DERROTA DE TRUMP NAS MIDTERMS É MÁ NOTÍCIA PARA O EIXO DO MAL

Há meses vínhamos apontando que a Venezuela não era episódio isolado da política externa de Donald Trump, mas o primeiro movimento de uma reorganização mais ampla do Hemisfério Ocidental, na qual a extração de Nicolás Maduro, a entrada americana no petróleo venezuelano, a designação de cartéis e facções como organizações terroristas e a criação do Shield of the Americas compunham um mesmo desenho estratégico. A derrota republicana nas eleições legislativas não interrompe essa trajetória, mas reduz o espaço de Trump para sua agenda interna justamente quando a Presidência conserva instrumentos muito mais livres na política externa, na inteligência, nas sanções e no emprego das Forças Armadas, o que tende a deslocar para as Américas uma parcela ainda maior da energia política de seu segundo biênio.
O Eixo do Mal é a convergência de interesses entre regimes, organizações armadas, redes criminosas, movimentos políticos, estruturas financeiras e potências extrarregionais que não precisam compartilhar a mesma ideologia nem obedecer ao mesmo comando para encontrar utilidade recíproca na contestação da primazia americana nas Américas, na preservação de zonas de proteção, na circulação de dinheiro, drogas e armas e na ampliação de influência política, econômica e estratégica. Cuba, os remanescentes do chavismo, o ELN, cartéis do narcotráfico, PCC, Comando Vermelho, redes ligadas ao Hezbollah, interesses iranianos, presença russa e expansão chinesa ocupam posições diferentes dentro desse ambiente, mas convergem o bastante para que Washington passe a enxergá-los como partes de um mesmo tabuleiro, ao redor do qual ainda gravitam fundações privadas, organizações não governamentais e movimentos esquerdistas transnacionais.
Bruxelas ocupa posição importante nessa infraestrutura internacional de financiamento, assim como a rede financiada pelo milionário Neville Roy Singham, radicado em Xangai, e a Open Society Foundations, de George Soros, que ao longo dos anos sustentaram organizações, campanhas e estruturas de advocacy em diversos países. Trump atacou também a versão estatal americana desse modelo ao desmontar grande parte da USAID e concentrar o que restou sob controle mais direto do Departamento de Estado, substituindo parte do antigo soft power pulverizado por tarifas, sanções, inteligência, diplomacia coercitiva e projeção militar, numa mudança que revela a passagem de uma política de influência difusa para outra baseada em poder estatal concentrado.
É nesse ambiente que a polêmica reeleição de Lula em 25 de outubro colocou o Brasil no coração da disputa hemisférica, porque, embora a Justiça Eleitoral tenha proclamado a vitória e diversos governos tenham se apressado em reconhecê-la, a Casa Branca permaneceu sem reconhecimento formal imediato, enquanto Trump questionava publicamente a eleição brasileira e Javier Milei evitava acompanhar a chancela diplomática oferecida por outros países. O silêncio de Washington e Buenos Aires ganhou peso político adicional justamente por partir dos dois governos mais próximos de Flávio Bolsonaro e por ocorrer num momento em que as relações entre o bolsonarismo e a administração Trump já haviam deixado de ser apenas ideológicas para adquirir contornos de proteção, articulação e conflito diplomático aberto com Brasília.
A complexa e cinematográfica exfiltração de Flávio, digna de Hollywood, deu materialidade a essa ruptura e acrescentou-lhe uma dimensão de segurança que não pode ser dissociada da história recente da família Bolsonaro. Jair quase morreu esfaqueado em 2018 por Adélio Bispo, ex-filiado ao PSOL, e oito anos depois Flávio atravessou a campanha presidencial sob proteção reforçada e usando permanentemente colete à prova de balas diante das ameaças relatadas por sua equipe, num ambiente em que a violência política já havia produzido vítimas reais também nos Estados Unidos.
Charlie Kirk tornou-se o símbolo mais dramático dessa escalada. Fundador da Turning Point USA, aliado próximo de Trump e uma das principais vozes do conservadorismo jovem americano, ele transformou os campi universitários em seu principal campo de batalha político, percorrendo universidades para confrontar publicamente ideias progressistas e mobilizar uma nova geração conservadora, até ser morto por um disparo de rifle durante um evento universitário em Utah, num crime pelo qual Tyler James Robinson passou a responder sob acusação de motivação política. O assassinato ocorreu depois de o próprio Trump ter escapado por centímetros da morte num comício na Pensilvânia, quando um atirador atingiu sua orelha, matou um espectador e feriu outros, e poucos meses antes de outro homem armado ser interceptado nas proximidades de seu campo de golfe na Flórida.
A morte de Kirk, entretanto, não produziu apenas luto, mas também escárnio, banalização e uma cultura digital mórbida que passou a transformar seu rosto em matéria-prima para montagens e memes sob o nome de “Kirkification”. No Brasil, esse fenômeno ganhou conteúdo muito mais grave quando o rosto de Kirk foi sobreposto ao de Júlia Zanatta durante manifestação política, associando visualmente uma deputada viva ao destino de um homem assassinado a tiros, enquanto outro ato incendiava um boneco representando a parlamentar aos gritos de “fogo nos fascistas”. Júlia acabara de conquistar 560.223 votos em Santa Catarina e se tornara proporcionalmente a candidata mulher a deputada federal mais votada do Brasil em 2026, de modo que a intimidação recaía justamente sobre uma liderança legitimada por votação extraordinária.
A mesma lógica avançou para dentro da Universidade Federal de Santa Catarina, onde o Diretório Central dos Estudantes mobilizou-se para impedir uma palestra de Júlia Zanatta e Paulo Kogos, exigindo a proibição do evento e o fim do núcleo acadêmico responsável pelo convite, ao mesmo tempo em que se apresentava como antifascista e acusava os convidados e seus apoiadores de fascismo. Impedir o adversário de falar, expulsá-lo do espaço público e tentar extinguir a organização que lhe abriu as portas é método fascista, fundado na intolerância ao pluralismo e na supressão de quem pensa diferente, exatamente como sintetizou Seton Motley em 2018 no artigo The Left: Experts At Accusing Others Of That Which They Do, expressão que se encaixa com precisão num episódio em que o rótulo de fascista deixa de servir para descrever e passa a funcionar como licença para censurar.
É nesse ambiente que a exfiltração de Flávio deve ser compreendida, porque Eduardo Bolsonaro já estava exilado nos Estados Unidos quando Flávio deixou o Brasil após a eleição e encontrou acolhida no mesmo país que questionava o resultado brasileiro e acumulava conflitos com autoridades de Brasília. A condenação de Jair, Eduardo já fora do país, Flávio exfiltrado e a escalada diplomática com Washington transformaram uma crise doméstica em questão hemisférica, ao mesmo tempo em que PCC e Comando Vermelho passaram a ser tratados pelos Estados Unidos como organizações terroristas, ampliando o arsenal jurídico, financeiro e operacional disponível contra suas redes.
A Venezuela mostrou como essa mudança de categoria pode alterar também o campo de batalha. O ELN, criado em 1964 na confluência entre marxismo-leninismo, Revolução Cubana, guevarismo e Teologia da Libertação, encontrou durante anos em território venezuelano abrigo, rotas, mineração ilegal e espaço para reorganização, enquanto no Brasil essa mesma matriz cristã de esquerda percorreu caminho institucional e influenciou comunidades eclesiais de base, movimentos sociais e setores que participaram da formação do PT. O Foro de São Paulo, organizado pelo PT e por Fidel Castro quando o comunismo desmoronava na Europa, reuniu partidos eleitorais, movimentos revolucionários e organizações provenientes da luta armada, dando coesão política continental a uma rede que teve na Venezuela chavista sua principal profundidade estratégica.
Esse mundo começou a ruir com a queda de Maduro. A Venezuela já não pode ser lida pelo mapa ideológico de poucos meses atrás, porque María Corina Machado voltou ao país, reformas institucionais avançam, novas eleições passaram novamente ao horizonte e Washington ampliou sua influência sobre a reorganização política, econômica e securitária venezuelana, enquanto drones americanos já atingiram posições do ELN em Apure e está em negociação um acordo sobre o status das forças que poderá permitir treinamento, circulação e presença militar dos Estados Unidos em território venezuelano.
A mudança é particularmente importante para o Brasil porque a Venezuela compartilha mais de dois mil quilômetros de fronteira com o território brasileiro e aquilo que durante décadas funcionou como principal retaguarda continental do chavismo pode transformar-se em plataforma avançada da nova arquitetura estratégica americana. Se a cooperação militar em curso se aprofundar, militares dos Estados Unidos poderão operar regularmente do outro lado da fronteira amazônica brasileira, fazendo com que o Shield of the Americas deixe de ser apenas conceito político para ganhar uma dimensão territorial e militar impossível de ignorar.
O Brasil passa, assim, a ocupar uma posição cada vez mais desconfortável dentro de um continente cuja geografia política mudou rapidamente. Ao sul, a Argentina de Milei estreitou sua relação com Washington; ao norte, a antiga Venezuela chavista passa por uma transformação profunda e se aproxima da arquitetura americana de segurança; a maior parte da América do Sul já é governada por forças de direita ou centro-direita; e o poder naval e aéreo dos Estados Unidos domina o Caribe e o Atlântico, formando ao redor do país um cinturão estratégico que não depende de ocupação militar clássica, mas de governos aliados, inteligência, sanções, acordos de segurança, controle de rotas e capacidade tecnológica distribuída.
Essa inversão altera profundamente a posição brasileira porque o país é grande demais para ser tratado como periferia e importante demais para permanecer fora da disputa. Possui a maior economia da América do Sul, petróleo, minerais críticos, a maior parcela da Amazônia e uma relação econômica central com a China, além de integrar o BRICS ao lado de Pequim e Moscou, o que faz com que nenhum projeto americano de restauração da primazia hemisférica esteja completo sem o Brasil, assim como nenhuma estratégia chinesa para a América Latina pode prescindir dele.
A reeleição de Lula adquire, por isso, dimensão muito maior do que uma disputa doméstica, pois sua política externa preserva o BRICS, a relação profunda com a China e a interlocução com Rússia e Irã exatamente no momento em que os Estados Unidos reorganizam politicamente o espaço ao redor do Brasil. A derrota republicana nas eleições legislativas pode, paradoxalmente, tornar essa política externa ainda mais importante para Trump, porque, com menos liberdade para avançar internamente, ele continuará controlando as Forças Armadas, a diplomacia, as sanções e o aparato de inteligência da maior potência militar do mundo, instrumentos suficientes para fazer das Américas o principal palco de afirmação de poder na segunda metade de seu mandato.
A Venezuela não terminou em Maduro; transformou-se no primeiro grande laboratório dessa nova ordem, e o mapa que emerge ao redor do Brasil mostra uma esquerda brasileira progressivamente privada da retaguarda continental de que desfrutou durante décadas, comprimida entre uma Argentina alinhada a Washington, uma Venezuela em processo de deschavização sob crescente influência americana e uma América do Sul que perdeu rapidamente a configuração política que sustentou o bolivarianismo.
O Eixo do Mal no Brasil começa, assim, a descobrir que perdeu profundidade estratégica, aliados e espaço de manobra justamente quando o Shield of the Americas ganha forma política, econômica e militar no entorno imediato do país. A esquerda brasileira já não está diante de uma América do Sul politicamente favorável, mas no centro de um continente que se reorganiza rapidamente em direção oposta àquela que, durante décadas, sustentou o projeto bolivariano.
