Perspectiva Política: os desafios que permanecem depois das urnas

O dilema fiscal do quarto mandato de Lula, a fragmentação partidária e a inversão dos boicotes políticos estão nesta edição.

O grande dilema do quarto mandato

Lula inicia seu quarto mandato diante de um conflito entre suas convicções políticas e a realidade fiscal. O presidente sempre defendeu um Estado forte, protetor e protagonista do desenvolvimento econômico. Ocorre que essa estrutura precisa ser financiada, justamente quando as contas públicas apresentam uma trajetória cada vez mais preocupante.

Em setembro, a dívida bruta alcançou 82,9% do PIB, enquanto os juros nominais acumulados em 12 meses chegaram a R$ 1,2 trilhão. A Instituição Fiscal Independente estima que seria necessário um ajuste próximo de três pontos percentuais do PIB para estabilizar o endividamento. Quanto maior a desconfiança sobre a capacidade de pagamento do governo, maior tende a ser o custo da dívida, com reflexos sobre os juros, o câmbio e os investimentos.

O dilema de Lula será ajustar as contas sem desmontar programas sociais que são parte central de seu projeto político. Isso exigirá rever despesas, benefícios tributários, subsídios e prioridades, além de resistir à criação de novos gastos sem financiamento. A equipe econômica já estuda medidas para controlar despesas obrigatórias, reduzir o crédito subsidiado e buscar o centro da meta fiscal.

A crise fiscal e econômica teve peso decisivo no enfraquecimento do governo Dilma Rousseff, embora seu impeachment tenha sido formalmente fundamentado nas pedaladas fiscais e nos decretos orçamentários sem autorização do Congresso. Lula conhece esse precedente. Agora terá de escolher entre preservar integralmente seu modelo ou promover as mudanças necessárias para torná-lo sustentável. Qual caminho seguirá?


A sopa de letras partidária

O Brasil possui atualmente 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral e outros 23 em processo de formação. Estudo comparativo publicado pela revista da Câmara dos Deputados, envolvendo 34 países, colocou o Brasil atrás apenas da Índia em número de partidos com representação parlamentar e na primeira posição quando considerado o número de partidos efetivos.

O pluralismo partidário é necessário à democracia. Entretanto, a quantidade excessiva de siglas fragmenta o Congresso, dificulta a governabilidade e cria uma verdadeira sopa de letras. Muitos partidos atuam no mesmo campo ideológico, apresentam poucas diferenças programáticas e alguns acabam tratados como simples extensões de legendas maiores.

A cláusula de desempenho vem reduzindo essa fragmentação e restringindo o acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de propaganda das siglas sem representatividade. Mesmo assim, o sistema partidário e eleitoral continua financiado majoritariamente com recursos públicos.

A questão não é impedir a criação de partidos, mas exigir que eles representem efetivamente parcelas da sociedade e possuam propostas claras. Caso contrário, deixam de ser instrumentos de representação política e correm o risco de se transformar apenas em estruturas de negociação. O Brasil realmente precisa de tantas siglas?


O boicote mudou de lado

Uma onda de boicotes contra empresas e profissionais identificados com Lula e o PT espalhou-se pelo país depois das eleições. O movimento existe, mas não representa uma novidade na política brasileira. O que mudou foi o campo político que passou a utilizar essa forma de pressão.

Desde 2018, empresas associadas à direita, como a Havan, foram incluídas em campanhas de boicote. Em 2020, começou a atuação efetiva do Sleeping Giants Brasil, pressionando anunciantes de veículos acusados pelo movimento de divulgar desinformação ou discursos de ódio. A Jovem Pan foi um dos principais alvos e perdeu dezenas de anunciantes durante a campanha por sua desmonetização.

Em 2023, Fernando Haddad afirmou que muitas pessoas haviam deixado de consumir produtos de empresas ligadas ao governo Bolsonaro e declarou que também observava de quem estava comprando. Agora, o processo se inverteu: consumidores conservadores anunciam que deixarão de contratar serviços ou comprar produtos de empresários identificados com o lulismo.

O consumidor possui liberdade para escolher onde gastar seu dinheiro. Outra situação, muito diferente, é produzir listas com informações imprecisas, promover ameaças, perseguir trabalhadores ou incentivar demissões por motivação política. Independentemente de quem pratique, a régua precisa ser a mesma: aquilo que era considerado legítimo ontem não pode ser tratado como intolerável apenas porque mudou de lado.

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