Pecado Mortal
Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Já fazia três anos que eu trabalhava para o governo. Percebia que havia alguma coisa errada, mas minha pouca experiência política impossibilitava diagnóstico preciso. Diretor de uma agência de propaganda, no início atendia às demandas da Secretaria de Comunicação. Aos poucos, a convivência com o governador resultou em proximidade e intimidade com o poder e em atividades que não diziam mais respeito ao ofício de publicitário.
O governador me convoca para uma conversa. Entro no seu escritório. Ele pede ao oficial para não ser interrompido. Sinto que a conversa vai ser séria. Como era do seu estilo, foi direto ao assunto:
– Estou no meio de uma reforma administrativa… – Eu sabia que ele estava negociando a saída de todos os secretários que disputariam as próximas eleições. – E vou aproveitar a oportunidade para nomeá-lo secretário. Você pode escolher: ser meu secretário particular ou secretário de Comunicação.
Surpreso, permaneci calado. Meu silêncio era todo perguntas. Em vez de esclarecer minhas dúvidas, aprofundou a surpresa.
– Você pode não aceitar. Mas aí vou ser obrigado a me privar do seu convívio, da sua companhia. Isso vai me doer muito. Não tenho muitos amigos confiáveis…
Eu continuava calado. Só então ele iniciou as explicações…
– Você faz negócios com o governo. Não importa que seja empregado e não dono da agência. Ao mesmo tempo, tornou-se meu amigo, freqüenta minha casa, tem intimidade com vários secretários… Você acha que algum deles, sabendo que gosto de você, vai ter coragem de lhe negar algo?
Todos os meus argumentos foram inúteis. Eu o conhecia o suficiente para saber que tinha tomado a decisão e levaria o propósito até o fim.
– Rapaz! – era assim que me chamava quando perdia a paciência. – Na política a gente comete muitos erros. Quase todos têm conserto. Mas um é mortal, capaz de enterrar governos, quer lhes tirando a credibilidade, quer os derrubando. É manter “eminência parda laica ou religiosa”!…
Eu estava assustado. Nunca tinha me imaginado capaz de influenciar o governador ou os secretários. Nem imaginava o governador influenciável. Ele voltou a me lembrar da “mulher de César” – ser e parecer são igualmente importantes. E ele não queria correr riscos. Melhor cortar o mal pela raiz. Perguntei-lhe o que mudaria o fato de eu ser secretário…
– Você vai se tornar homem público, funcionário de governo. Homens públicos podem buscar poder e influência, é normal, faz parte da atividade. Na contrapartida, são fiscalizados pelos adversários, por companheiros, pela imprensa. O que não pode é misturar poder com negócio particular.
Explicou que desde os tempos de Richelieu, bispo que na França medieval exerceu grande poder sobre o rei, o mundo criou verdadeira ojeriza por eminências pardas. Como se a sociedade tivesse desenvolvido um antivírus para se livrar de praga grave. Antes de dar por encerrada a conversa, determinou:
– Tem mais uma coisa, diz para seu patrão fechar a filial da agência. Não fica bem para um secretário de Comunicação fazer negócio com a antiga empresa.
Quando deixei o governo, estava sem emprego e continuava precisando trabalhar para viver… Mas tinha escapado de me tornar “delúbio” ou “valério”…
História antiga, ainda atual.
