A GEOGRAFIA DO SOCIALISMO

A distribuição geográfica dos regimes socialistas e comunistas apresenta coincidências intrigantes. Cuba, Venezuela, Nicarágua, Laos e Vietnã estão na faixa tropical do planeta. A relação entre latitude, desenvolvimento econômico e orientação política ganha interesse quando se acrescentam imigração, formação institucional e estrutura produtiva.
Nas regiões de inverno rigoroso, sobreviver exigia armazenar alimentos, construir abrigos, acumular recursos e planejar o futuro. Ao longo do tempo, essas condições contribuíram para sociedades marcadas por poupança, organização produtiva e forte valorização da iniciativa privada.
A imigração europeia acrescentou outra dimensão. Milhões de emigrantes estabeleceram-se nos Estados Unidos, Canadá, Argentina, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, predominantemente em regiões temperadas ou subtropicais. No Brasil, alemães, italianos, poloneses e outros europeus formaram comunidades especialmente no Sul subtropical, desenvolvendo agricultura familiar, comércio e indústria. São Paulo também recebeu contingentes expressivos.
Depois, descendentes dessas populações avançaram pelas fronteiras agrícolas de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Rondônia, levando capital, conhecimento técnico e experiência empresarial. A ocupação transformou essas regiões em grandes polos produtivos.
O mapa eleitoral de 2026 apresenta correspondência impressionante. No primeiro turno, Lula liderou em 12 estados: os nove do Nordeste, Pará, Amazonas e Amapá. Flávio Bolsonaro liderou nas outras 15 unidades federativas, incluindo todo o Sul, Sudeste e Centro-Oeste, além de Rondônia, Acre, Roraima e Tocantins. Nacionalmente, Flávio obteve 47,03% e Lula, 45,16%.
A estrutura econômica também desenha fronteiras semelhantes. Em fevereiro de 2026, nove estados tinham mais famílias recebendo Bolsa Família do que empregos formais: Maranhão, Pará, Piauí, Bahia, Paraíba, Amazonas, Alagoas, Acre e Amapá. O Maranhão tinha 1,66 família beneficiária para cada emprego formal; Santa Catarina, no extremo oposto, registrava 13 empregos para cada família beneficiária.
Roraima oferece outro elemento. A fronteira com a Venezuela expôs diretamente sua população ao êxodo provocado pela crise venezuelana. Pesquisa publicada em 2025 encontrou maior apoio a candidatos de direita nas seções eleitorais de Boa Vista mais próximas dos abrigos de refugiados venezuelanos. Em 2026, Flávio Bolsonaro alcançou 71,1% dos votos válidos no estado.
O economista turco-americano Daron Acemoglu, professor do MIT e vencedor do Nobel de Economia de 2024, mostrou com Simon Johnson e James Robinson como diferentes formas de colonização produziram instituições duradouras capazes de influenciar propriedade, investimento e desenvolvimento.
Geografia, imigração, instituições, estrutura produtiva e dependência de transferências públicas formam, assim, um desenho que atravessa a história e reaparece no mapa político brasileiro. A pergunta permanece incômoda: a pobreza favorece a expansão do socialismo ou o socialismo contribui para perpetuar a pobreza e a dependência que promete combater?
