A política ainda voltará a ser uma festa cívica?
A eleição terminou, mas o confronto continua nos tribunais e nas redes sociais, alimentando uma divisão que prejudica o país.

Houve um tempo em que as eleições eram vividas como uma festa cívica. Não faltavam disputas acirradas, acusações ou divergências, mas o encerramento da votação permitia retomar a convivência. Hoje, parece cada vez mais difícil encerrar uma campanha. O confronto começa antes das urnas, atravessa a votação e continua depois do resultado.
Parte expressiva da classe política escolheu alimentar esse ambiente. A divergência virou motivo de hostilidade, e o adversário passou a ser tratado como inimigo. A população absorveu essa lógica e reproduz, nas relações pessoais e comerciais, a guerra estimulada por suas lideranças.
Um exemplo recente é o pedido do deputado federal eleito Pedro Rousseff (PT-MG) à Procuradoria-Geral da República para que avalie a apreensão do passaporte de Nikolas Ferreira (PL-MG). O requerente sustenta a possibilidade de o adversário deixar o país para evitar procedimentos criminais. Nikolas reagiu. O episódio reúne os ingredientes de uma política que parece depender permanentemente do confronto para conquistar atenção.
Acionar as instituições é legítimo. Denúncias fundamentadas precisam ser examinadas, independentemente do partido envolvido. Mas restringir direitos exige elementos concretos. Uma suspeita não se transforma em prova pela quantidade de vezes que é repetida nas redes sociais.
Na avaliação deste portal, transformar representações e pedidos de punição em instrumentos de exposição política empobrece o debate. Parlamentares precisam fiscalizar, legislar e apresentar soluções. O recurso às instituições deve servir à Justiça, jamais substituir o trabalho político ou funcionar como anúncio de uma condenação antecipada.
A votação expressiva de um parlamentar não lhe concede imunidade contra investigações. Da mesma forma, sua posição ideológica não pode torná-lo alvo automático de restrições. A democracia exige a mesma régua para todos.
Essa responsabilidade também alcança o cidadão. Quando a preferência eleitoral passa a determinar quem merece trabalhar, vender, comprar ou receber solidariedade, a divisão ultrapassa os partidos e compromete a convivência.
Não precisamos idealizar o passado para reconhecer que o presente exige mudança. A política deve organizar nossas diferenças e permitir escolhas coletivas. Se continuar transformando brasileiros em inimigos, a eleição poderá até produzir vencedores, mas o país seguirá perdendo.
#Democracia #Política #Eleições #Respeito #Convivência #Opinião #DMANotícias
