,7 bilhões em despesas entre 2028 e 2030 para manter as atuais políticas públicas dentro dos limites fiscais. O problema começa em 2028, com a necessidade de um ajuste bilionário.
A situação pode aparecer ainda antes. Esses cálculos não incorporam integralmente as medidas aprovadas ou prometidas pelo presidente e candidato à reeleição Lula, como o reajuste do Bolsa Família, benefícios aos microempreendedores e outras ações anunciadas nesta reta final. Para acomodar parte desse pacote, o Orçamento de 2027 poderá exigir ajustes de até R$ 39,9 bilhões.
As alternativas são conhecidas e nenhuma é simples: aumentar o endividamento, elevar impostos, cortar ou rever despesas, reduzir políticas públicas ou descumprir promessas. O remanejamento também encontra limites, porque os gastos obrigatórios consomem a maior parte do Orçamento e deixam pouco espaço para novas escolhas.
Prometer é fácil; financiar as promessas é outra história. Independentemente de quem vencer a eleição, a realidade fiscal chegará em 2027. E, no fim, a conta sempre será apresentada ao cidadão que paga impostos.
O fundo do poço moral
É profundamente lamentável o estágio alcançado pela política brasileira. Assistir a artistas consagrados, influenciadores e políticos, com ou sem mandato, utilizando sua visibilidade para publicar notícias falsas representa a degradação do debate público. Divergências fazem parte da democracia; tentar enganar deliberadamente o eleitor não.
Nas redes sociais também circulam supostos trackings, quase sempre sem origem, metodologia ou qualquer possibilidade de verificação. Levantamentos internos podem existir, mas a divulgação pública de percentuais eleitorais exige registro prévio na Justiça Eleitoral e o cumprimento das regras legais. Publicar números sem procedência como se fossem pesquisas confiáveis também é uma forma de desinformação.
O que leva pessoas reconhecidas a agir dessa maneira? Paixão política cega, obsessão pelo poder ou algum interesse individual? Qualquer que seja a resposta, não existe justificativa. Quando a mentira passa a ser tratada como instrumento legítimo de campanha, o país alcança o fundo do poço moral.
O resultado ultrapassa uma eleição. Cada informação falsa destrói parte da confiança da população nas instituições, na política e na própria democracia. Reconstruir essa confiança poderá levar décadas.
Quando a correção chega depois

Com a velocidade do mundo digital, a responsabilidade dos veículos de comunicação aumentou de maneira exponencial. Uma informação incorreta publicada por uma empresa de grande alcance espalha-se em poucos minutos, ganha milhares de compartilhamentos e passa a ser tratada como verdade.
Durante o período eleitoral, veículos do Grupo Globo corrigiram duas informações envolvendo Flávio Bolsonaro. A GloboNews reconheceu o erro ao associar o candidato a uma antiga proposta relacionada ao título de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. Mais recentemente, o G1 corrigiu uma publicação sobre a proposta da campanha para a regra de transição do Bolsa Família. Nos dois casos, as informações iniciais prejudicavam o mesmo candidato.
As correções e os pedidos de desculpas merecem reconhecimento, pois admitir um erro também faz parte do jornalismo responsável. O problema é que o estrago já estava feito. As versões incorretas viralizaram e continuam sendo compartilhadas mesmo depois dos esclarecimentos.
Não existem elementos para afirmar que tenha ocorrido algo além de erros jornalísticos. Entretanto, coincidência ou não, foram duas falhas envolvendo o mesmo candidato. Em uma eleição tão equilibrada, informações falsas divulgadas por veículos de grande representatividade podem influenciar eleitores e até contribuir para definir o resultado. A correção é necessária, mas raramente alcança a mesma repercussão do erro.
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