Dividir para governar: quando a conta chega à solidariedade
A ruptura entre posições políticas alcança projetos sociais e expõe a responsabilidade de quem depende de colaboração, mas também participa do confronto.

“Dividir para governar.” A expressão ganha um significado ainda mais amargo quando a divisão ultrapassa os palanques e chega às iniciativas de assistência social. O ressentimento político começa a comprometer relações construídas para ajudar pessoas que precisam.
Na avaliação deste portal, o campo político do presidente Lula tem responsabilidade importante na construção desse ambiente. Transformar diferenças sociais, regionais e de costumes em antagonismos permanentes rende mobilização eleitoral, mas deixa consequências que continuam depois das urnas.
O caso de Julio Ritta, fundador do Cozinheiros do Bem, em Porto Alegre, precisa ser apresentado com esse contexto. Ele relatou o cancelamento de contribuições após a eleição. Entretanto, também foi acusado pelo deputado Nikolas Ferreira de ter dirigido xingamentos à direita. Essa acusação integra a controvérsia e não pode ser apagada ao apresentar o rompimento com os doadores.
O princípio é simples: quem hostiliza um grupo não pode tratar como incompreensível o afastamento de pessoas desse mesmo grupo. Se houve ofensas aos colaboradores, quem as proferiu também contribuiu para deteriorar a relação. Um trabalho social relevante não dispensa seu responsável de cuidar da confiança de quem o sustenta.
O padre Júlio Lancellotti também precisa entrar nessa discussão, com a necessária precisão. Há relatos de queda nas doações destinadas às suas iniciativas.
A liberdade de um religioso para defender posições progressistas deve ser respeitada. Da mesma forma, quem assume uma posição política pública precisa compreender que pode perder identificação com parte dos apoiadores. A liberdade de manifestação convive com a liberdade de escolher a quem destinar uma contribuição voluntária.
Existe, porém, uma responsabilidade especial quando outras pessoas dependem dessa relação. Liderar uma iniciativa social exige construir pontes com colaboradores de diferentes convicções. Participar da hostilidade política pode comprometer justamente essas pontes.
O Brasil continuará sendo uma só nação. Mas a convivência pode se fragmentar muito antes de qualquer fronteira. Quando a divisão chega à solidariedade, a conta acaba atingindo quem menos condições tem de pagá-la.
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