Lula e Globo: uma relação que mudou de tom

Quatro anos depois de funcionários da emissora comemorarem a vitória de Lula, presidente e Grupo Globo vivem sequência de atritos que culminou no cancelamento do último debate presidencial.

A relação entre Luiz Inácio Lula da Silva e o Grupo Globo parece ter entrado em uma nova fase.

Em 2022, o cenário era bastante diferente.

Depois da vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro no segundo turno, um vídeo gravado dentro da redação do Jornal Nacional mostrou jornalistas e funcionários da Globo comemorando o resultado eleitoral, com abraços, gritos e manifestações de alívio.

A própria Globo confirmou posteriormente a autenticidade das imagens e afirmou que lamentava que “um pequeno grupo” tivesse deixado de observar a prática de autocontenção prevista nos princípios editoriais da empresa.

Quatro anos depois, a relação apresenta sinais bem diferentes.

Durante a campanha de 2026, a cobertura política da Globo passou a registrar críticas mais frequentes ao governo e ao próprio presidente.

Do outro lado, Lula e o PT também passaram a demonstrar maior desconforto com a emissora.

O episódio mais recente tornou essa mudança especialmente visível.

Lula decidiu não participar do último debate presidencial organizado pela TV Globo antes do primeiro turno.

A ausência, porém, não encerrou o assunto.

Representantes do PT haviam participado das negociações sobre as regras do programa e assinado a ata que previa, entre outros pontos, que o púlpito de um candidato ausente permaneceria vazio e identificado.

Depois que Lula decidiu não comparecer, a própria coligação presidencial recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral para derrubar essa regra.

A ministra Estela Aranha atendeu ao pedido e proibiu a Globo de exibir o púlpito vazio e também de permitir perguntas dirigidas ao candidato ausente.

A decisão alterou uma regra que havia sido previamente discutida e assinada pelas campanhas.

A Globo reagiu afirmando que as decisões judiciais recebidas poucas horas antes do programa interferiam nas regras acordadas e criavam insegurança jurídica. O debate acabou cancelado.

No dia seguinte, Lula decidiu falar diretamente sobre o episódio.

Durante atividade de campanha no Rio de Janeiro, sede do Grupo Globo, afirmou que o cancelamento teria sido mais prejudicial à emissora do que à sua candidatura.

E mandou um recado:

“Ela ontem descobriu que não é dona de tudo. Ela descobriu que é importante respeitar as pessoas.”

Lula também afirmou que as pessoas não seriam manipuladas pelos meios de comunicação.

A sequência é reveladora.

Em 2022, funcionários da Globo foram filmados comemorando a eleição de Lula.

Em 2026, o presidente decide não participar do principal debate da emissora.

Seu partido recorre contra uma regra que havia previamente aceitado.

A Justiça altera essa regra.

O debate é cancelado.

E, no dia seguinte, Lula critica publicamente a Globo em seu próprio território.

Individualmente, cada episódio possui sua própria circunstância.

Juntos, mostram uma mudança evidente no ambiente entre o presidente e o maior grupo de comunicação do país.

Talvez ainda seja cedo para chamar isso de ruptura.

Mas distanciamento já existe.

O tom mudou.

A relação mudou.

E a frase de Lula no Rio deixa isso bastante claro:

“A Globo descobriu que não é dona de tudo.”

Agora resta observar se estamos diante de uma tensão produzida pela campanha eleitoral ou de uma mudança mais profunda na relação entre dois personagens que possuem enorme influência na vida pública brasileira.

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