Sombrio: entre a maior lagoa de água doce de SC, furnas e uma economia que se reinventou

No Extremo Sul catarinense, cidade que nasceu na antiga rota dos tropeiros reúne patrimônio natural, agricultura, indústria de confecções, comércio regional e uma história que explica até a curiosa origem de seu nome.

Sombrio tem um nome que desperta curiosidade antes mesmo de a cidade ser conhecida. Mas não há nada de assustador em sua origem. A explicação está nas grandes figueiras que existiam às margens da lagoa e ofereciam sombra aos tropeiros e viajantes que atravessavam a região. Era um lugar sombreado, utilizado para descanso durante as longas jornadas. Com o tempo, aquela referência às sombras acabou identificando primeiro a região e depois o município.

Localizada no Extremo Sul de Santa Catarina, a aproximadamente 30 quilômetros da divisa com o Rio Grande do Sul e cortada pela BR-101, Sombrio ocupa uma posição estratégica entre Florianópolis e Porto Alegre. Também integra a região turística Caminho dos Cânions e funciona como uma das portas de entrada para destinos como Balneário Gaivota e os grandes cânions próximos à Serra Geral. Essa localização ajudou a transformar a cidade em polo comercial e de serviços para municípios vizinhos.

Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, porém, essas terras já eram ocupadas por povos indígenas. Registros históricos locais apontam a presença de grupos associados aos sambaquis e aos guaranis, conhecidos na região como carijós. A passagem de europeus pelo território remonta ao período colonial, mas foi a rota dos tropeiros, especialmente a partir do século XVIII, que começou a integrar de forma mais intensa a região ao movimento econômico entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

A ocupação permanente por colonizadores ganhou força durante o século XIX. A formação populacional teve importante influência luso-açoriana, posteriormente acrescida por famílias de origem italiana, alemã e polonesa. Agricultura, pecuária, fabricação de farinha de mandioca e produção de cachaça estavam entre as atividades das primeiras famílias, enquanto o artesanato aproveitava matérias-primas disponíveis na própria região.

Sombrio pertencia a Araranguá até conquistar sua emancipação em 30 de dezembro de 1953. A instalação político-administrativa ocorreu em 2 de abril de 1954. Décadas depois, o território municipal ainda seria modificado com emancipações como a de Balneário Gaivota, em 1995. A cidade, entretanto, manteve sua condição de referência econômica para parte significativa do Extremo Sul catarinense.

O município registrou 29.991 habitantes no Censo de 2022, enquanto a estimativa do IBGE para 2025 chegou a 31.722 moradores. Outro indicador social chama a atenção: a escolarização das crianças e adolescentes de 6 a 14 anos atingiu 100% em 2022. O PIB per capita municipal chegou a R$ 43.491,69 em 2023.

A economia atual é bastante mais diversificada do que aquela dos primeiros colonizadores. A indústria de confecções ganhou protagonismo, abastecendo mercados de diferentes estados brasileiros e estimulando o aparecimento de pequenas empresas familiares especializadas em etapas da produção. A atividade tornou-se importante geradora de emprego e renda e contribuiu para desenvolver também um expressivo comércio atacadista.

O setor calçadista também possui tradição, acompanhado pelas indústrias cerâmica, moveleira e alimentícia. Telhas e tijolos, móveis, bebidas, sorvetes, laticínios e derivados de mandioca ajudam a formar uma estrutura industrial diversificada. Essa combinação reduz a dependência de apenas uma atividade e explica parte da relevância econômica conquistada pela cidade na região.

A BR-101 teve papel fundamental nessa transformação. Às suas margens surgiram centros atacadistas voltados principalmente às confecções, atraindo lojistas catarinenses e gaúchos interessados em abastecer seus estabelecimentos. Sombrio passou, assim, a desenvolver também o turismo de compras, beneficiando hotéis, restaurantes, postos de combustíveis e outros serviços.

Apesar da urbanização e da indústria, o campo continua tendo grande importância. Arroz, banana e outras culturas fazem parte da produção agrícola, enquanto bovinocultura, avicultura e suinocultura complementam a economia rural. Pequenas propriedades mantêm viva uma ligação com a agricultura que acompanha Sombrio desde sua formação.

É na natureza, entretanto, que aparece um dos maiores patrimônios do município. A Lagoa do Sombrio é apontada pelo próprio município como a maior lagoa de água doce de Santa Catarina, com aproximadamente 51 quilômetros quadrados. Sua extensão alcança também territórios de Santa Rosa do Sul, São João do Sul, Balneário Gaivota e Passo de Torres. Durante gerações, a lagoa esteve ligada à pesca, ao transporte, à subsistência e ao cotidiano das comunidades que se formaram ao seu redor.

Mais recentemente, a valorização desse patrimônio ganhou novos espaços de lazer. O Portinho, inaugurado às margens do Rio da Laje, ampliou a estrutura destinada às atividades náuticas e ao convívio da população, reforçando a intenção de aproximar novamente a cidade de suas águas.

Outro diferencial são as Furnas de Sombrio, um conjunto de cinco cavidades naturais formadas em rochas de arenito ao longo de milhões de anos pela ação erosiva das águas e das infiltrações. A principal delas pode ser observada nas proximidades da BR-101 e chama a atenção pela formação geológica, oferecendo à cidade um patrimônio natural bastante diferente daquele encontrado na maioria dos municípios da região.

O Morro da Moça completa esse conjunto de atrativos naturais, enquanto a posição geográfica coloca Sombrio perto das praias e dos cânions do Extremo Sul. Dessa maneira, a cidade pode funcionar tanto como destino quanto como ponto de apoio para quem pretende conhecer diferentes paisagens da região Caminho dos Cânions.

No espaço urbano, a Igreja Matriz Santo Antônio de Pádua é um dos principais cartões-postais. Sua construção está ligada ao trabalho do padre João Adão Reitz, que chegou à cidade em 1938 e teve participação muito além da atividade religiosa. Ele esteve envolvido também com educação, saúde, emancipação política, abertura de estradas e iniciativas destinadas ao desenvolvimento econômico.

Outro elemento interessante está no centro: o Calçadão Cultural, apontado pelo município como o maior do gênero em Santa Catarina. Seus mosaicos contam episódios da história sombriense e transformam o espaço público em uma espécie de narrativa visual da formação da cidade.

A cultura também preserva atividades artesanais ligadas à própria vegetação regional. Um dos exemplos é a produção de chapéus com palha de butiá, acompanhada por trabalhos em tear manual. São práticas que lembram uma época em que praticamente tudo era produzido pelas próprias famílias e que hoje possuem valor cultural justamente porque mantêm conhecimentos transmitidos entre gerações.

No calendário de festas, a religiosidade ocupa espaço importante com as celebrações de Santo Antônio de Pádua, padroeiro do município, tradicionalmente realizadas em junho. O Arraial Fest também se consolidou historicamente entre os grandes eventos locais, reunindo cultura, gastronomia e entretenimento. Festividades ligadas às diferentes origens dos colonizadores ajudam ainda a preservar a diversidade cultural da população.

A gastronomia acompanha essa mistura. A influência açoriana aparece em receitas associadas à mandioca, ao peixe e aos produtos disponíveis no litoral e nas lagoas. A colonização italiana acrescentou massas, polenta, carnes e pães, enquanto o ambiente rural manteve produtos coloniais, doces caseiros e receitas familiares. É uma cozinha menos conhecida fora da região, mas que ajuda a contar a própria formação multicultural do Extremo Sul catarinense.

Socialmente, Sombrio vive uma condição interessante. Já não possui o perfil de pequena cidade exclusivamente agrícola, mas também não perdeu a proximidade típica do interior. O crescimento industrial, a BR-101, o comércio regional e a expansão urbana trouxeram novas oportunidades e, com elas, desafios relacionados à mobilidade, habitação, infraestrutura e planejamento. A capacidade de conciliar crescimento econômico com qualidade de vida será cada vez mais importante para o futuro do município.

Sombrio é, no fim das contas, uma cidade cujo nome esconde uma história muito mais luminosa do que poderia sugerir. Das sombras das antigas figueiras nasceu um povoado; da agricultura surgiram as primeiras atividades econômicas; das pequenas oficinas cresceram indústrias; e de sua localização estratégica surgiu um importante polo comercial do Extremo Sul.

Entre a imensidão da Lagoa do Sombrio, as misteriosas formações das Furnas, a Igreja Matriz, o Calçadão Cultural e a força de suas confecções, Sombrio mostra uma Santa Catarina que vai muito além dos destinos turísticos tradicionais. Uma cidade construída pela passagem de tropeiros e imigrantes que encontrou, ao longo do tempo, seus próprios caminhos para crescer sem esquecer de onde veio.

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