Pétrus, Romanée-Conti, Lafite Rothschild, Mouton Rothschild e Dom Pérignon. As investigações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro revelaram coleções de vinhos extraordinários, com garrafas que alcançam dezenas de milhares de reais. O espetáculo da riqueza expõe uma contradição bastante conhecida: a capacidade de adquirir objetos excepcionais não assegura o conhecimento necessário para apreciá-los. Há fortunas capazes de comprar praticamente tudo, exceto aquilo que exige educação, sensibilidade e cultura.

O advogado, professor e especialista em vinhos Fábio Lobosco, responsável pelo perfil @dose.bacana, examinou a coleção recorrendo ao sociólogo francês Pierre Bourdieu, autor de A Distinção, publicada em 1979. Intelectual militante da esquerda radical francesa, Bourdieu não se limitou à produção acadêmica. Combateu o liberalismo econômico, apoiou mobilizações sindicais e defendeu a organização internacional de movimentos sociais contra o capitalismo neoliberal. Chegou a propor uma esquerda ainda mais à esquerda dos partidos socialistas europeus, articulada em redes transnacionais de influência e contestação política.

Bourdieu diferenciou capital econômico, cultural, social e simbólico, demonstrando que riqueza e refinamento não caminham necessariamente juntos. Alguém pode adquirir uma biblioteca inteira sem jamais ter lido um livro. Com os vinhos acontece exatamente o mesmo. A ironia é que seus conceitos permitem examinar também os privilégios materiais das elites esquerdistas, frequentemente instaladas no conforto que seus discursos políticos reservam à condenação.

Lobosco observa que a adega de Vorcaro impressiona menos pela originalidade do que pela previsibilidade. São os grandes nomes que qualquer milionário encontra nas listas internacionais dos rótulos mais caros. Não lhes falta qualidade. O problema está na substituição da descoberta pelo preço, do conhecimento pela notoriedade comercial. Um verdadeiro apreciador pode encontrar numa pequena propriedade da Borgonha, do Jura ou do Piemonte experiências extraordinárias, inteiramente desconhecidas dos consumidores que procuram apenas prestígio pronto.

O fenômeno encontra paralelo curioso na história. Como já tratei em outro artigo, durante a ocupação da França os nazistas desenvolveram verdadeira obsessão pelos grandes vinhos franceses. Hermann Göring, particularmente voraz no saque de obras de arte, também cobiçava os tesouros de Bordeaux e da Borgonha. O historiador Christophe Lucand documentou, em Le Vin des nazis, a estrutura montada pelo Terceiro Reich para controlar e explorar os vinhedos franceses. Representantes especialmente designados, os Weinführer, atuavam nas regiões produtoras, apropriando-se de quantidades monumentais de vinho, inclusive rótulos extraordinários. Os grandes crus tornaram-se troféus de conquista e símbolos de poder.

A mesma paixão pelos privilégios materiais marcou as ditaduras comunistas. Stalin manteve sob domínio soviético coleções procedentes da aristocracia russa, incluindo raridades de Château Latour, Lafite Rothschild e Château d’Yquem, algumas do século XIX. O regime que prometia eliminar os privilégios de classe preservou os tesouros enológicos dos czares. Kim Jong-il, enquanto governava uma Coreia do Norte mergulhada na pobreza, tornou-se célebre pelo consumo de conhaque Hennessy, cujas importações destinadas ao ditador foram estimadas em US$ 650 mil anuais. A igualdade prometida às massas jamais alcançou as adegas dos dirigentes.

Na Venezuela chavista, o empresário Diego Salazar, ligado ao círculo de poder do regime, adquiriu em Paris, em 2012, um lote de 694 garrafas por aproximadamente 493 mil euros. Entre os rótulos estavam Pétrus 1990 e Dom Pérignon. A operação apareceu em investigações sobre fortunas movimentadas por integrantes e associados à elite petrolífera venezuelana. Enquanto o socialismo era anunciado como redenção dos pobres, seus beneficiários mais próximos descobriam os prazeres reservados aos milionários internacionais.

Lula é outro que se refastela no luxo, assim como sua “primeira-dama”, Janja. Em outubro de 2002, durante a campanha presidencial, participou de um jantar no Rio de Janeiro em que Duda Mendonça ofereceu uma garrafa de Romanée-Conti 1997, avaliada na época em R$ 7 mil. Anos depois, reportagem da revista Época revelou carregamentos de bebidas destinados ao sítio de Atibaia, incluindo Pétrus, Echézeaux, Gevrey-Chambertin, Vega Sicilia e Brunello di Montalcino. Os grandes vinhos europeus já frequentavam os ambientes do líder que construiu sua carreira política sobre a identidade operária.

O gosto pelas extravagâncias também aparece no guarda-roupa presidencial, com tênis italianos Zegna de modelos anunciados por R$ 8.050, R$ 10.550 e R$ 11.791, gravata Louis Vuitton de R$ 1.680, gravata Zegna de R$ 1.100, relógio Piaget avaliado em R$ 80 mil e Cartier Santos-Dumont estimado em R$ 60 mil, além de alfaiataria sofisticada. Janja também foi fotografada com bolsa Celine de modelo anunciado por R$ 21.400 e vestidos de grife que ultrapassam R$ 6 mil. Nas viagens internacionais, o casal frequenta hotéis luxuosos, como o InterContinental Paris Le Grand, cuja contratação para hospedagem da comitiva presidencial em junho de 2025 alcançou R$ 1,22 milhão. Em Londres, durante a coroação de Charles III, a acomodação presidencial no Grosvenor House tinha diária estimada em R$ 44 mil.

O Palácio da Alvorada também recebeu mobiliário de alto padrão, incluindo sofá de couro de R$ 65.140, cama de R$ 42.230 e poltrona de R$ 29.450. A aquisição tornou-se ainda mais constrangedora quando os 261 objetos do acervo presidencial inicialmente considerados desaparecidos foram posteriormente encontrados nas dependências da própria residência. O antigo líder sindical, que construiu seu patrimônio político sobre a retórica da igualdade e da defesa dos pobres, habituou-se aos prazeres reservados às elites mais endinheiradas. A austeridade continua sendo recomendada aos outros.

O contraste com Jair Bolsonaro é eloquente. Enquanto Lula e Janja aparecem associados a hotéis cinco estrelas, relógios suíços, roupas de grife e decoração milionária, a imagem que permanece de Bolsonaro é a do café da manhã prosaico, com pão francês, manteiga e café com leite servido em copo americano. Camisas comuns, refeições populares e informalidade compunham seu cotidiano público, mesmo dispondo das prerrogativas e instalações reservadas ao chefe de Estado. O homem que chegou à Presidência sem o discurso socialista da igualdade cultivou uma imagem pessoal muito mais próxima dos hábitos cotidianos da população do que o antigo líder operário.

No Brasil contemporâneo, outro personagem transformou sua adega em espetáculo: o advogado Nelson Wilians, conhecido pela exposição de automóveis, aeronaves, relógios e milhares de garrafas. Alcançado por investigações relacionadas ao INSS, Wilians também assumiu a defesa de um investigado no caso Banco Master. A estética da ostentação apresenta evidentes semelhanças com o universo de Vorcaro. A adega deixa de ser refúgio do apreciador para tornar-se monumento à própria fortuna.

O episódio de Felipe Brandão, filho do ministro Benedito Gonçalves, do STJ, oferece outra expressão desse comportamento. Em 2024, apareceu nas ruas de Amsterdã exibindo roupas e acessórios de marcas internacionais avaliados, conjuntamente, em mais de R$ 1,2 milhão. Somente o relógio Richard Mille representaria mais de R$ 1 milhão. Seu pai é o ministro que, durante a diplomação de Lula, dirigiu a Alexandre de Moraes a célebre frase: “Missão dada é missão cumprida”. O fascínio pela identificação pública da riqueza por meio de etiquetas e cifras encontrou ali expressão quase caricatural.

Curiosamente, enquanto esses personagens acumulam ou exibem bens caríssimos, parte do mercado internacional de luxo caminha em direção oposta. O chamado old money, associado às famílias tradicionalmente ricas, tornou-se referência do quiet luxury, expressão que privilegia discrição, qualidade e ausência de logomarcas aparentes. Loro Piana, Brunello Cucinelli e The Row representam bem essa linguagem. No Brasil, a própria Reserva desenvolveu a Oficina, linha de vestuário mais sofisticada, com materiais superiores e sem o tradicional símbolo da marca exposto nas peças.

O contraste é revelador. Enquanto setores da classe média e os novos ricos procuram nas marcas ostensivas o reconhecimento social que desejam conquistar, integrantes das elites tradicionais frequentemente dispensam essa necessidade de identificação imediata. Quem precisa anunciar quanto pagou parece menos interessado na excelência do objeto do que na reação que ele provocará. Algumas das roupas mais caras do mundo não exibem qualquer logotipo reconhecível pelo público. Seu prestígio circula entre aqueles capazes de identificar tecidos, cortes e acabamentos sem auxílio da publicidade.

Há nisso outra sutileza que Bourdieu certamente reconheceria. A discrição também constitui instrumento de distinção social. O velho dinheiro conserva seus códigos, enquanto os aspirantes procuram decifrá-los. A ausência de logomarca pode representar sofisticação genuína ou simplesmente outra maneira, mais reservada, de expressar superioridade econômica. O que distingue cultura de afetação não é a etiqueta visível ou escondida, mas a relação verdadeira do indivíduo com aquilo que possui.

No universo do vinho, essa diferença torna-se especialmente eloquente. Conhecer safras, produtores, territórios e tradições exige tempo, curiosidade e experiência. Apreciar um grande vinho pressupõe algo mais do que reconhecer seu preço numa carta de restaurante. Uma garrafa extraordinária não transmite automaticamente ao proprietário a história, a sensibilidade e o conhecimento acumulados por gerações de viticultores. O dinheiro abre a porta da adega, mas não substitui a formação do paladar.

A ironia é que parte da juventude nascida em famílias abastadas já questiona a lógica de pagar cifras extravagantes por bolsas, roupas e garrafas apenas para ostentar marcas famosas. Para esses consumidores, a verdadeira distinção pode estar justamente na liberdade de escolher sem precisar impressionar ninguém. Uma inversão desconcertante para quem ainda acredita que o preço constitui o certificado definitivo de excelência.

Ao fim e ao cabo, com o perdão do velho clichê, certas adegas monumentais parecem resumir-se a uma expressão tão antiga quanto certeira: pérolas aos porcos.

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