“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”, ensina o Eclesiastes. Séculos antes, Cleantes deixara aos estoicos a sentença preservada por Sêneca em sua Carta 107 a Lucílio: “Ducunt volentem fata, nolentem trahunt”, o destino conduz quem consente e arrasta quem resiste. Política também é compreensão do tempo, do peso das circunstâncias e do instante em que cada palavra é pronunciada. É precisamente aí que se encontra o momentum de Tarcísio de Freitas: nada há de errado em começar a construir 2030, mas existe enorme diferença entre preparar o futuro e pretender encerrar prematuramente um passado que permanece aberto nas urnas, nos tribunais e, sobretudo, na confiança de milhões de brasileiros.

Flávio Bolsonaro já havia defendido mandato presidencial de cinco anos sem reeleição e mencionado Tarcísio como nome natural para sua sucessão. A própria lógica de um projeto político duradouro pressupõe renovação de lideranças, e Tarcísio, governador reeleito de São Paulo, evidentemente ocupa posição central nesse processo. Não vejo aí traição, deslealdade ou qualquer razão para interditar sua movimentação. A contradição surge quando afirma que “a eleição acabou” e recomenda respeitar o resultado e seguir em frente, justamente quando ainda existem impugnações e ações eleitorais em tramitação, inclusive com seu próprio apoio.

Flávio venceu o primeiro turno com 56,1 milhões de votos contra 53,8 milhões de Lula. Vinte e um dias depois, Lula apareceu com 64,2 milhões, incorporando mais de dez milhões de votos, enquanto Flávio cresceu cerca de 3,7 milhões. Simultaneamente, quase três milhões de eleitores a mais compareceram às urnas e houve redução expressiva de brancos e nulos. A questão que merece atenção nem é a diferença final entre os candidatos, mas o espetacular deslocamento ocorrido em apenas três semanas. Lula chegou à disputa com forte desaprovação, perdeu o primeiro turno e protagonizou uma virada historicamente excepcional. Uma transformação dessa magnitude não pode ser protegida do escrutínio justamente por ser extraordinária. É por sê-lo que merece ainda mais transparência.

E foi nessa mesma eleição que a totalização começou e, às 17h06, com 1.225 seções já computadas, acabou suspensa, sendo retomada somente depois das 19 horas em consequência da decisão de Cristiano Zanin que prorrogou a votação. Zanin fora advogado pessoal de Lula antes de ser indicado por ele ao Supremo. Num país politicamente conflagrado e depois de tudo o que ocorreu nos últimos anos, interromper uma totalização presidencial já iniciada e imaginar que milhões de pessoas simplesmente aceitarão tudo sem questionamento é desconhecer o nível de erosão da confiança institucional.

Há ainda vulnerabilidades que não foram inventadas pelo bolsonarismo. Gilmar Mendes já descreveu no STF o famoso “mesário pianista”, aquele que votava por eleitor ausente. A biometria tornou a fraude humana mais difícil, mas a identificação biométrica não constitui condição absoluta para que o voto seja habilitado. Se o comparecimento cresceu de maneira tão expressiva justamente no segundo turno, quero saber quantas habilitações ocorreram sem biometria, onde ocorreram e como se comportaram em relação à primeira votação. Flávio Dino, quando ainda estava longe do Supremo, também defendeu instrumentos adicionais de auditoria e chegou a afirmar que havia presenciado demonstração de que as urnas eram suscetíveis a fraude. Nenhum sistema eletrônico sofisticado é invulnerável, e somente em matéria eleitoral surgiu essa curiosa doutrina segundo a qual pedir auditoria seria mais perigoso para a democracia do que desejar auditá-la.

A suspeita sobre 2026 tampouco se restringe ao funcionamento das urnas. Há ações discutindo abuso de poder político e econômico depois de um governo despejar bilhões de reais em benefícios, programas e medidas de fortíssimo apelo eleitoral. Essas ações continuam tramitando e Tarcísio apoia seu prosseguimento. Se podem produzir consequências sobre a própria chapa proclamada vencedora, dizer que a eleição simplesmente acabou não corresponde nem mesmo à estratégia jurídica do campo político do governador.

E há um dado político adicional que Tarcísio faria bem em observar. Enquanto PL e Republicanos ainda parecem hesitar sobre quem assumirá a linha de frente institucional dessa contestação, o Partido Novo vem ocupando o espaço com iniciativa, método e exposição pública. O partido ajuizou ações pedindo a cassação da chapa Lula-Alckmin por abuso de poder econômico e político, levou ao TSE questionamentos sobre o uso de estruturas sindicais e de recursos públicos e ainda sistematizou dezenas de medidas governamentais de forte apelo eleitoral adotadas ao longo de 2026. O PL também mantém ações relevantes, mas o NOVO conseguiu transformar a contestação em bandeira partidária própria. Para Tarcísio, isso deveria acender um sinal de alerta: protagonismo político não se herda, ocupa-se. Se o Republicanos, partido de sua principal liderança nacional, não assumir com nitidez a defesa das causas que mobilizam esse eleitorado, outro partido o fará. E pode fazê-lo antes, com mais convicção e com mais capacidade de converter indignação em identidade política. O risco para Tarcísio não está em lançar-se cedo demais para 2030, mas em permitir que outros assumam, em 2026, justamente a liderança moral e institucional que ele precisará reivindicar depois.

Minha desconfiança tampouco nasceu em 25 de outubro. O lawfare contra o bolsonarismo vem de longe, e o 8 de janeiro de 2023 talvez tenha produzido sua imagem mais brutal. Mais de duas mil pessoas foram detidas ou conduzidas, centenas permaneceram preventivamente presas, muitas foram posteriormente libertadas, houve absolvições por falta de provas e Cleriston Pereira da Cunha morreu na Papuda sem ver o desfecho definitivo de seu processo. Vieram ainda penas de 14, 17 anos e outras condenações que considero iníquas e absolutamente desproporcionais, enquanto o brasileiro assiste diariamente a criminosos comuns recuperarem a liberdade em audiências de custódia, usufruírem progressões de regime e receberem toda sorte de benefícios da execução penal.

E houve perfídia. Os acampados diante do Quartel-General do Exército dormiram acreditando que o Exército Brasileiro os protegia, quando na verdade estavam cercados. Na manhã seguinte entraram pacificamente nos ônibus porque confiaram nos militares e terminaram conduzidos à prisão. O general Gustavo Henrique Dutra depois se jactou da estratégia que permitiu realizar a operação sem resistência, orgulhando-se precisamente da perfídia. A confiança das pessoas foi transformada na ferramenta de sua captura. Como se não bastasse, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, ainda se orgulhou do número de presos e falou em consultar o Guinness Book para verificar se aquela teria sido a maior prisão da história do mundo. Primeiro o engano que possibilitou a prisão em massa; depois a celebração do recorde.

Jair Bolsonaro acabou condenado e preso. Eduardo deixou o Brasil e passou a viver nos Estados Unidos em meio à escalada dos processos contra ele. Flávio chegou ao segundo turno ouvindo do próprio Lula, em rede nacional, que perderia a imunidade, que deveria se preparar, que “teria problema” e que seus inquéritos “iriam andar”. Dias depois, praticamente no instante em que a derrota eleitoral estava matematicamente definida, a Polícia Federal já formalizava uma extensa representação para restringir seus documentos de viagem. A diferença de minutos entre a definição do resultado e a formalização da peça demonstra, no mínimo, que ela já vinha sendo preparada antes do encerramento matemático da disputa.

Pouco depois, o governo dos Estados Unidos foi muito além da retórica. Washington já havia aplicado sanções, restringido vistos, utilizado a Lei Magnitsky e acusado autoridades brasileiras de perseguição política. Donald Trump colocara publicamente a eleição sob suspeita e Javier Milei também questionara o ambiente político brasileiro. Depois da eleição, porém, houve participação americana na retirada de Flávio e de sua família do Brasil, com apoio também da Argentina na rota de saída. No vocabulário de inteligência, esse tipo de operação é chamado de exfiltração: a retirada discreta de uma pessoa de um território no qual se considera haver risco concreto de captura, prisão ou neutralização. Não se trata de uma viagem comum nem de simples mudança de país, mas de uma operação concebida para retirar alguém do alcance imediato de um aparato considerado hostil.

É exatamente por isso que a exfiltração de Flávio tem enorme peso político. Ninguém mobiliza governos, canais diplomáticos, logística internacional e proteção posterior por capricho. Permanecer no Brasil significava expô-lo ao mesmo mecanismo de lawfare que já atingira Jair e Eduardo. A apreensão de passaportes, as restrições de saída e o fechamento progressivo do cerco apontavam na mesma direção. A prisão era o passo seguinte que se desenhava. Os Estados Unidos não participaram de sua retirada porque considerassem seguro deixá-lo submetido ao mesmo ambiente institucional que já haviam denunciado oficialmente como perseguição política.

O contraste com Fábio Luís Lula da Silva apenas aprofunda a ruptura de confiança. Lulinha passou a figurar em três inquéritos da Polícia Federal e teve sigilos quebrados, mas atravessou meses sem sofrer cautelares pessoais semelhantes às aplicadas com prodigalidade contra personagens do bolsonarismo. Apreensão de passaporte, tornozeleira, proibições de deslocamento e prisão parecem surgir com extraordinária desenvoltura de um lado, enquanto do outro existe uma parcimônia incomparável. Dois pesos e duas medidas não constituem justiça; constituem precisamente sua negação.

É diante desse acúmulo que considero prematura a fala de Tarcísio. Não lhe cobro que abandone 2030, mas que perceba que sua liderança futura depende do modo como se comporta agora. Um presidenciável não pode deixar que outro partido assuma sozinho a defesa dos temas que mobilizam sua própria base e depois imaginar que bastará reaparecer no momento eleitoral para recuperar naturalmente esse capital político. A disputa por 2030 já começou, e começou muito antes da campanha formal. O NOVO entendeu isso. Tarcísio precisa entender também.

A mesma incompreensão aparece na reação aos boicotes surgidos depois da eleição. A esquerda não apenas fez isso antes como transformou consumo em instrumento político durante anos. Empresas identificadas com Jair Bolsonaro foram objeto de campanhas de boicote, e Fernando Haddad chegou a declarar em Davos que muita gente havia deixado de comprar de empresas ligadas ao bolsonarismo, acrescentando que ele próprio não comprava “nem um palito de fósforo” de empresa que não tivesse compromisso com os valores que considerava fundamentais. A moralidade do consumo parecia perfeitamente aceitável enquanto aplicada numa única direção.

Agora a direita chegou à conclusão de que também pode ser coerente com seus valores. E essa coerência não precisa limitar-se ao restaurante em que se janta ou ao supermercado em que se compra. No foro íntimo, cada indivíduo decide com quem deseja contratar, trabalhar, associar-se ou manter relações econômicas. Um empresário também pode considerar a afinidade moral relevante para a confiança na formação de sua equipe, assim como um empregado é livre para preferir trabalhar ao lado de pessoas e numa empresa cujos valores sejam próximos dos seus. Ninguém é moralmente obrigado a financiar, prestigiar ou associar a própria vida profissional àquilo que considera profundamente errado.

A diferença fundamental está em que a ruptura atual do bolsonarismo deixou de ser apenas política. Não estamos mais falando de divergência sobre alíquotas, concessões, privatizações ou tamanho do Estado. A divergência tornou-se moral porque envolve aquilo que cada lado considera aceitável em matéria de liberdade, justiça, corrupção, segurança pública, tratamento de adversários, facções criminosas, ditaduras e organizações terroristas. Quem vota conscientemente também escolhe aquilo que está disposto a endossar politicamente, e é natural que os demais formem juízos morais sobre essa escolha. A própria esquerda ensinou durante décadas que escolhas privadas possuem dimensão política. Descobriu apenas agora que essa lógica também pode viajar no sentido contrário.

Esse é o verdadeiro momentum de Tarcísio. Seu movimento para 2030 pode ser natural e coerente com a sucessão já aventada por Flávio, mas o instante exige que compreenda que protagonismo não se reserva para depois. Ele precisa ser exercido exatamente quando as causas centrais de seu campo político estão sendo disputadas, inclusive por partidos menores que já perceberam o espaço aberto. Se o NOVO se tornar a voz mais consequente da contestação enquanto Republicanos e parte do PL preferem administrar o calendário, o eleitor poderá concluir que liderança não é quem se apresenta como sucessor, mas quem se coloca à frente quando a batalha ainda está acontecendo.

O futuro de Tarcísio pode começar agora, mas 2030 não exige o sepultamento prematuro de 2026. Ao contrário: pode depender justamente da coragem de não abandoná-lo.

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