Dois pesos e duas medidas: a cobrança da imprensa precisa ser a mesma

Reportagens envolvendo os dois candidatos à Presidência levantam uma questão sobre o comportamento da grande mídia: existe a mesma disposição para cobrar explicações de ambos?

Imagem gerada por IA

Quando surgiram as revelações sobre as conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro relacionadas ao financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro, a cobrança ultrapassou o veículo responsável pela reportagem. O assunto ganhou repercussão, e o candidato passou a enfrentar questionamentos sobre sua relação com o banqueiro. A imprensa cumpria seu papel ao buscar esclarecimentos.

Nesta sexta-feira, 9 de outubro, a Veja publicou uma reportagem com relatos atribuídos ao mesmo Vorcaro sobre um suposto financiamento de um documentário sobre Lula. A revista procurou o presidente e apresentou sua resposta. Mas o ponto que nos chama a atenção está no comportamento dos demais veículos depois da publicação.

Na cobertura que acompanhamos até o fechamento deste artigo, não identificamos uma mobilização equivalente para questionar diretamente Lula. Houve repercussão da reportagem e divulgação de manifestações dos envolvidos. Nossa cobrança é pela mesma insistência em buscar explicações do candidato, como ocorreu com seu adversário.

É essa diferença percebida que merece reflexão. Publicar uma notícia, reproduzir uma nota e questionar diretamente uma autoridade são iniciativas com alcances distintos. Quando a imprensa insiste em perguntas a um candidato, demonstra que considera suas respostas relevantes para o eleitor. Esse critério precisa valer para os dois principais postulantes à Presidência.

Não estamos julgando o mérito das denúncias nem atribuindo culpa a qualquer envolvido. A análise aqui é sobre a postura jornalística: a disposição para perguntar, confrontar respostas e continuar cobrando esclarecimentos, independentemente de quem esteja diante dos microfones.

As diferenças entre os elementos de cada reportagem devem orientar a apuração. A identidade política dos envolvidos, porém, jamais pode determinar a intensidade da fiscalização. Perguntas precisam ter fundamento, e esse compromisso deve acompanhar toda a cobertura.

A imprensa é reconhecida como um dos pilares da democracia porque fiscaliza o poder e trabalha em favor do direito da população à informação. Para preservar essa condição, precisa demonstrar independência também na escolha de quem questiona e na persistência com que faz isso.

O DMA Notícias defende uma cobrança equânime. Se houve disposição para ir atrás de Flávio Bolsonaro e exigir explicações, esperamos a mesma disposição para questionar Lula sobre as alegações que o envolvem. Ambos disputam o mesmo cargo. Ambos devem estar sujeitos ao escrutínio público.

A confiança no jornalismo se constrói com critérios claros e aplicação consistente. Dois candidatos à Presidência exigem da imprensa a mesma independência, o mesmo rigor e a mesma coragem para perguntar.

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