O Governador e o Amigo Ladrão

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

O governador tinha um histórico de vida exemplar: trabalhador, competente, honesto. Eleito, acabou nomeando secretários pessoas que não escolheria para freqüentar a intimidade da sua casa; era o preço a ser pago para acomodar as diversas correntes políticas que se abrigavam no partido. Nomeou também amigos, que imaginava serem leais e corretos. Mannesmann – nomeado presidente de estatal – era um deles.

Encontrei o governador tomando o café da manhã sozinho. Estava quieto, silencioso. Percebia-se facilmente estar chateado. Imaginei que fosse mais um dos tantos problemas administrativos de solução complicada.

– Que nada! É bem pior… – As reticências e a falta de explicação não faziam parte do seu jeito de ser, demonstração clara de que o problema realmente era grave.

Silêncio longo, finalmente interrompido:

– É o Mannesmann! Imagina que descobri que ele anda “desviando” dinheiro da estatal. Logo ele, amigo de tantos anos. Eu o nomeei porque imaginava conhecê-lo. Sempre me pareceu sério, competente, honesto…

– O senhor não está enganado? – Eu já aprendera que a boataria fazia parte do dia-a-dia da política. E muitas vezes eram os próprios partidários os que buscavam “derrubar” um companheiro, pelos mais diferentes motivos.

– Não tenho como duvidar das “provas” que me apresentaram… – O governador desfilou uma série de trambiques, muitos documentados.

Deixei-o absorto com seus pensamentos e reflexões. Não me cabia dar palpite. O amigo era dele. A decisão de nomeá-lo era exclusiva do governador.

Dois meses depois, o governador voltou ao assunto:

– Você sabia que o Mannesmann continua aprontando?

Diante do meu continuado silêncio, cobrou respostas:

– Você não diz nada?

– O que o senhor quer ouvir? – Perguntei-lhe, de forma respeitosa. – Não há nada a comentar… O senhor me desculpe, mas acho que o culpado é o senhor…

– Que é que você quer dizer? – A ira dele era contida, mas evidente. – Você não está achando que estou metido nisso, está?

– Não senhor, longe de mim pensar isso. Mas o senhor é o responsável… Num primeiro momento, ele roubava e o senhor não sabia, o que o isentava de culpa. Mas desde que o senhor sabe dos trambiques e não o demite, a responsabilidade passa a ser sua…

Mais uma história antiga, sempre atual.

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