Witmarsum: herança menonita, agricultura e natureza no coração do Alto Vale
Colonizada inicialmente por alemães e depois por menonitas vindos da Ucrânia, a pequena cidade preserva uma história singular em Santa Catarina, cercada por rios, cachoeiras, propriedades rurais e tradições trazidas pelos imigrantes.

Witmarsum é uma pequena cidade do Alto Vale do Itajaí que guarda uma das histórias de colonização mais particulares de Santa Catarina. Com pouco mais de quatro mil habitantes, o município reúne raízes alemãs, russas, ucranianas, menonitas e italianas em uma região marcada pela agricultura, pela vida comunitária e por uma paisagem de vales, rios e áreas rurais. É daqueles lugares em que conhecer a história ajuda a compreender praticamente tudo: o nome, a arquitetura, os costumes, a religião e até a relação de seus moradores com o trabalho.
A ocupação que daria origem ao município ganhou força em 1924, quando os alemães Paul Zerna, August Langhorst e Helmuth Teosowki se estabeleceram na região. Eles haviam combatido em áreas do continente africano durante a Primeira Guerra Mundial e buscavam uma nova vida longe das dificuldades enfrentadas pela Alemanha no pós-guerra. Por essa razão, o primeiro nome dado ao lugar foi Nova África, uma lembrança bastante incomum preservada na história catarinense.
Uma nova etapa começou em 1930, com a chegada de imigrantes russos, em sua maioria menonitas provenientes da Ucrânia. Foram eles que deram ao lugar o nome Witmarsum, em homenagem à cidade holandesa onde nasceu Menno Simons, uma das figuras centrais do movimento menonita. Existe uma interpretação popular segundo a qual Witmarsum significaria “Estrela Azul”, embora pesquisas mencionadas pelo próprio município indiquem outra origem: Witmar teria sido o nome de um príncipe e sum significaria jardim, resultando em “Jardim de Witmar”. Mais tarde, famílias italianas também passaram a integrar a formação da comunidade.
Os menonitas representam um capítulo especialmente interessante dessa trajetória. Formado a partir da Reforma Protestante europeia, o movimento historicamente valorizou princípios como vida comunitária, simplicidade, trabalho, fé e pacifismo. A presença dessas famílias vindas do Leste Europeu criou em Witmarsum uma herança cultural pouco encontrada em outras partes de Santa Catarina e que permanece registrada no patrimônio e na memória das famílias.
Administrativamente, Witmarsum pertenceu inicialmente à região de Ibirama e, depois da emancipação de Presidente Getúlio, passou a integrar aquele município. Tornou-se distrito em 1957 e conquistou autonomia política pela Lei nº 826, de 17 de maio de 1962. A instalação oficial ocorreu em 15 de junho de 1962, data utilizada para celebrar o aniversário municipal.
Hoje, Witmarsum continua sendo uma cidade pequena. O Censo de 2022 registrou 4.255 habitantes, distribuídos em um território de aproximadamente 154 quilômetros quadrados. Um dado social chama a atenção: o IBGE registra escolarização de 100% entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos em 2022. A população estimada para 2025 chegou a 4.513 moradores.
A economia mantém profunda ligação com o campo. Agricultura e pecuária leiteira estão entre as atividades tradicionais, acompanhadas por pequenas indústrias e negócios relacionados à madeira, olarias e facções. É uma estrutura econômica característica de muitos municípios do Alto Vale, onde propriedades familiares convivem com pequenas empresas e atividades industriais que ajudam a manter empregos e renda dentro da própria comunidade.
A produção rural também começa a encontrar espaço no turismo. Propriedades oferecem experiências de agroturismo, produtos coloniais e alimentação caseira. No Sítio Warmeling, por exemplo, pomares de pêssego, uva e caqui recebem visitantes pelo sistema “colha e pague”. Em outros estabelecimentos, hospedagem rural e refeições preparadas com ingredientes produzidos na própria propriedade aproximam o visitante do cotidiano das famílias do interior.
Essa relação com a natureza é um dos grandes patrimônios de Witmarsum. O município integra a região turística Caminhos do Alto Vale, marcada por vales, rios, corredeiras, áreas de Mata Atlântica e cenários favoráveis ao ecoturismo. A própria geografia regional oferece condições para atividades como caminhadas, canoagem, rafting, rapel e boia-cross, além do turismo rural e de contemplação.
Entre os atrativos naturais, o Salto Russo ocupa posição especial. Além da beleza da queda d’água e da vegetação ao redor, o próprio nome remete à presença dos imigrantes que ajudaram a formar a cidade. Natureza e história acabam se encontrando em um mesmo lugar, algo que caracteriza boa parte do potencial turístico de Witmarsum.
A preservação da memória aparece ainda em diversos pontos do município. O Centro Cultural Paul Zerna, instalado em um casarão construído no início da década de 1930, já abrigou a Escola Alemã e posteriormente a Cooperativa Menonita. O imóvel passou para a família Zerna em 1952, foi doado ao município em 2002 e posteriormente transformado em espaço cultural.
Outros patrimônios ajudam a contar essa trajetória, como a Igreja Evangélica de Waldheim, o Cemitério do Imigrante, a antiga ferraria artesanal, residências tradicionais e estruturas ligadas à produção rural. O município também preserva o Memorial do Imigrante Menonita no Brasil e o Museu do Imigrante Menonita, com peças e documentos relacionados às primeiras famílias que chegaram à região.
Até um antigo engenho de melado e cana-de-açúcar, localizado na comunidade de Tucaninho, integra esse patrimônio. São construções e equipamentos aparentemente simples, mas que revelam como viviam e trabalhavam as famílias que transformaram mata e terrenos pouco ocupados em propriedades produtivas e comunidades organizadas.
Socialmente, Witmarsum conserva características próprias das pequenas cidades catarinenses. As relações comunitárias são próximas, igrejas e associações continuam tendo papel importante e o interior mantém ligação direta com a sede. Ao mesmo tempo, aparecem desafios conhecidos dos municípios de menor população: oferecer oportunidades profissionais aos jovens, diversificar a economia e manter serviços públicos de qualidade sem perder as características que fazem da cidade um lugar tranquilo para viver.
As festas comunitárias e as comemorações municipais ajudam a preservar esse sentimento de pertencimento. Em 2025, por exemplo, a celebração dos 63 anos de emancipação reuniu esporte, história, meio ambiente e convivência comunitária no projeto Viver Witmarsum. Um enorme bolo de dez metros preparado por voluntárias fez parte da programação, recuperando uma tradição das antigas comemorações da cidade.
Na culinária, as influências dos diferentes grupos colonizadores encontram-se à mesa. Produtos coloniais, pães, cucas, bolos, carnes, embutidos, geleias e refeições preparadas com ingredientes das propriedades rurais representam bem a gastronomia local. A tradição alemã convive com contribuições italianas e com receitas preservadas pelas famílias do interior, enquanto cafés coloniais e almoços caseiros começam também a funcionar como produtos turísticos.
Talvez o maior diferencial de Witmarsum esteja justamente naquilo que não pode ser construído artificialmente: sua história. Poucos municípios catarinenses podem contar que começaram com ex-combatentes alemães da Primeira Guerra Mundial, receberam o nome de Nova África, acolheram menonitas vindos da Ucrânia e depois incorporaram outras culturas sem apagar as anteriores.
Witmarsum é, no fim das contas, uma pequena cidade com uma história muito maior do que seus limites geográficos poderiam sugerir. Entre o Salto Russo, o patrimônio menonita, os antigos casarões, as propriedades agrícolas e os vales verdes do Alto Vale, o município preserva um pedaço singular da formação de Santa Catarina. Uma cidade em que conhecer o passado não significa apenas visitar um museu: significa compreender as famílias, as paisagens e o modo de vida que ainda ajudam a escrever seu presente.
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