Os R$ 24 bilhões que Santa Catarina não recusou

Valor repetido durante a campanha não correspondia a recursos federais oferecidos ao Estado, mas a investimentos previstos em concessões rodoviárias remuneradas por pedágios.

O DMA Notícias esperou o encerramento das eleições para publicar esta matéria.

A decisão foi deliberada. Durante a campanha, qualquer abordagem sobre o assunto poderia ser interpretada como favorável ou contrária a algum dos candidatos.

Encerrada a disputa, fica o fato.

Durante o período eleitoral, os candidatos Gelson Merísio e João Rodrigues repetiram críticas ao governador Jorginho Mello, sustentando que Santa Catarina teria perdido ou recusado R$ 24 bilhões em investimentos nas rodovias por falta de diálogo entre o governo estadual e o governo federal.

A afirmação produz uma interpretação simples para quem a recebe: havia R$ 24 bilhões disponíveis para Santa Catarina, mas o Estado perdeu os recursos porque seu governador não conseguiu ou não quis dialogar com Brasília.

Não foi isso que aconteceu.

Os R$ 24 bilhões citados estavam relacionados a um projeto de concessões rodoviárias, com investimentos realizados ao longo dos contratos e financiados, principalmente, pela cobrança de pedágios dos usuários.

Portanto, não eram R$ 24 bilhões que o governo federal pretendia transferir aos cofres catarinenses para recuperar e duplicar estradas.

E essa diferença muda completamente a compreensão do assunto.

O Governo de Santa Catarina discordou do modelo porque não queria incluir rodovias estaduais em novas concessões que resultariam na cobrança de pedágios.

Pode-se defender que os pedágios seriam compensados pelos investimentos e pela melhoria das estradas.

Pode-se defender exatamente o contrário: que os catarinenses já suportam uma carga elevada de tarifas e não deveriam receber novas praças de cobrança.

Essa é uma discussão de mérito.

Mas não foi essa discussão que predominou na campanha.

O que se repetiu foi a ideia de que Santa Catarina havia perdido R$ 24 bilhões por falta de diálogo.

Há ainda um segundo fato fundamental.

A maior parte das rodovias envolvidas na discussão é formada por BRs.

Rodovias federais.

A Constituição atribui à União competência sobre sua infraestrutura de transportes, e a legislação permite que o governo federal explore essas rodovias diretamente ou por meio de concessões. A ANTT é responsável pela estruturação e fiscalização dessas concessões.

Portanto, se o governo federal decidir conceder uma BR localizada em Santa Catarina, não precisa da concordância política do governador para fazê-lo.

A concordância estadual torna-se necessária quando se pretende incorporar rodovias pertencentes ao Estado ao mesmo projeto.

E os acontecimentos posteriores ajudam a demonstrar isso.

A União continuou desenvolvendo projetos de concessão envolvendo trechos das BR-153, BR-282, BR-470 e BR-480 em território catarinense, mesmo sem a adesão do governo estadual ao modelo original integrado.

Esse é o ponto que precisa ficar claro.

Jorginho Mello não poderia impedir o governo federal de conceder as rodovias federais.

O que o governador poderia fazer — e fez — era recusar a inclusão das estradas estaduais em um modelo com o qual não concordava.

Consequentemente, reduzir toda essa discussão à afirmação de que “Santa Catarina perdeu R$ 24 bilhões por falta de diálogo” não apresenta ao eleitor a realidade completa.

Omite que os investimentos estavam vinculados a concessões.

Omite que haveria cobrança de pedágios.

E omite que, no caso das BRs, a decisão permanece nas mãos do governo federal.

E aqui está a questão maior desta matéria.

Campanhas eleitorais são ambientes de disputa de ideias, críticas e versões diferentes sobre políticas públicas.

O problema começa quando um fato complexo é recortado de tal maneira que passa a transmitir ao eleitor uma realidade diferente daquela que efetivamente ocorreu.

Distorcer os fatos é desinformar o eleitor.

Não importa quem faça isso.

Não importa o partido.

Não importa quem seja beneficiado pela narrativa.

Os R$ 24 bilhões não eram um cheque que o governo federal colocou sobre a mesa e Santa Catarina recusou.

E o Governo de Santa Catarina também não possui poder para impedir Brasília de conceder as BRs localizadas no Estado.

Esses são os fatos.

O restante pertence ao debate sobre concessões, investimentos e pedágios.

Um debate que pode — e deve — existir.

Mas com a verdade inteira colocada sobre a mesa.

Hashtags: #SantaCatarina #Rodovias #Infraestrutura #Concessões #Pedágios #BRs #Eleições2026 #Desinformação #ANTT #GovernoSC #GovernoFederal #DMANotícias

Sobre o autor

Compartilhar em: