Frei Rogério: cerejeiras, cultura japonesa e a Casa dos Sonhos no coração do Contestado
Pequeno em população, o município do Meio-Oeste catarinense reúne memória do Contestado, agricultura familiar, a primeira colônia japonesa oficial de Santa Catarina, cachoeiras e uma das paisagens culturais mais singulares do estado.

Frei Rogério é uma daquelas cidades pequenas que surpreendem pela quantidade de histórias concentradas em um território de pouco mais de 158 quilômetros quadrados. Localizado na região do Contestado, próximo a Curitibanos, Fraiburgo e Campos Novos, o município tinha apenas 2.411 habitantes no Censo de 2022, mas guarda uma combinação cultural rara em Santa Catarina: tradições caboclas e italianas convivendo com a presença de uma comunidade japonesa que transformou cerejeiras, gastronomia e arquitetura em símbolos locais.
A história do lugar está diretamente ligada à Guerra do Contestado e ao religioso que deu nome à cidade. Frei Rogério Neuhaus, franciscano alemão que chegou à região no início do século XX, ficou conhecido como “Apóstolo de Curitibanos” pelo trabalho junto às populações pobres e por atuar como intermediário entre sertanejos e autoridades durante os conflitos. A região era ocupada por caboclos e descendentes de combatentes do Contestado antes da chegada mais intensa de colonizadores e madeireiros. A formação da colônia Frei Rogério ocorreu em 1949, enquanto famílias de origem italiana começaram a chegar a partir de 1951, vindas principalmente do Sul catarinense.
A madeira foi uma das primeiras forças econômicas. A abundância de araucárias atraiu serrarias e trabalhadores, mas a agricultura logo passou a ocupar espaço central na vida das famílias. Milho, feijão, trigo e criação de gado fizeram parte das primeiras atividades e permanecem, de forma renovada, na economia atual. Hoje, a base produtiva continua ligada à agropecuária, com destaque para feijão, milho e alho, além de bovinocultura de corte e de leite. A fruticultura também ganhou importância, especialmente depois da chegada dos japoneses.
Foi justamente a imigração japonesa que deu a Frei Rogério um de seus maiores diferenciais. Em 1963, o governo de Santa Catarina oficializou a criação do Núcleo Celso Ramos, primeira colônia oficial de imigrantes japoneses do estado. No ano seguinte chegaram as primeiras oito famílias, somando mais de 50 pessoas. A comunidade se estabeleceu na agricultura e, com o tempo, encontrou na fruticultura novas oportunidades, incluindo o cultivo da pêra Nashi, variedade associada à presença japonesa na região.
Essa herança está viva no Parque Sakura, talvez o cartão-postal mais conhecido do município. O espaço reúne milhares de árvores, entre elas cerejeiras trazidas para criar uma paisagem inspirada no Japão. No final do inverno, normalmente entre agosto e setembro, a florada transforma o parque em um espetáculo de tons brancos e rosados e dá origem à Sakura Matsuri, a tradicional Festa da Florada da Cerejeira. O evento reúne dança, taiko, origami, caligrafia, gastronomia japonesa e outras manifestações culturais. Em 2024, a festa marcou também os 60 anos da colonização japonesa no município e ganhou um corredor com 60 torii, um para cada ano dessa trajetória.

É dentro desse universo que aparece um dos atrativos mais curiosos de Frei Rogério: a Casa dos Sonhos. Oficialmente chamada de Yumedono, a Casa Octogonal foi inaugurada em 26 de julho de 2008 e possui oito lados. Segundo a tradição apresentada pelo município, o formato representa a ideia de que, a cada sonho realizado, outros podem nascer. No topo da construção existe ainda uma porunga, associada simbolicamente à realização do que parece impossível. A própria expressão japonesa Yumedono significa “Casa dos Sonhos”, transformando o edifício em muito mais do que uma curiosidade arquitetônica: é uma representação da perseverança e da história da comunidade japonesa local.
Outro espaço carregado de simbolismo é o Parque Sino da Paz, no Núcleo Celso Ramos. O local preserva a memória das vítimas das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki durante a Segunda Guerra Mundial e homenageia sobreviventes. É um ponto em que a pequena cidade catarinense se conecta a uma das maiores tragédias do século XX, transformando memória em mensagem de paz.
A natureza também reserva bons motivos para visitar Frei Rogério. Entre os atrativos está a Cachoeira Salto Correntes, formada pelas águas do Rio Correntes, com mais de 70 metros de extensão e sucessivas quedas d’água. Trilhas ecológicas, matas nativas, campos e pequenas propriedades ajudam a compor um turismo de interior baseado mais na contemplação e na experiência do que em grandes estruturas artificiais.
Socialmente, Frei Rogério mantém características típicas dos pequenos municípios rurais catarinenses. A população está distribuída entre a sede e comunidades, com forte ligação com a produção agrícola, associações e festas locais. O tamanho reduzido favorece relações comunitárias próximas, mas também impõe desafios conhecidos das cidades pequenas: geração de novas oportunidades, permanência dos jovens, diversificação da economia e manutenção de serviços para uma população espalhada pelo território.
A diversidade cultural aparece com muita força na gastronomia. A cozinha japonesa ocupa lugar de destaque, com pratos tradicionais apresentados especialmente durante a Sakura Matsuri, mas divide espaço com influências italianas e alemãs e com hábitos associados à cultura gaúcha, como o churrasco e o chimarrão. É uma mistura pouco comum, resultado direto das diferentes populações que chegaram ao município e aprenderam a compartilhar o mesmo território.
Frei Rogério é, no fim das contas, uma cidade em que o tamanho não determina a relevância. A memória do Contestado explica seu nome; os descendentes de italianos e caboclos contam parte de sua formação; e a colônia japonesa oferece uma identidade cultural praticamente única dentro de Santa Catarina. Entre cerejeiras floridas, cachoeiras, lavouras e a Casa dos Sonhos, o município mostra como diferentes histórias podem se encontrar em um mesmo lugar e transformar uma pequena cidade do interior em um destino cheio de significado.
