Mais quatro anos: quando o tempo também passa a fazer parte da resposta
Lula pede um novo mandato para acabar com a miséria; depois de quase 17 anos e meio de governos do PT desde 2003, a questão passa a ser se mais tempo será suficiente ou se o próprio modelo precisa ser revisto.

O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva se emocionou recentemente ao falar sobre a situação de milhões de brasileiros que ainda vivem na pobreza e na miséria.
Ao abordar o problema, pediu mais tempo:
“Há muita gente vivendo na miséria ainda. Preciso que o povo me dê mais quatro anos para acabar com isso.”
A declaração merece atenção exatamente pelo que ela própria reconhece.
A miséria ainda existe.
E Lula pede mais quatro anos para conseguir enfrentar definitivamente um problema que sempre esteve entre as principais prioridades de seu projeto político.
É aí que surge a questão central.
Lula governou o Brasil de 2003 a 2010 e novamente desde janeiro de 2023. Dilma Rousseff, também do PT, governou de 2011 até agosto de 2016.
São aproximadamente 17 anos e meio de governos petistas desde 2003.
Portanto, quando Lula pede mais quatro anos para acabar com a miséria, a discussão não pode ser apenas sobre aquilo que pretende fazer no futuro.
O tempo já transcorrido também precisa fazer parte da análise.
Lula possui convicções bastante conhecidas sobre o papel do Estado.
Seu modelo aposta numa presença forte do poder público, programas sociais, transferência de renda, investimentos governamentais e utilização da estrutura estatal como instrumento para enfrentar desigualdades.
É um modelo que vem sendo aplicado, com diferentes intensidades, durante seus governos e os governos de seu partido.
Mas existe um dado impossível de ignorar:
o próprio Lula reconhece que o resultado que pretende alcançar ainda não foi alcançado.
Essa constatação não parte da oposição.
Não parte de economistas.
Não parte da imprensa.
Parte do próprio presidente.
E talvez seja exatamente por isso que sua declaração produza uma pergunta tão importante.
O que falta são mais quatro anos ou é necessário discutir o modelo utilizado durante todos esses anos?
Governar é fazer escolhas.
Um governo escolhe onde arrecadar, onde gastar, como investir, qual o tamanho da estrutura pública, quais políticas priorizar e quais instrumentos utilizar para alcançar seus objetivos.
Quando um mesmo projeto permanece no poder durante um período tão longo, chega um momento em que o tempo deixa de ser apenas uma justificativa para aquilo que ainda precisa ser feito e passa também a integrar a avaliação dos resultados.
Quase 17 anos e meio não são quatro anos.
Não são um único mandato.
Representam uma parcela significativa da história recente brasileira.
Por isso, o pedido feito agora por Lula merece ser observado também sob essa perspectiva.
O presidente acredita que mais quatro anos serão suficientes para alcançar aquilo que ainda não conseguiu.
Pode ser.
Mas existe outra possibilidade que também precisa ser considerada:
talvez o problema não esteja apenas no tempo disponível, mas na capacidade do modelo escolhido de produzir o resultado pretendido.
Essa é a questão.
Não estamos discutindo a intenção.
Estamos discutindo o resultado.
Porque políticas públicas precisam, em algum momento, ser medidas por aquilo que conseguem efetivamente transformar.
Lula pede mais quatro anos para acabar com a miséria.
Depois de quase 17 anos e meio de governos do mesmo partido desde 2003, a pergunta torna-se inevitável:
se o modelo ainda não conseguiu entregar o resultado que seu próprio principal defensor considera necessário, por que mais quatro anos do mesmo modelo seriam suficientes para fazê-lo?
É uma pergunta que o Brasil precisa responder.
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