A direita precisa decidir com quem pretende disputar

Milhões de votos e força no Congresso exigem uma estratégia comum; transformar divergências internas em acusações de traição desperdiça esse capital político.

A direita perdeu a eleição presidencial, mas não pode ignorar os cerca de 60 milhões de votos conquistados. Somados à força do PL no Congresso e à representação de outras siglas, como Republicanos e Novo, eles demonstram a dimensão desse campo político. Existe uma base expressiva. O que falta é transformar essa força em uma estratégia sólida e convergente.

Unidade não significa que todos devam pensar exatamente da mesma maneira. Partidos, governadores e parlamentares possuem trajetórias, interesses e prioridades diferentes. A construção política consiste justamente em encontrar pontos de convergência que permitam atuar em conjunto, preservando essas diferenças.

O que se observa, porém, é uma disposição preocupante para procurar culpados dentro do próprio grupo. Divergências viram confrontos públicos, pretensões eleitorais recebem o rótulo de deslealdade e a discussão sobre o futuro cede espaço a uma caça às bruxas.

Um governador admitir a possibilidade de disputar a Presidência em 2030 não constitui, por si só, traição. Formar lideranças e discutir alternativas são movimentos naturais de qualquer corrente política que pretenda continuar relevante. Nenhum projeto duradouro pode depender da proibição de novas candidaturas.

Traições existem na política, no Brasil e em outras democracias. Mas transformar essa suspeita em regra destrói a confiança necessária para construir alianças. Quando qualquer discordância passa a ser interpretada como rompimento, o grupo começa a afastar pessoas que poderiam contribuir para seus objetivos.

A disputa interna por espaço também é legítima. Precisa, contudo, produzir escolhas e organização, em vez de um desgaste permanente entre possíveis aliados. Há uma diferença importante entre debater caminhos e tentar desqualificar quem apresenta outro.

Na avaliação deste portal, a direita precisa organizar sua atuação parlamentar, fiscalizar o governo, apresentar propostas e preparar suas próximas lideranças. É assim que uma votação expressiva pode se transformar em resultados e em uma alternativa de poder.

Os eleitores que confiaram nesse campo político merecem mais do que assistir a seus representantes brigando entre si. Sem capacidade de convergir, a direita corre o risco de fazer por seus adversários o trabalho que eles próprios teriam dificuldade de realizar.

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