O país “quebrado” e os números que Lula precisa explicar

Governo Central encerrou 2022 com superávit primário; sob a atual gestão, déficits anuais e aumento da dívida contrastam com o discurso presidencial.

O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva voltou a afirmar, em entrevista ao SBT nesta segunda-feira (19), que recebeu um país “quebrado”. A expressão tem força eleitoral, mas, quando aplicada às contas públicas, exige explicações que o discurso não oferece. Os registros oficiais mostram que o Governo Central encerrou 2022 com superávit primário.

Segundo o Tribunal de Contas da União, o resultado positivo daquele ano foi de R$ 54,9 bilhões. Isso significa que as receitas superaram as despesas antes do pagamento dos juros da dívida. É um dado objetivo, que precisa ser considerado quando o presidente descreve a situação fiscal recebida em janeiro de 2023.

Desde então, o Governo Central apresentou déficits primários nos fechamentos anuais de 2023, 2024 e 2025. Em 2026, o resultado acumulado de janeiro a agosto também foi negativo: R$ 94,9 bilhões, conforme o próprio Ministério da Fazenda. O ano ainda não terminou, mas o saldo efetivamente registrado até agosto está longe de representar equilíbrio entre receitas e despesas.

A dívida também avançou. Nos dados apresentados pelo TCU, a Dívida Bruta do Governo Geral correspondia a 71,7% do Produto Interno Bruto em 2022. Em agosto de 2026, atingiu 82,9%, segundo o Banco Central. O indicador reúne o endividamento federal, estadual e municipal e mostra uma deterioração expressiva no período.

O superávit primário de um ano não elimina problemas estruturais, assim como a trajetória da dívida depende também dos juros e do crescimento econômico. Mas essas diferenças não autorizam transformar uma descrição política em diagnóstico fiscal. Se o presidente considera que recebeu um país quebrado, precisa explicar quais indicadores sustentam essa afirmação e como avalia os resultados de sua própria gestão.

Também é necessário distinguir previsão de realização. Um orçamento que prevê superávit expressa uma intenção; o resultado das contas mostra o que efetivamente aconteceu. Apresentar uma expectativa como conquista consumada confunde o cidadão e empobrece o debate.

O eleitor tem direito de conhecer a situação que o governo recebeu e aquela que está deixando. Responsabilidade fiscal começa pela responsabilidade com a informação. Quem pede mais quatro anos de mandato deve explicar os números, inclusive os desfavoráveis, com a mesma disposição com que apresenta suas promessas.

#ContasPúblicas #ResponsabilidadeFiscal #DívidaPública #Economia #Lula #Eleições2026 #DMANotícias

Sobre o autor

Compartilhar em: