Içara: capital do mel, força industrial e uma cidade que cresceu ao lado dos trilhos
No Sul catarinense, Içara reúne memória ferroviária, tradição agrícola, produção de mel, indústria diversificada e turismo religioso em uma cidade que se consolidou como uma das economias mais dinâmicas da região.

Içara é uma cidade que cresceu rápido sem perder completamente a ligação com o campo. Localizada no Sul de Santa Catarina, vizinha de Criciúma e cortada pela BR-101, o município construiu sua identidade a partir da ferrovia, da mineração, da agricultura e, mais tarde, de uma indústria cada vez mais diversificada. Hoje conhecida como Capital do Mel, Içara combina produção, comércio, tradição comunitária e religiosidade em um território que se tornou um dos mais dinâmicos economicamente da região carbonífera.
A formação da cidade está diretamente ligada à Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina. Em 18 de janeiro de 1919, foi inaugurada uma estação no quilômetro 47 da ferrovia, próxima a Criciúma. Ao redor dela surgiu uma pequena vila de trabalhadores, inicialmente chamada simplesmente de Km 47. A presença abundante da palmeira juçara, também conhecida como içara ou içaroba, acabou dando novo nome à localidade. O crescimento provocado pela atividade carbonífera e pela circulação ferroviária fez o povoado ganhar importância até a criação oficial do município, em 20 de dezembro de 1961.
A memória dos trilhos continua presente. O Museu do Agente Ferroviário Anselmo Cargnin, instalado em uma casa centenária próxima à linha férrea, preserva fotografias, registros da estrada de ferro, antigas locomotivas e histórias das famílias ligadas ao desenvolvimento ferroviário. O espaço ajuda a compreender como a urbanização de Içara nasceu ao redor dos trens e do escoamento do carvão, antes que outras atividades econômicas assumissem protagonismo.
Se o carvão teve importância decisiva no início, a economia de Içara se tornou muito mais diversificada. Atualmente, o município reúne empresas dos setores metalmecânico, cerâmico, plástico, têxtil, alimentício, supermercadista, carbonífero e agropecuário, além de atividades ligadas a implementos rodoviários e outros segmentos industriais. Essa diversidade ajudou Içara a se consolidar como a segunda maior economia do Sul catarinense, apesar de não ser a segunda maior cidade em população da região. Entre 2022 e 2023, o valor adicionado municipal avançou mais de 36%, evidenciando a intensidade desse crescimento.
A localização também pesa a favor. Cortada pela BR-101 e integrada diretamente ao eixo econômico de Criciúma e do litoral sul, Içara tem facilidade para movimentar produtos, receber investimentos e ampliar áreas industriais e comerciais. Em julho de 2026, dados municipais baseados nos números mais recentes do IBGE indicaram avanço expressivo do PIB per capita e uma subida de 29 posições no ranking catarinense em relação a 2020.
Ao mesmo tempo, a agricultura continua sendo parte essencial da identidade local. Comunidades do interior mantêm produção rural diversificada e festas diretamente associadas ao trabalho no campo. Um exemplo emblemático é a Festa da Melancia, realizada na comunidade de Campo Mãe Luzia. Em 2026, o evento chegou à 60ª edição com exposições agrícolas, olimpíadas rurais, missa, música e a tradicional pesagem da maior melancia da safra. A festa mostra como a agricultura ainda organiza parte importante da vida comunitária e cultural do município.
Mas é o mel que oferece a Içara uma de suas marcas mais reconhecíveis. O município é conhecido como Capital do Mel, título associado à tradição apícola e à importância da atividade para a identidade local. Mais do que um produto, o mel se tornou símbolo utilizado na promoção da cidade e ajuda a reforçar a relação entre agricultura, pequenas propriedades e produção artesanal.
Socialmente, Içara vive a transformação típica de municípios que crescem rapidamente ao redor de polos industriais. Novos bairros, empreendimentos, empresas e fluxos de trabalhadores convivem com comunidades antigas e áreas rurais. Essa expansão traz oportunidades de emprego e renda, mas também aumenta a demanda por mobilidade, habitação, saúde, educação e planejamento urbano. O crescimento econômico é um ativo importante, mas também coloca o desafio de transformar riqueza produtiva em qualidade de vida de forma equilibrada.
Outro diferencial está no turismo religioso. O Santuário do Sagrado Coração de Jesus, localizado na comunidade de Segunda Linha, consolidou-se como referência regional de fé e recebe visitantes em celebrações, peregrinações e encontros religiosos. A presença do santuário ampliou a diversidade turística do município, que passou a reunir, em uma mesma identidade, indústria, agricultura, patrimônio ferroviário e espiritualidade.
A cultura de Içara também revela a diversidade de povos que ajudaram a formar a cidade. O Festival das Etnias reúne as principais matrizes colonizadoras do município em uma programação de música, apresentações artísticas e gastronomia. Em 2026, a quinta edição foi realizada na Praça da Igreja Matriz, com cinco dias de atividades e comidas típicas, reforçando a proposta de preservar as origens e transformar a memória das comunidades em experiência cultural.
Essa diversidade aparece também na mesa. Receitas açorianas, italianas e de outras comunidades colonizadoras convivem com a culinária do interior sul-catarinense. Massas, carnes, polenta, pães, doces, produtos coloniais e preparos ligados à agricultura familiar aparecem nas festas e encontros comunitários. Mel e melancia acrescentam à gastronomia dois ingredientes diretamente relacionados aos símbolos produtivos da cidade.
Nos últimos anos, Içara também passou a reunir indústria, comércio e campo em novos eventos. A Incoagro – Feira e Festa de Içara foi criada justamente para representar esses três pilares econômicos, chegando a escolher três rainhas distintas — uma da indústria, uma do comércio e outra do agronegócio. A ideia resume bem o perfil atual do município: em vez de depender de uma única atividade, Içara construiu seu crescimento pela convivência de diferentes setores.
As belezas de Içara são menos conhecidas do que as praias e serras de municípios turísticos vizinhos, mas aparecem no ambiente rural, nas áreas verdes, nas paisagens agrícolas e nos espaços comunitários espalhados pelo território. A proximidade com o litoral e com destinos como Balneário Rincão amplia as opções de lazer e coloca a cidade em posição privilegiada entre o interior produtivo e a faixa costeira do Sul catarinense.
Içara é, no fim das contas, uma cidade que nasceu nos trilhos e aprendeu a diversificar seus caminhos. O carvão impulsionou os primeiros anos, a agricultura manteve fortes as raízes, o mel virou símbolo, e a indústria colocou o município entre as economias mais relevantes da região. Entre a estação ferroviária, as lavouras, as fábricas, o santuário e as festas comunitárias, Içara mostra uma face muito característica de Santa Catarina: a de cidades que crescem rapidamente, mas continuam encontrando na história e no trabalho de suas comunidades os elementos para construir identidade.
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