URUBICI, MUITO ALÉM DA PAISAGEM

Nossa viagem a Urubici começou com um test-drive do Volvo EX30 Twin Motor Performance AWD, gentilmente cedido pela Volvo Dimas. Já havia experimentado a versão Single Motor, de 272 cv, cuja agilidade me surpreendera. Desta vez, tínhamos à disposição dois motores, impressionantes 428 cv e tração integral, capazes de levar o SUV de 0 a 100 km/h em apenas 3,6 segundos. Números dignos de esportivos de categoria muito superior. A proposta era conhecer o comportamento do carro nas condições reais de uma viagem à Serra Catarinense, alternando rodovias, subidas acentuadas e estradas rurais, sem abrir mão dos prazeres gastronômicos que costumam marcar nossos passeios.
Saímos de Florianópolis com a bateria próxima de 90%. À medida que deixávamos o litoral e começávamos a vencer as serras em direção ao planalto, o EX30 revelava uma de suas características mais agradáveis: a força disponível ao menor movimento do acelerador. As ultrapassagens eram rápidas, as retomadas exigiam pouco esforço e o silêncio a bordo tornava a viagem particularmente confortável. Mais adiante, teríamos oportunidade de conhecer melhor sua tração integral.
A primeira parada, como já se tornou tradição, foi no Quintal di Catarina, em Bom Retiro. É daqueles estabelecimentos que justificam sair da estrada, especialmente para quem aprecia boa gastronomia e produtos artesanais. Renatinho, como é conhecido Renato Farias, recebeu-nos com a habitual cordialidade e preparou, a nosso pedido, deliciosos paninis com bresaola de produção própria, mostarda e cebola caramelizada, também feitas na casa. O detalhe ficou por conta do preparo: os pães foram tostados nos antigos Tostex de fogão, aquelas sanduicheiras de ferro que vão diretamente à chama, tão presentes nas cozinhas brasileiras de outros tempos. Crocantes por fora, com o recheio aquecido na medida certa, ficaram extraordinários.
Provamos ainda outros embutidos, excelentes queijos e uma truta recém-defumada espetacular. O suco de uva que costumamos apreciar na casa já justificaria a parada, mas fomos surpreendidos pelo Celestino, produzido em Urubici, uma deliciosa combinação de maçã com goiaba-serrana, sem adição de açúcar ou conservantes. Também conhecida como feijoa, a goiaba-serrana é uma fruta nativa do Sul do Brasil, de casca verde, polpa clara e perfume intenso, cujo sabor doce-acidulado lembra abacaxi, morango e banana. Ainda pouco conhecida fora da região, vem sendo valorizada pela pesquisa agropecuária catarinense e oferece possibilidades interessantes para sucos, geleias e outras especialidades.
Outra novidade foi a banha de porco orgânica produzida a partir da gordura utilizada para confitar cortes suínos. A técnica de cocção lenta, tradicional na gastronomia francesa, preserva a suculência das carnes e permite aproveitar a gordura em outros preparos. Renatinho realiza um trabalho admirável ao reunir pequenos produtores e demonstrar como qualidade e identidade gastronômica podem agregar valor à produção rural.
E uma notícia em primeira mão: o Quintal di Catarina passará a preparar sanduíches na hora, com os próprios embutidos, queijos e demais produtos do empório, para serem saboreados nas mesas de um novo deck. A proposta lembra as tradicionais salumerie italianas, onde a excelência dos ingredientes dispensa complicações culinárias. Uma iniciativa que promete tornar nossa parada em Bom Retiro ainda mais prazerosa.
De volta à estrada, seguimos em direção à Serra do Panelão, uma região de belas paisagens e vinhedos de altitude. O relevo acidentado, que exige mais energia nas subidas, também proporciona oportunidades de recuperação nas descidas, graças à frenagem regenerativa do Volvo. É interessante perceber como a condução de um elétrico transforma a relação do motorista com a topografia, sem exigir qualquer mudança na maneira de viajar.
Outra tradição de nossas incursões pela Serra Catarinense é visitar a Vinícola Serra do Sol, antes de chegar a Urubici. Já mencionada em artigos anteriores, a propriedade merece sempre uma nova visita. Era nossa quarta ou quinta passagem por lá e, nesses encontros, construímos uma amizade com Maurício Milesqui e Ana Roberta Zilli, a Berta. Os vinhedos, cultivados a aproximadamente 1.250 metros de altitude, fazem parte da expansão da vitivinicultura catarinense.
Adquirimos duas garrafas do espumante Brut Rosé Sangiovese. Uma ficou reservada para brindarmos na pousada; a outra seria presenteada aos amigos Fauzi e Dani Jordy, com quem nos encontraríamos em Urubici. Fresco, delicado e equilibrado, o espumante nos agradou tanto que, no retorno a Florianópolis, passamos novamente pela vinícola para comprar mais garrafas. É gratificante acompanhar a evolução de um empreendimento assim, conhecer as pessoas por trás dos rótulos e perceber que a qualidade acompanha a dedicação de quem os produz.
Chegamos a Urubici com 35% de carga na bateria, depois de atravessar grandes trechos serranos e vencer consideráveis variações de altitude. Havíamos utilizado cerca de 55% da capacidade da bateria desde Florianópolis, confirmando que a viagem podia ser realizada com tranquilidade, sem necessidade de recarga no caminho.
Urubici continua impressionando, mesmo depois de tantas visitas. Situada a aproximadamente 915 metros de altitude, tem nas montanhas, nos campos, nas cachoeiras e nas florestas de araucárias um patrimônio natural extraordinário. O Morro da Igreja, com a Pedra Furada, a Serra do Corvo Branco, a Cascata do Avencal e o Morro do Campestre são algumas de suas atrações mais conhecidas. Mas o município vem desenvolvendo outros atributos que justificam a viagem mesmo quando o tempo não favorece os passeios ao ar livre.
A gastronomia é um deles. Nesta visita conhecemos o La Morena, especializado em carnes nobres preparadas na parrilla. Pedimos um assado de tira Angus excepcional, corte transversal da costela que reúne sabor intenso, suculência e a textura característica da carne próxima ao osso. A casa também trabalha com Wagyu, raça japonesa famosa pelo marmoreio, cuja criação vem sendo desenvolvida na região pelos próprios proprietários do restaurante. Um exemplo da integração entre pecuária especializada e gastronomia.
Revisitamos também o Montês, que permanece entre nossos restaurantes preferidos de Urubici. O almoço ganhou ainda mais sabor com a companhia de Fauzi e Dani Jordy, da Amazon Fruit, verdadeira embaixada da gastronomia paraense em Florianópolis, onde o açaí tradicional e o tacacá conquistaram público fiel. Os amigos já manifestaram vontade de voltar à Serra em nossa companhia. Depois de tantas incursões pela região, acumulamos um repertório de lugares, sabores e boas amizades que torna especialmente prazeroso compartilhar novas descobertas.
À frente da cozinha do Montês está o chef Nino de Paula, mineiro de Juiz de Fora e filho do saudoso chef Marcão de Paula, de quem herdou a ligação familiar com a gastronomia. Sua proposta combina influências internacionais e ingredientes regionais numa interpretação contemporânea dos sabores serranos.
Começamos com duas excelentes entradas: a croqueta de truta defumada, acompanhada de geleia de pimenta artesanal, e a Carne da Dona Onça, interpretação da casa para o steak tartare, com filé-mignon cru picado na ponta da faca, alcaparras, mostarda Dijon, molho inglês, páprica defumada e cebola-roxa, servida com focaccia da casa.
Nos pratos principais, escolhemos o filé de truta assado com alcaparras, acompanhado de farinha de milho, musseline de batata, espinafre refogado e molho de alcaparras com vinho branco, alho e cebola assados. Vieram também o Filé à Montês, com molho de mostarda Dijon, batatas ao murro, espinafre salteado e crispy de alho-poró, e o Tornedor com Cogumelos, servido com risoto de cogumelos frescos, molho bordelaise e farofa crocante de pinhão.
Entre as sobremesas, destaque para a Nossa Cuca, deliciosa combinação de farofa de cuca alemã, banana grelhada, calda de doce de leite de ovelha e sorvete. Provamos também A Maçã e os Dois Méis, de apresentação belíssima: uma esfera de sorvete de leite de ovelha e chocolate branco, recheada com redução de maçã, acompanhada de mel de bracatinga, cacau 70%, chantilly de nata, mel silvestre e crumble de amêndoas. Para completar, uma gentileza do chef: torta basca de café, de textura cremosa e sabor marcante.
A cozinha é cuidadosa, a apresentação dos pratos caprichada e o ambiente convida a prolongar a refeição. Já conhecíamos também o Sêmola e o Green Barn, ambos excelentes. Urubici reúne hoje restaurantes que nada ficam devendo a bons estabelecimentos de centros urbanos muito maiores.
O almoço foi acompanhado pelo Sangiovese tinto da Serra do Sol, comercializado pelo próprio Montês. Lembrou-me um bom Chianti, comparação natural, já que a Sangiovese é a principal casta dos vinhos daquela região da Toscana. A acidez, a expressão frutada e a vocação gastronômica estavam presentes, mostrando o potencial da Serra Catarinense para variedades historicamente associadas à Itália.
A lembrança da Toscana veio também pela qualidade das hospedagens que surgem em Urubici. Algumas remetem aos agriturismi italianos, onde hospitalidade, natureza, produção local e gastronomia convivem harmoniosamente. Nascido da integração entre agricultura e hospedagem, esse modelo permitiu recuperar propriedades rurais, preservar costumes e criar novas fontes de renda. Em Urubici, empreendimentos com proposta semelhante valorizam privacidade, conforto, arquitetura integrada à paisagem e atendimento personalizado.
Ficamos na Pousada e Bistrô Encantos de Urubici, a aproximadamente 1.040 metros de altitude, cerca de 125 metros acima da sede urbana. A indicação veio de Berta, prima de Lu, esposa de Adriano Manente. Ela destacou especialmente a vista panorâmica, e não exagerou. Dos chalés, confortáveis e aconchegantes, avistam-se a cidade e uma extensa floresta de araucárias que cobre as encostas. O caprichado café da manhã e a atenção de Adriano completam a experiência. Cordial, disponível e atento aos detalhes, ele é daqueles anfitriões que fazem o hóspede se sentir verdadeiramente acolhido.
Lamentamos não ter conhecido a cozinha do bistrô, temporariamente fechado porque Lu estava ausente, cuidando da saúde. Segundo Berta, sua prima é uma excelente cozinheira, o que aumentou nossa vontade de voltar. Desejamos a Lu uma pronta e plena recuperação, para que em breve possa retomar suas atividades.
No alto da propriedade, uma nascente de água puríssima brota diretamente de um paredão de pedra. Desfrutar daquela água cristalina, cercado pela vegetação serrana e pelo silêncio das montanhas, foi um dos prazeres da estadia. Foi também diante dessa paisagem que brindamos com o espumante rosé adquirido na Serra do Sol.
O acesso à pousada proporcionou uma excelente oportunidade para experimentar a tração integral do Volvo EX30 Twin. Uma subida bastante íngreme, de cascalho ainda úmido pela chuva, com uma curva fechada próxima ao topo. O sistema 4×4 utiliza dois motores elétricos independentes, um em cada eixo, com gerenciamento eletrônico do torque conforme as condições de aderência. Com seus 428 cv e impressionantes 55,4 kgf·m de torque, o carro venceu o aclive com absoluta naturalidade. O Twin simplesmente não tomou conhecimento da subida! Como bem observou Matheus Afonso, da @eletricarbr, ao comentar nossa experiência: “Tração integral elétrica é uma coisa surpreendente. Nem todo mundo percebe, mas muda tudo.”
Foi nessa situação, mais do que nas acelerações em rodovia, que percebi a diferença prática entre as duas versões. A Twin possui potência 57% superior à da Single Motor e aproximadamente 58% mais torque. O que impressiona é a maneira como toda essa força chega ao solo, sem hesitações, mesmo em piso de aderência limitada.
Para dimensionar esse desempenho, basta compará-lo ao Porsche Macan GTS elétrico, de 571 cv, que acelera de 0 a 100 km/h em 3,8 segundos e custa aproximadamente R$ 880 mil. O Volvo EX30 Twin, de cerca de R$ 320 mil, é ligeiramente mais rápido, cumprindo a mesma prova em 3,6 segundos, por R$ 560 mil a menos. Uma relação entre preço e desempenho impressionante.
Durante nossa permanência em Urubici, utilizamos exclusivamente o eletroposto da RB Motors, por oferecer recarga semirrápida, com potência de aproximadamente 25 kW. Foi suficiente para recuperar a energia necessária sem comprometer a programação. Para o retorno, bastou completar a bateria até 60%. Chegamos a Florianópolis com 20% restantes, depois de utilizar cerca de 40% da capacidade da bateria no percurso. A diferença em relação à ida reflete a influência do relevo, com as descidas favorecendo a eficiência e a recuperação de energia pela frenagem regenerativa. Em nenhum momento precisamos adaptar a viagem às necessidades do carro.
A infraestrutura regional de recarga também avança. A WeCharge, ligada ao Grupo Dimas, mantém pontos cadastrados em Bom Retiro, no Restaurante Las Marias, às margens da BR-282, e na Vinícola Thera, na SC-110. O Las Marias deverá receber um carregador rápido, o que facilitará ainda mais os deslocamentos elétricos pela Serra Catarinense.
Urubici já é muito mais do que suas belas paisagens. E, felizmente, continua a poucas horas de Florianópolis.
