BÚZIOS, PORTO VELEIRO E ROCKA FISH

Minha relação profissional com Búzios já se aproxima de vinte anos e sempre esteve diretamente ligada à atividade náutica, portuária e turística da cidade. Ao longo desse período, atuei pela Marina Porto Veleiro em diferentes frentes regulatórias perante a ANTAQ, a Marinha do Brasil e a Secretaria do Patrimônio da União, inclusive participando diretamente da obtenção das licenças e autorizações necessárias para que a Marina pudesse operar formalmente como Instalação Portuária de Turismo. Foi dentro dessa trajetória que retornei agora à cidade, nesta pré-temporada de verão, acompanhando mais uma etapa de fiscalização e preparação para o período de maior movimentação de cruzeiros e embarcações.

O Porto Veleiro exerce papel bastante particular dentro da estrutura turística de Búzios. Além de funcionar como marina de passagem e prestar apoio às embarcações que navegam pela região, recebe passageiros dos cruzeiros que permanecem fundeados ao largo. Para viabilizar a transferência, utiliza-se uma plataforma flutuante posicionada junto ao casco do navio, funcionando como interface entre o cruzeiro e as escunas. Os passageiros desembarcam do navio pela plataforma, nela embarcam nas escunas e seguem até a Marina Porto Veleiro, onde chegam a terra e partem para os mais variados programas turísticos pela cidade. No retorno, fazem o percurso inverso, embarcando novamente nas escunas na Marina e utilizando a mesma plataforma para retornar ao navio.

A estrutura vai muito além do receptivo de cruzeiros. Há abastecimento náutico, com tanque de 15 mil litros e possibilidade de atendimento a volumes superiores mediante aviso prévio, além dos serviços destinados às embarcações de recreio e passagem. Em torno da atividade portuária propriamente dita consolidou-se um verdadeiro cluster de turismo náutico, com lojas de souvenir e roupas, bar, restaurante e um quiosque em formato de ilha destinado à comercialização dos mais variados passeios pela região. O visitante que chega pelo mar encontra, portanto, uma estrutura integrada, capaz de conectá-lo imediatamente à economia turística de Búzios.

Nesta pré-temporada, a Marina recebeu fiscalização da ANTAQ e, mais uma vez, apresentou padrão elevado de conformidade operacional, a ponto de os próprios inspetores mencionarem a instalação como exemplo para o Brasil. Para quem acompanha há tantos anos o processo de regularização, licenciamento e operação do Porto Veleiro, essa observação tem significado especial, porque traduz o resultado de um trabalho continuado envolvendo segurança, navegação, atendimento aos passageiros, estruturas flutuantes, organização operacional e cumprimento de exigências regulatórias que demandam acompanhamento permanente.

No mesmo dia, recebemos também a visita do Capitão dos Portos de Macaé, Comandante Freire, excelente oficial superior da Marinha do Brasil, com quem tive uma longa e produtiva conversa sobre a necessidade de se fazer cumprir a portaria que determina a desocupação do canal de acesso e da bacia de evolução que atendem a Marina Porto Veleiro. Trata-se de tema diretamente relacionado à prevenção de acidentes da navegação, porque canal de acesso e bacia de evolução precisam permanecer livres para permitir a entrada, a saída e a manobra das embarcações em condições adequadas de segurança, especialmente numa região de intensa atividade náutica.

A questão envolve exatamente o tripé que orienta a mentalidade marítima: segurança da navegação, salvaguarda da vida humana no mar e prevenção à poluição hídrica. A ocupação indevida de áreas destinadas à circulação e manobra aumenta os riscos de abalroamento, encalhe e outros acidentes, com potenciais consequências para pessoas, embarcações e meio ambiente. Fiquei particularmente bem impressionado com o Comandante Freire, pela formação técnica, clareza na análise dos problemas apresentados, conhecimento da realidade local e postura equilibrada diante das questões práticas de navegação e segurança. É um oficial que reúne qualidades para uma longa e profícua carreira na Marinha do Brasil.

Outro aspecto que chamou atenção durante a visita foi a condição ambiental ao redor da Marina. Mesmo com toda a atividade náutica existente naquele espaço, as águas estavam absolutamente transparentes, cristalinas mesmo, permitindo observar com facilidade tudo o que acontecia sob a superfície. Havia boa quantidade de macrófitas, vários cardumes de peixes claramente visíveis através da água translúcida e muitas tartarugas circulando pelo entorno e alimentando-se dessa vegetação. A cena é especialmente interessante por demonstrar que atividade náutica intensa não significa, por si só, degradação ambiental, principalmente quando existe organização, controle operacional e cuidado permanente com o espaço aquaviário.

Encerrada a agenda profissional, seguimos para Geribá, onde finalmente conheci o Rocka Fish. O restaurante vinha muito bem recomendado e conseguiu superar as expectativas. A visita tinha interesse adicional pela mudança recente da casa, que durante quase dezessete anos esteve associada à Praia Brava e, em 2026, passou a funcionar em Geribá, duas praias de características bastante distintas e que representam experiências completamente diferentes dentro da própria península.

Na Praia Brava, o Rocka ocupava um ambiente menor, mais reservado, encaixado entre costões e com relação quase intimista com o mar. Em Geribá, passou a integrar uma praia extensa, aberta para o oceano, com larga faixa de areia, ondas fortes, presença marcante do surf e circulação muito maior de pessoas. Ainda assim, Geribá preserva uma atmosfera bastante qualificada, com belas casas de veraneio, pousadas, restaurantes e um público que mistura a informalidade própria de Búzios com serviços e estabelecimentos de padrão elevado, mantendo-se como uma das praias mais bonitas e conhecidas da cidade.

A nova fase ocupa o espaço tradicionalmente associado ao Fishbone e mantém à frente da cozinha o argentino Gustavo Rinkevich, responsável pela identidade gastronômica construída pelo Rocka desde 2009. Sua cozinha carrega forte influência mediterrânea, resultado de sua formação e de experiências profissionais fora do Brasil, mas trabalha de maneira muito direta com produtos encontrados no litoral fluminense, especialmente pescados, frutos do mar e vegetais. Essa combinação aparece com clareza em todo o cardápio e, sobretudo, na forma como o pescado é tratado, quase sempre preservando textura, brilho, suculência e sabor.

O almoço começou pelos tiraditos de atum, servidos com aji amarillo, maracujá, missô branco, cebola roxa, pimenta dedo-de-moça, brotos e pipoca de quinoa. O peixe estava fresquíssimo e o molho de maracujá particularmente bem equilibrado, acrescentando acidez sem esconder o sabor do atum. Havia ali uma combinação muito bem resolvida entre frescor, picância, umami e textura, com cada ingrediente cumprindo seu papel sem disputar protagonismo com o pescado.

Vieram depois os bolinhos de bacalhau, acompanhados por aioli de pimenta-biquinho, e as croquetas de carne, servidas com aioli defumado. Ambos estavam muito bem executados, com fritura correta, exterior crocante e interior úmido, sem excesso de gordura. Na sequência chegaram os fish and chips de dourado, com o peixe em excelente ponto, carne muito úmida sob o empanado, batatas cortadas extremamente finas e crocantes e o aioli da casa. Mesmo em um prato aparentemente simples, a qualidade do dourado aparecia imediatamente, tanto pelo frescor quanto pela precisão da fritura.

O ceviche veio depois e confirmou o cuidado da casa com os pescados crus. Também preparado com peixe muito fresco, apresentava cebola roxa, coentro, pimenta, milho crocante, chips de batata-doce e, principalmente, uma boa quantidade de leite de tigre. Vale o registro porque se tornou relativamente comum encontrar ceviches quase secos, como se bastassem peixe, limão e cebola. Ali estavam presentes todos os elementos fundamentais, com acidez correta e picância na medida certa. Como dizem os peruanos, “si no pica, no es ceviche”.

Para acompanhar, comecei com um Bloody Mary muito bem preparado. A Tina foi de limoncello spritz, mais leve, cítrico e especialmente adequado ao ambiente de praia. Para finalizar, pedi um Negroni servido em copo alto e fui completando aos poucos com água tônica, transformando-o praticamente em um Negroni Tonic. A base amarga e aromática do Negroni permanece, mas a tônica alonga o drinque, acrescenta frescor e permite acompanhá-lo por mais tempo sem perder completamente sua personalidade.

O ponto alto do almoço veio no prato principal. Um corte alto de dourado preparado na brasa, com a carne ainda brilhante, úmida e suculenta, acompanhado por purê de banana-da-terra, farofa de castanhas e vegetais. O brilho da carne demonstrava ao mesmo tempo o frescor do pescado e a técnica no preparo, porque um filé alto exige controle preciso da temperatura para que o calor chegue ao centro sem retirar a umidade que dá ao peixe sua textura e sabor.

O purê de banana-da-terra merece destaque especial. De coloração bastante escura, muito diferente do habitual, lembra visualmente a tradicional bala de banana, e o sabor também apresenta grande concentração da fruta, como se a banana fosse trabalhada demoradamente no tacho até desenvolver notas profundas de caramelização. A semelhança, porém, não significa excesso de doçura. Ao contrário, há inclusive um toque de acidez muito interessante, que equilibra o conjunto e acompanha de maneira singular o dourado na brasa, transformando o purê em parte essencial do prato, e não em simples acompanhamento.

É um prato que sozinho justificaria a visita ao restaurante, mas a sequência inteira mostrou que não se tratava de um acerto isolado. Todos os pratos mantiveram regularidade de execução, frescor dos ingredientes e domínio técnico. Eu não conhecia o Rocka. A casa veio muito bem recomendada e conseguiu superar todas as expectativas.

O dia acabou reunindo duas dimensões profundamente ligadas à identidade de Búzios: a náutica pujante e a boa gastronomia.

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