Sou otimista ou apenas gosto de me enganar?
Entre a confiança na força dos brasileiros e uma realidade que insiste em contrariar nossas esperanças, fica a pergunta: até onde acreditar é uma virtude?

Busco forças e argumentos para continuar otimista com o Brasil. O que me mantém desse lado é a confiança no povo brasileiro, que trabalha, enfrenta dificuldades e encontra disposição para recomeçar. Também me sustenta a imensidão das riquezas deste país. Temos recursos, capacidade e gente disposta a construir uma vida melhor.
Entretanto, uma força contrária me enche de dúvidas. Ela aparece quando deixo os desejos de lado e observo a realidade. Não posso desconhecer os indicadores nem esperar que tudo mude num passe de mágica, apenas para dar razão ao meu otimismo.
O peso dos tributos equivale a quase cinco meses da renda anual do brasileiro. É uma parcela enorme do esforço de quem trabalha e produz. Diante desse sacrifício, seria razoável esperar serviços públicos que correspondessem à conta apresentada à população.
Nossa produtividade permanece baixa, limitando o crescimento da economia e da renda. O brasileiro se esforça, mas encontra dificuldades para transformar esse esforço em prosperidade. Falta qualificação, falta infraestrutura, sobram obstáculos. Quanto talento estamos desperdiçando nesse caminho?
Convivemos com juros elevados e uma inflação que continua pressionando o orçamento. Quem precisa de crédito encontra uma conta pesada. Quem chega ao supermercado percebe que o dinheiro tem dificuldade para acompanhar as necessidades da família.
Na educação, onde deposito a maior esperança de transformação de qualquer país, seguimos com resultados que deveriam nos inquietar profundamente. Crianças avançam na vida escolar carregando deficiências de aprendizagem. Depois, cobramos desses jovens preparo para um mercado de trabalho cada vez mais exigente. Estamos pedindo na chegada aquilo que não conseguimos oferecer durante o percurso.
As contas públicas operam no vermelho. Milhões de famílias precisam de auxílio para complementar sua renda e enfrentar necessidades básicas. A proteção é necessária, mas sua dimensão também revela o tamanho do desafio que temos pela frente. Precisamos oferecer oportunidades para que essas pessoas conquistem autonomia e possam planejar o futuro com segurança.
Se acrescentar saneamento, saúde e criminalidade, talvez o leitor desista de continuar. Fico por aqui. Já há motivos suficientes para compreender minha inquietação.
O que mais me incomoda é a distância entre o país que podemos ser e aquele que conseguimos construir. Conhecemos nossas possibilidades. Repetimos que temos um povo extraordinário e um território privilegiado. Mas o potencial, tantas vezes celebrado, continua esperando para se tornar realidade na vida de muita gente.
Não considero justo exigir resistência permanente da população. O trabalhador não deveria precisar superar tantos obstáculos para sustentar sua família. O empreendedor não deveria gastar tanta energia tentando vencer dificuldades que poderiam ser removidas. E uma criança não deveria depender da sorte para receber uma boa educação.
Ainda assim, continuo procurando razões para acreditar. Encontro essas razões em quem ensina, cuida, produz, pesquisa, empreende e faz seu trabalho com responsabilidade. Há brasileiros construindo soluções todos os dias. Gostaria de ver esse esforço acompanhado por quem tem o dever e o poder de melhorar o país.
Meu otimismo resiste. Mas já não aceita ser alimentado apenas por promessas ou pela repetição de que somos o país do futuro. Preciso enxergar caminhos, decisões e resultados.
Gosto demais do Brasil para desistir dele. Talvez seja isso que me mantenha otimista.
Só espero que esse amor não esteja me ensinando a gostar de me enganar.
#Opinião #Brasil #Otimismo #Educação #Economia #FuturoDoBrasil
