Há uma inversão das prioridades morais quando exigir limpeza, circulação, segurança e respeito ao espaço público passa a ser interpretado como falta de humanidade, enquanto a perpetuação de condições degradantes é apresentada como expressão de solidariedade.

O fenômeno encontra explicação no conceito de “empatia suicida”, desenvolvido pelo cientista comportamental Gad Saad. Trata-se da perversão de uma virtude humana quando a preocupação com o sofrimento individual obscurece as consequências coletivas, levando sociedades a tolerar situações que comprometem sua própria qualidade de vida.

É o que acontece quando pessoas passam a ocupar permanentemente calçadas, praças e marquises, transformando espaços de circulação e convivência em dormitórios improvisados, frequentemente acompanhados de lixo, dejetos e deterioração do patrimônio urbano. A reação de quem exige providências é muitas vezes tratada como manifestação de insensibilidade, enquanto a distribuição indiscriminada de esmolas e marmitas recebe aplausos como exemplo de humanidade.

A satisfação moral de quem oferece auxílio imediato não significa necessariamente que esteja contribuindo para solucionar o problema. Alimentar alguém hoje, sem qualquer perspectiva de retirá-lo daquela condição, pode representar apenas a manutenção de um ciclo de dependência, abandono e degradação.

Mais grave é a transferência dos custos dessa tolerância com a desordem pública para toda a sociedade. O comerciante que encontra sua porta imunda, obstruída ou até arrombada, o pedestre obrigado caminhar pelo leito da rua, o morador que convive com sujeira e insegurança também possuem direitos. Nenhum deles deveria ser sacrificado para preservar a confortável imagem de generosidade de terceiros.

A verdadeira solidariedade exige responsabilidade, acolhimento organizado, assistência social, tratamento de dependências quando necessário e políticas efetivas de reinserção. Também exige autoridade para impedir a apropriação permanente dos espaços públicos e fazer cumprir regras elementares de convivência.

A cidade não pode ser transformada em abrigo a céu aberto, assim como a miséria não pode ser romantizada como expressão de liberdade individual. Permitir que seres humanos permaneçam indefinidamente vivendo entre lixo e dejetos não constitui demonstração de humanidade.

A compaixão que apenas perpetua a degradação deixa de ser solução e passa a integrar o problema.

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