REINO UNIDO ESPERA PELO PIOR

Quando um governo recomenda que milhões de famílias mantenham em casa recursos suficientes para atravessar três dias de interrupção de serviços essenciais, está reagindo a um risco concreto. Nesta semana, Londres passou a orientar oficialmente a população a se preparar para falhas de energia, água, internet, telefonia e sistemas de pagamento.
A lista é objetiva: água potável, alimentos que possam ser consumidos sem fogão ou micro-ondas, dinheiro em espécie, lanternas, rádio, pilhas e carregadores portáteis. Para famílias com bebês, entram também fraldas e alimentação infantil. Quem tem animais deve manter comida e água para eles. Em uma emergência mais ampla, cartões podem deixar de funcionar, caixas eletrônicos podem sair do ar, redes móveis podem falhar e supermercados podem enfrentar dificuldades de reposição.
O sinal mais forte veio do secretário da Defesa, Wes Streeting. Ele afirmou que o Reino Unido precisa estar preparado para a possibilidade de uma guerra dentro de pouco mais de mil dias, diante do avanço da capacidade militar de potenciais adversários até 2030. A orientação às famílias integra um programa de três anos destinado a aumentar a resistência da sociedade britânica diante de situações extremas.
A mudança de postura é significativa. Durante décadas, a defesa nacional foi tratada essencialmente como responsabilidade das Forças Armadas, dos serviços de inteligência e dos órgãos de segurança. Agora, a população civil passa a integrar o planejamento de resiliência do Estado. Um país será mais difícil de desorganizar se milhões de pessoas conseguirem permanecer alguns dias sem depender integralmente das redes de energia, comunicação, abastecimento e finanças.
O contexto de segurança explica a urgência. O MI5, serviço britânico de segurança interna, mantém o nível nacional de ameaça terrorista em SEVERE, categoria que significa que um atentado é considerado altamente provável. Seu diretor-geral, Sir Ken McCallum, afirmou neste mês que o país entrou em nova fase de segurança nacional, marcada por ameaças mais numerosas, complexas e difíceis de detectar.
Uma das maiores preocupações está debaixo do mar. Cerca de 99% do tráfego internacional de dados do Reino Unido passa por cabos submarinos. Aproximadamente três quartos do gás consumido pelo país chegam por dutos instalados no fundo do oceano. Segundo o próprio governo, cerca de 1,4 trilhão de libras em transações financeiras dependem diariamente dessas conexões.
Esses cabos transportam comunicações bancárias, dados empresariais, informações governamentais e enorme parcela da conexão britânica com o restante do mundo. Os gasodutos participam diretamente da segurança energética. Danificar pontos estratégicos dessa rede permitiria atingir simultaneamente comunicações, finanças, atividade econômica e abastecimento.
O fundo do mar tornou-se área prioritária de defesa. O Ministério da Defesa já revelou operações russas nas proximidades de estruturas consideradas vitais para o país. Em uma delas, acompanhada durante mais de um mês, cerca de 500 militares britânicos foram mobilizados, com navios, helicópteros e mais de 450 horas de voos de vigilância.
As autoridades identificaram unidades ligadas à GUGI, estrutura militar russa especializada, segundo Londres, em localizar e mapear instalações submarinas estratégicas para que possam ser danificadas ou destruídas em caso de conflito. O governo também informou que a presença de embarcações russas consideradas ameaçadoras aumentou 30% nas proximidades do Reino Unido nos últimos dois anos.
A resposta envolve vigilância naval, aeronaves antissubmarino, monitoramento de rotas e mudanças na legislação. Londres reconheceu que suas leis não foram concebidas para enfrentar plenamente esse tipo de ameaça e passou a preparar instrumentos específicos de proteção, com possibilidade de penas de até 14 anos de prisão para atos deliberados de sabotagem.
Uma guerra moderna não precisa começar com bombardeiros cruzando o Canal da Mancha. Pode começar com um cabo rompido no Atlântico, outro no Mar do Norte, uma rede elétrica atingida por ataque cibernético, sistemas bancários indisponíveis, comunicações interrompidas, um gasoduto danificado ou portos operando de forma precária.
É a lógica da guerra híbrida, na qual instrumentos militares, cibernéticos, econômicos e clandestinos são empregados em conjunto para enfraquecer um adversário sem a abertura imediata de uma guerra convencional.
Nesse cenário, a dependência tecnológica torna-se vulnerabilidade estratégica. Uma sociedade que funciona com pagamentos eletrônicos, internet permanente, logística informatizada e abastecimento contínuo de energia pode sofrer forte desorganização antes mesmo de qualquer ataque militar clássico.
A nova postura britânica parte dessa premissa: a próxima grande crise pode começar silenciosamente, atingindo primeiro os sistemas que sustentam a vida cotidiana
